Seções | Mudança de hábito | Artigo

Finalmente, meu artigo sobre procrastinação

Unir motivação interna e algum tipo de controle externo é uma estratégia eficaz para evitar a enrolação

POR:
Rodrigo Ratier

Rodrigo Ratier,
Editor executivo de NOVA ESCOLA e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

No momento em que digito este texto, são 22h10 do dia 15 de agosto. Pelo prazo que eu mesmo estabeleci, o artigo deveria estar pronto uma semana atrás. Se estivesse, eu não precisaria estar trabalhando de casa, ansioso com a data de fechamento da revista perigosamente próxima. Agora, é escrever ou escrever, se não quiser imprimir aqui uma constrangedora página em branco.

Procrastinar, do latim procrastinare, significa transferir para outro dia ou deixar para depois, ensina o Houaiss. Um hábito desde sempre praticado por homens e mulheres (eles um pouco mais que elas, segundo as pesquisas), mas que só virou um problema em sociedades técnicas avançadas 

como a nossa. Quanto mais se exige produção, maior o número de compromissos e prazos, e maior a quantidade de pessoas que não cumprem compromissos e prazos. A coisa está cada vez mais séria. Piers Steel, especialista em ciências da motivação da Universidade de Calgary, no Canadá, diz que o índice de enroladores aumentou nos últimos 25 anos (bit.ly/procra1). Faz sentido: é o período em que a tecnologia pôs na palma da mão um gigantesco cardápio de distrações.

 Da linha do tempo infinita do Facebook aos ovinhos de Pokémon Go, tudo parece conspirar para o exercício da arte de encher linguiça - expressão do tempo em que se recheava as tripas de porco com qualquer tipo de carne e gordura, ocupando o espaço do essencial. Como acabei de fazer.

Dá para ser diferente. Para Dan Ariely, especialista em economia comportamental da Universidade Duke, nos Estados Unidos, uma das estratégias mais eficientes contra a procrastinação é definir, por conta própria, prazos anteriores à entrega. Como você viu, foi justamente o que tentei fazer com este texto... e deu errado!

Faltou aplicar a tática completa: estabelecer um combinado de cumprir a data, pedir vigilância a alguém e prever uma sanção caso eu falhasse. Ariely usou seus alunos para provar essa tese. Na primeira aula, ele explicou que a nota seria constituída de três trabalhos, cujas datas de entrega os estudantes poderiam escolher livremente, desde que combinassem com o professor. A classe daria uma força para que todos fossem pontuais (a vigilância) e os retardatários perderiam 1% da nota a cada dia de atraso (a sanção, que pode ser suave, como no exemplo). Deu certo: a maioria entregou tudo no prazo certo e - importante - conseguiu tirar notas boas. "Parece que simplesmente oferecer uma ferramenta de compromisso público com prazos ajuda a cumprir metas", escreveu Ariely em seu blog (bit.ly/procra2).

Esse mix de motivação interna e pressão externa moderada pode valer para nós também. No próximo mês, vou tentar me comprometer a entregar o texto num prazo decente e pedir a alguém para ficar de olho. Quanto à sanção, vou deixar você sugerir para o meu chefe (leandro@novaescola.org.br). Pega leve, por favor :-).


Ilustração: Adriana Komura