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Por: Rodrigo Ratier, Pedro Annunciato e Patrick Cassimiro

Como trabalhar com alunos difíceis

Essa tarefa não precisa ser um abacaxi. Reunimos 18 estratégias para conviver bem mesmo com os estudantes mais desafiadores

Os alunos da EMEFM Vereador Ângelo Corassa Filho, em Paulínia, no interior paulista, sabem a quem recorrer quando precisam desabafar. Sempre disposta a ouvir, a professora Mônica de Oliveira cultiva uma relação de cumplicidade com os jovens. "Claro que, de vez em quando, ocorrem problemas", diz a docente, que, como qualquer outra, tem que lidar com estudantes que são verdadeiros testes de paciência.

Mônica guarda na memória um episódio traumático ocorrido em 2013 com um aluno que a tirava do sério constantemente. Ela organizou algumas sessões de filmes para a turma do 7º ano, mas a diversão se transformou em pesadelo. "O garoto aprontou todas. Quando eu já estava no 'limite', ele bateu de propósito no braço de uma colega que estava com um copo cheio de guaraná e fez voar bebida por todo o lado." Quando viu a cena, Mônica perdeu a cabeça e atirou no aluno a primeira coisa ao alcance da mão ? felizmente, era só um copinho plástico vazio. Atônito, o jovem ficou sem reação. E a professora caiu em prantos. A carga de estresse foi tão grande que ela ficou afastada por 15 dias para se recuperar.
 

Reconstruir a relação
Depois do incidente, Mônica resolveu conversar com a turma. Ela expôs o que sentiu e pediu desculpas publicamente ao aluno. Dali em diante, a relação dos dois melhorou muito e eles construíram laços de respeito e amizade.

Esse garoto não devia ser muito diferente de algum que conhecemos, que rotulamos como um "aluno difícil", que nos provoca sentimentos poucos nobres como frustração e raiva. Tentamos de tudo, mas nada parece sensibilizá-lo. O que fazer?

Em primeiro lugar, é necessário questionar a ideia do "difícil". É melhor - e mais preciso - ser descritivo. Denominamos assim alguém que rompe as regras do contrato didático, atrapalha a aula e não cumpre as tarefas. Poderíamos chamá-lo de "indisciplinado", mas mesmo isso seria impreciso. "Alguns são apenas mais críticos. É como se eles destituíssem o docente das suas funções, o que naturalmente gera um incômodo", argumenta Adriana Ramos, coordenadora da pós-graduação do Instituto Vera Cruz, em São Paulo. 

É um perfil mais frequente no Fundamental 2, uma fase de muitas transformações. "No primeiro ciclo, as crianças ainda são muito submissas à autoridade e têm uma proximidade maior com o docente. À medida que crescem, elas questionam mais as regras e a proximidade se perde, já que os professores passam pouco tempo em sala", explica Flávia Vivaldi, mestre em Psicologia Educacional pela Universidade de Campinas (Unicamp). 

O cenário é complexo, mas o professor não está de mãos amarradas. Nas páginas a seguir, NOVA ESCOLA traz 18 dicas práticas que vão ajudar a enfrentar esse desafio no dia a dia.

 

1. Avalie se você quer mesmo ser professor

Pode parecer estranho começar uma lista de estratégias questionando se você está na profissão certa. Mas a autoanálise é necessária, pois há dificuldades próprias da docência. Sempre haverá alunos que desafiarão seus limites. Se você sente que esse tipo de situação não corresponde ao seu projeto de vida e às suas expectativas sobre a profissão, talvez seja a hora de repensar o rumo da carreira. Isso não é demérito nenhum.
 

2. Não cultive a antipatia 

É normal ter resistência a estudantes mais desafiadores, mas ela não pode prevalecer no convívio diário. Quando se cultiva sentimentos e pensamentos negativos, isso de algum modo transparece e o estudante sente que é indesejável, piorando ainda mais o clima. Um bom exercício de empatia é tentar se colocar no lugar da criança ou do jovem e entender os motivos que podem estar por trás do mau comportamento (dificuldades familiares, sobretudo).
Deixe-se sensibilizar por essas questões. Lembre-se de que, em alguns casos, você pode ser o único adulto próximo que se importa com ele.

3. Repense seus métodos e estratégias didáticas

Aulas centradas em cópias e exposições orais com pouca abertura para debates e gestão do tempo ineficiente (precisa perder dez minutos com a chamada?) tendem a aumentar o desconforto da sala. "Há correlação entre participação ativa e melhora do comportamento. Quanto mais intensa e ativa é a atuação da turma, menores os problemas", diz Adriana. Ela dá um exemplo: em uma aula de 50 minutos, o ideal é que o professor gaste no máximo dez com a exposição oral.
 

4. Faça um mapa de relacionamento

Tente identificar quem são os amigos, professores ou funcionários mais próximos do aluno que possam ser facilitadores do diálogo com ele. Essa observação não deve se limitar à sala, mas se estender a outros períodos. "Às vezes, a solução vem de onde menos se espera. Ele pode não se dar bem com ninguém, mas se sente à vontade com a merendeira, por exemplo. E pode ser essa funcionária a ponte que o professor procura", diz Celso Vasconcellos, doutor em Educação pela USP.
 

5. Conversa com colegas

Se possível, pergunte a professores que dão ou já deram aula para o aluno se eles passaram pelas mesmas dificuldades. Se ninguém tem sido capaz de chegar a esse estudante, use as reuniões da equipe para pensar em estratégias comuns. Isso ajudará a ver que o comportamento hostil não é ofensa  pessoal, mas sintoma de descontentamento com outros fatores. Exemplo: um aluno pode se comportar mal com o professor de Ciências tanto por não gostar da disciplina quanto por indisposição geral com o método de ensino.
 

6. Investigue a vida escolar 

Conhecer a trajetória do estudante pode ajudar a compreender as razões do mau comportamento. "Geralmente, há um histórico de fracasso escolar e consequente marginalização. Isso leva o sujeito a enxergar na incivilidade a única maneira de se sobressair no grupo", diz Flávia. Considere, também, uma avaliação do histórico clínico com a família. Há casos em que crianças e jovens tidos como difíceis, na verdade, possuem transtornos de hiperatividade ou outro tipo de problema, às vezes já diagnosticado e comprovado com laudo médico. Nessa circunstância, os avanços dependem também de acompanhamento especializado.

 

7. Busque afinidades

O aluno gosta de praticar esportes? Toca algum instrumento musical? Curte histórias em quadrinhos? Tem um irmão para quem você já deu aula? Interessar-se pelas preferências dele e buscar assuntos em comum é uma maneira de abrir possibilidades de diálogos produtivos. Com base nelas, dá para quebrar o gelo, estabelecer proximidade e entender melhor o perfil desse estudante.
 

8. Faça combinados e reavalie-os sempre

Uma das ações mais importantes é ter uma conversa individual com a criança ou o jovem, com o intuito de deixar claro o que o estudante tem feito de inadequado. O objetivo é provocar o próprio aluno a refletir sobre elas. Não use adjetivos nem faça acusações. Procure descrever as atitudes e nada mais. Com base nas conclusões, estabeleça com o estudante algumas metas concretas, como respeitar a vez dos colegas na hora de falar ou evitar xingamentos. Dê um prazo de uma semana ou mais para que elas sejam cumpridas. Ao fim do período estabelecido, volte a conversar com o aluno para avaliar os resultados. Provavelmente serão necessárias muitas conversas. Não desista.
 

9. Só chame a atenção em particular

Ninguém gosta de ser criticado e exposto publicamente. Seus alunos desafiadores também não, pois isso causa constrangimento. Quando ele praticar alguma incivilidade mais grave ou não fizer as tarefas, chame-o para uma conversa
particular, se possível fora da sala. Não se esqueça de que o tom do diálogo é descritivo, e não acusatório. Em caso de mau comportamento recorrente e que afete os colegas de maneira mais direta, o assunto pode ser tratado numa roda de conversa, mas sem personificar o ato. A ideia é discutir a atitude, não julgar o culpado.
 

10. Invista tempo no contrato didático

A elaboração democrática das regras de convivência em sala e a construção do senso de responsabilidade coletiva devem ser levadas a sério. Os alunos difíceis precisam participar do processo. É importante estar aberto a ouvir as críticas deles e levá-las em consideração.
 

11. Jamais faça comparações

Uma das piores coisas que um professor pode fazer em sala de aula é utilizar um estudante como modelo para constranger o outro. Adriana é taxativa: "Quando o professor expõe a garotada dessa forma, ele os perde. Qualquer
tipo de comparação gera frustração em quem está em desvantagem e cria um ambiente de hostilidade, portanto não é eficaz. É o tipo de atitude nociva que deveria ser extinta de qualquer sala de aula."

12. Seja respeitoso e não use apelidos

O emprego de ironias, sarcasmos, palavras agressivas e gritos é extremamente prejudicial. Você é o adulto da relação e o principal responsável por garantir um tom de civilidade à conversa. "Com esses estudantes, a escola tem que ter uma linguagem firme, que é diferente de grosseria ou hostilidade", afirma Adriana. Além disso, nunca trate os alunos por apelidos. Chame-os sempre pelo nome, com respeito à individualidade.
 

13. Divirta-se com ele

Quando houver chance de realizar atividades recreativas, procure ficar perto do aluno difícil. Cultivar esses bons momentos é essencial para deixar claro que você quer estar junto com ele e se sente bem com isso. As crianças costumam se divertir muito no intervalo e o professor pode participar dessas brincadeiras em algumas ocasiões. Com os mais velhos, uma conversa mais descontraída pelos corredores é uma boa estratégia.
 

14. Não dê tratamento especial

Com a intenção de se esforçar para ajudar um estudante e agradá-lo de alguma forma, o professor pode cair num outro extremo e acabar elogiando excessivamente ou ignorando atitudes negativas. Na verdade, ele quer ser tratado como todos os outros. Elogiar, dizer palavras de estímulo e encorajamento faz parte da sua mudança de olhar sobre aquele aluno, mas não tenha receio de chamar a atenção quando for necessário. Você não está fazendo o bem quando deixa de responsabilizar o sujeito por um mau comportamento.

15. Não o "grupo dos piores"

Os momentos de trabalho em duplas, trios ou grupos maiores são grandes oportunidades para promover a inserção dos que atrapalham a aula e colaboram pouco. Por isso, pense em agrupamentos produtivos também em termos de comportamento. O ideal é que cada grupo definido reflita a heterogeneidade da turma, ou seja, que tenha um que seja mais quieto, outro mais falante, outro mais habilidoso na disciplina, outros com mais dificuldade. Flávia, no entanto, faz uma ressalva: "O professor precisa ter cuidado para não colocar junto alunos que tenham um relacionamento muito ruim. Forçar a situação pode acirrar ainda mais os ânimos".
 

16. Supere os rótulos

Quando se rotula uma criança ou adolescente como "preguiçoso", "irresponsável", "tagarela" ou "bagunceiro", você interioriza uma ideia equivocada de que ele não é capaz de aprender como todos os outros. Isso aumenta o sentimento
de rejeição do indivíduo, que provavelmente já sofre com uma autoimagem negativa. É preciso recuperar a confiança dele. Aposte no estudante, pois ele certamente tem algo de bom a oferecer. Ele possui facilidade em Matemática ou em Língua Estrangeira? Então, pode ajudar outros colegas da classe em uma atividade de uma dessas disciplinas em que se sai melhor. Sabe lidar com tecnologia? Convide-o a colaborar com as aulas no laboratório de informática. "O aluno precisa vivenciar essas boas experiências para deixar de ser o foco da turma pelo lado negativo e passar a ser um líder positivo", justifica Adriana.
 

17. Não use a família como ameaça

"Ou você se comporta, ou vou chamar seus pais" não é o tipo de argumento que deve ser utilizado, mesmo em situações-limite. Quando for preciso conversar com a família, é importante que o aluno seja comunicado previamente e o objetivo da convocação apresentado. Se houver espaço para negociação, vale até mesmo ponderar com o próprio estudante se a reunião é realmente necessária. Outro ponto a considerar é não procurar os responsáveis só para expor os problemas, mas também para falar dos avanços. Por que não enviar, na agenda das crianças, um bilhete positivo?
 

18. Medidas extremas só em casos extremos

Quando todas as ações são inócuas ou a infração cometida é muito grave, é a vez do gestor atuar com medidas mais duras, como suspensão. No entanto, essa punição não pode ser banalizada, sob o risco de perder o peso. E cuidado: o aluno só pode ser enviado para casa se puder ficar na companhia de um adulto. Caso contrário, a escola tem de mantê-lo em uma sala ou na biblioteca. Em ambos os casos, o professor deve preparar atividades que exijam raciocínio e tornem o tempo produtivo. Não dê tarefas mecânicas, como cópias sem propósito pedagógico. "A ideia é o aluno notar que é melhor ficar na sala e aprender a valorizar o professor e os colegas", diz Adriana.


Ilustração: Maíra Valentim

 

 

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