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Os games na vida de um imigrante digital

Reflexões de Lino de Macedo

POR:
NOVA ESCOLA
Lino de Macedo,

Lino de Macedo,
Professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

Usualmente, pensamos que games jogados no computador, tablet ou celular servem apenas para o entretenimento. Claro que esses jogos têm essa função. No entanto, eles também vêm ganhando destaque na Educação. Um lugar que, talvez, desconheçamos ou até tenhamos medo. Afinal, diferentemente de nossos alunos, muitos de nós somos imigrantes digitais, nascidos antes da internet, tendo de ensinar nativos digitais, como coloca Marc Prensky, especialista em tecnologia e Educação pela Harvard Business School. Prensky defende que os métodos educacionais devem ser alterados para o novo contexto dos estudantes, onde tudo é mais rápido, ágil e conectado. Mesmo com receio, é um desafio que temos de enfrentar. A relação com as tecnologias altera diversas questões escolares tradicionais.

Primeiro, diante da infinidade de possibilidades de aquisição de conhecimento, inverte-se a lógica de que o saber é algo transmitido de um educador para todos os seus alunos. A aprendizagem pode e deve ser compartilhada. Ensinar passa a ser para todos. Já do ponto de vista da aquisição, o aprender segue sendo de cada um, pois ninguém pode fazer isso em nosso lugar.

Usar jogos na Educação supõe mudança de hábitos. A principal é que já não precisamos saber tudo.

A tecnologia surge como uma opção para tornar o ensino mais atraente. É o e-learning. No terreno específico dos jogos, ouve-se falar cada vez mais em game-based ou digital game-based learning, a aprendizagem baseada em jogos. Com uma dinâmica de repetição e simulação realizada em contexto lúdico, esses jogos prometem tornar o processo de aprender em algo gostoso e com sentido para crianças e jovens. O desafio necessário ao aprendizado é escalonável, pois a tarefa se torna mais complexa a cada fase que o jogador supera. Além disso, graças aos avanços da inteligência artificial, um game bem feito se adapta ao modo e ao nível de atuação do jogador.

Os melhores jogos possuem dinâmicas, conceitos e conteúdos integrados nas mais diversas áreas, como Geografia, História e Matemática. Elas requerem habilidades relacionadas a ler, tomar decisões, resolver problemas e fazer cálculos. Conjugam, simultaneamente, aquilo que, em nosso desenvolvimento no mundo real, ocorre de modo sequencial - e lento.

Em seu livro Não Me Atrapalhe, Mãe. Estou Aprendendo, Marc Prensky fala sobre como usar games nas escolas. Beneficiar-se das novas possibilidades dos jogos supõe difíceis mudanças de atitudes para aqueles com hábitos já enraizados. A principal é que já não precisamos saber tudo para podermos usar a tecnologia com os alunos. Ao contrário: eles nos ensinarão muito.

Como avô de três jovens experts em jogos digitais, eu mesmo só agora, e muito timidamente, comecei a brincar com eles e estudá-los. Meus preferidos são os de cartas, que nada mais são do que os mesmos jogos de baralho convertidos emprogramas de computador. Tenho, como muitos de vocês, um longo caminho a percorrer.


Ilustração: Adriana Komura