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Precisamos mesmo de aulas "diferentonas"?

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
Professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

S ão cada vez mais comuns os congressos de boas práticas docentes, em que professores contam sobre os projetos que fizeram com os alunos. Considero essas oportunidades interessantes por diversas razões: é a chance de submetermos nosso trabalho à crítica de outros educadores, podemos conhecer o que os colegas estão fazendo em aula, discutimos sobre questões em comum na função educativa... Mas, a cada encontro, noto uma tendência de mostrarmos apenas as propostasdiferentonas. São aquelas aulas com produtos vistosos (como uma exposição ou uma grande maquete) ou que envolvem tecnologias (como a exibição de um site e de engenhocas robóticas).

Nada contra querer se afastar do modelo giz e quadro. O problema é quando o desejo de ser diferente ganha mais importância do que aquilo que deveria ser o objetivo central do trabalho, que é a aprendizagem dos alunos.

Não se pode perder o foco. Em um desses congressos, um professor de Física apresentou uma proposta que relacionava conteúdos curriculares com alguns esportes. Ele exibiu vídeos dos alunos na quadra da escola fazendo medições de distância, tempo e altura enquanto outros jogavam vôlei, realizavam saltos e corriam. O docente falou que, durante esse processo, os estudantes fizeram descobertas muito interessantes. A plateia imediatamente quis saber mais sobre os tais achados e pediu para ele aprofundar esse ponto, mas ele se desculpou e disse que as discussões haviam ocorrido na classe e que, por isso, não tinha os registros.

Esse caso exemplifica que tendemos a valorizar mais a parte vistosa do nosso trabalho do que os indícios que evidenciam os saberes desenvolvidos pelos estudantes. Na fala desse colega professor, era claro o caráter inovador da proposta, mas não o que a turma aprendeu com ela.

Outra docente apresentou uma filmagem bastante reveladora da aula de Língua Portuguesa. A proposta era mais tradicional: em roda, os alunos conversavam sobre um livro que tinham lido. A discussão era animada e mostrava que eles estavam seguros sobre o texto, pois tratavam das personagens e do enredo com propriedade.

Nada contra se afastar do modelo "giz e quadro". Mas o objetivo central deve seguir sendo a aprendizagem.

Os estudantes pareciam não apenas ter lido a obra mas também refletido sobre a leitura. Nas falas, percebia-se que faziam inferências interessantes e que construíam, juntos, relações que se ampliavam a cada colocação. Além disso, a naturalidade do debate deixou claro que eles estavam acostumados com aquele tipo de atividade eficiente e cotidiana. Foi um ótimo registro de que a aprendizagem ocorria de fato naquela aula.

O esforço em nos distanciarmos do ensino enfadonho não pode nos afastar da busca pelas evidências de aprendizado. Muitas vezes, elas não estão na maquete montada para a exposição, mas nas situações mais simples, seja uma fala da criança em classe, seja um registro escrito no caderno, sinais de que um conceito foi bem assimilado.


Ilustração: Adriana Komura