Sala de Aula | Língua Portuguesa | Sala de aula

Ortografia: entre sentido, letras e sons

Um pouco de decoreba, muito raciocínio. O que há de novo no eterno desafio de escrever corretamente

POR:
Patrick Cassimiro, Lívia Perozim e Monise Cardoso

"Espaço", substantivo masculino. Formado por seis letras. Palavra que, no Dicionário Houaiss,  aparece com 19 definições, mas na cabeça de boa parte dos alunos do Ensino Fundamental apenas uma terrível dúvida interessa: se escreve com "s", "ss" ou com "ç"? O ensino tradicional de ortografia soluciona esse e outros tipos de dúvidas, via de regra, pelo caminho da memorização, com muita cópia e ditado. Há dois grandes inconvenientes nessa opção clássica. O primeiro: nossa memória não dá conta da quantidade de regras que fazem parte do sistema ortográfico. O segundo: quem só copia não questiona os porquês da escrita. "Não faz sentido pedir que os alunos decorem a grafia de todos os termos. É preciso estimular o pensamento sobre as relações entre os elementos da língua", afirma Maria José de Nóbrega, autora do livro Ortografia, da série Como Eu Ensino.

Isso significa encarar o estudo da ortografia como reflexão, mais do que um mero conjunto de regras sobre a forma de registrar palavras. Para Maria José, trata-se de um sistema complexo em que estão em jogo a relação entre grafemas (letras) e fonemas (sons) e os significados dos termos. Existem letras que sempre representam um determinado som, há aquelas que representam mais de um som e casos em que o mesmo som pode ser representado por letras diferentes. Em outros, apenas a etimologia (a origem de uma determinada palavra) é capaz de explicar a grafia correta.

Quando o estudante escreve "espasso", ele não deixou simplesmente de empregar o "ç" dentro da palavra. Por trás do erro, existiu um raciocínio: o uso do "ss" concorre com o "ç" nas representações do mesmo fonema quando está entre as vogais "a", "o" e "u". Porém, um estudo etimológico da palavra latina spatium pode explicar o uso do  "ç" na grafia em português.

Levar os alunos a entender esses desafios vai ajudá-los a desenvolver as próprias estratégias para escrever corretamente. Entre os cinco passos do ensino da ortografia (veja o quadro O ensino da ortografia em 5 etapas), o diagnóstico merece especial atenção. Sugerir a produção de textos já conhecidos pelos alunos, como letras de música ou histórias vistas em sala são boas opções para detectar os problemas. "Evite ditados. É importante que o texto não tenha a interferência da fala na grafia", diz Maria José. 

 

O ensino da ortografia em 5 etapas

  • Diagnóstico inicial 
    Sugira a produção de pequenos textos com base em letras de músicas ou de histórias já conhecidas pelos alunos para mapear  as principais dificuldades.
     
  • Definição de estratégias 
    Sintetize os pontos de defasagem e use os erros mais prevalentes para guiar  o que deve ser reforçado.  
     
  • Atividades de escrita 
    No ensino de regularidades, apoie-se em listas de palavras.  Para as irregularidades, encoraje a turma a consultar o dicionário.  
     
  • Sistematização 
    Deixe regras e lista de irregularidades comuns à vista de todos na classe, para consulta quando necessário.  
     
  • Produção de texto  
    Incentive o uso das regras que a garotada investigou  - e tenha o dicionário sempre à mão para as novas dúvidas.

 

Quando a regra é clara

Daí por diante, as regularidades e irregularidades da ortografia vão guiar as atividades. No caso das regularidades (conjunto de valores contextuais das letras) é importante saber as relações entre fonemas e grafemas que um aluno recém alfabetizado precisa aprender:  

  • Regularidades biunívocas ou diretas São aquelas em que apenas um grafema representa um determinado fonema e vice-versa. Essa situação ocorre apenas com as letras "b", "d", "f", "p", "t" e "v".
  • Regularidades contextuais Os valores dos grafemas vão depender da posição na palavra. Por exemplo, nunca usamos "ç" ou "rr" no começo. Essas letras só aparecem no interior das palavras. Em posição final, além das vogais, empregamos apenas: "l", "m", "n", "r", "s", "x" e "z". Alguns grafemas vão depender das letras do entorno: antes de "p" e "b", só cabe o uso de "m".
  • Regularidades morfológicas Dizem respeito às escritas ligadas à sua natureza gramatical. Se "brasileiro", que também poderia ser representado por "z", é grafado com "s", o termo "abrasileirado" também será - é derivado de brasileiro.

A turma precisa, sim, conhecer essas regras. Mas como? Decorando? Não. A melhor maneira é construir listas de palavras para que os estudantes possam descobrir as regularidades por meio da observação (veja um exemplo sobre a diferença entre "r" e "rr" no quadro Uma sequência para ensinar regularidades).

Orientar a turma a discutir as possibilidades e construir regras com explicações próprias é um caminho muito mais efetivo do que só apresentar a norma pronta. Depois disso, aí, sim, é seu papel sistematizar as regras, que devem ser consultadas sempre que surgirem dúvidas.

 

Quando a norma é arbitrária

A coisa complica nas irregularidades quando o sistema ortográfico oferece duas ou mais possibilidades de grafemas para representar um fonema. Nessas situações, é importante jogar limpo com os estudantes: eles terão de memorizar. Esse trabalho pode ser menos enfadonho com uma lista coletiva das palavras mais utilizadas pela classe, exposta para consulta na parede. Outra prática que precisa ser estimulada em sala de aula é o uso do dicionário nos casos em que a memória não estiver dando conta de garantir a forma correta da escrita. "Além de utilizado como ferramenta para revelar significados, ele pode e deve ser acionado para conferir como escrever corretamente uma palavra sobre a qual se tenha dúvida", argumenta Maria José.

Em seguida, o desafio pode misturar regularidades e irregularidades para que a garotada continue avançando. Numa abordagem criativa, a professora Ana Elias propôs uma inversão de papéis para a turma do 6º ano do Colégio Estadual Professor Kopke, em Três Rios, no interior do Rio de Janeiro: a função dos alunos seria corrigir os erros cometidos pela educadora num texto que ela escreveu com base na leitura do livro A Verdadeira História de Chapeuzinho Vermelho, de Agnese Baruzzi e Sandro Natalini.

Como o currículo previa o trabalho com dígrafos - duas letras que representam um único som -, Ana focou seu planejamento no "ch" e no "lh" (veja no quadro Entre o regular e o irregular), uma confusão que identificou na sondagem realizada com as crianças.

Durante a atividade, a professora pergunta se a palavra "xapeuzinho" poderia estar escrita de outra forma, questionando como e por quê. Quando chegam à conclusão correta, ela escreve a regra na lousa e os alunos a registram no cadeno. Com esse procedimento, Ana consegue sistematizar o aprendizado de forma crítica.

Essa estratégia faz as crianças assumirem a posição de sujeitos ativos na construção de seu conhecimento sobre ortografia. Ir além da simples memorização permite que compreendamos a estrutura que rege as normas da língua.

Para Cláudio Bazzoni, assessor da prefeitura de São Paulo e coordenador pedagógico do Colégio Santa Cruz, na capital paulista, esse é o melhor caminho para resolver conflitos da escrita: "Quando temos familiaridade com a ortografia, desenvolvemos mecanismos próprios para encontrar a saída para aquela dúvida que volta e meia aparece no caminho de todo mundo que escreve."


Consultoria CLÁUDIO BAZZONI, assessor da prefeitura de São Paulo e coordenador do Ensino Médio da EJA do Colégio Santa Cruz

Ilustrações: Melissa Lagôa