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Quem não aprendeu vai aprender agora

No 4º ano, os alunos deveriam dominar a soma e a subtração. Veja o que fazer quando isso não acontece

POR:
Rodrigo Ratier e Wellington Soares

Somar e subtrair é difícil. Talvez não para nós, adultos, que temos experiência na tarefa. Mas, para crianças que mal acabaram de aprender como funcionam os números e já precisam operar com eles, é complicado, sim. Os dados comprovam isso. Segundo os resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) de 2014, 57% dos estudantes brasileiros chega ao final do 3º ano dominando apenas as facetas mais simples dessas operações: acrescentar, retirar ou completar.

O que fazer, então, ao encontrar alunos que ainda não resolvem problemas de soma e de subtração quando já passou da hora? Para que eles avancem - e rápido! -, o trabalho deve se desdobrar em duas ações: apresentar uma grande variedade de situações-problema e reorganizar o tempo didático em sala, o que implica mudar a dinâmica da aula.

Vamos falar primeiro das situações-problema, que, você sabe, são desafios propostos aos alunos que aproximam o conteúdo matemático de contextos reais. Elas são úteis para fazer com que o aprendizado da soma e da subtração ganhe sentido. No dia a dia, as operações são utilizadas em três ocasiões principais: agrupamentos, transformações e comparações (leia exemplos comentados nos quadros amarelos abaixo)


Os estudantes precisam lidar com situações-problema qu e envolvam todas e em diferentes níveis de dificuldade. "A variedade é a chave para desenvolver diferentes estratégias de resolução", explica Jutta Justo, professora da pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), em Canoas, região metropolitana de Porto Alegre.

Entre as opções de diagnóstico inicial, uma boa sugestão vem de Marlise Brancão, que atua nas redes municipais de Novo Hamburgo e São Leopoldo, ambas também na região metropolitana de Porto Alegre. Ela elege uma situação-problema que não seja fácil nem muito difícil e pede que a turma quebre a cabeça para tentar resolvê-la. "No passeio pelas carteiras, observo se a dificuldadedos alunos está de fato nas operações ou se está na compreensão do sistema de numeração", conta.

O desempenho nesse primeiro teste ajuda a definir quais serão as primeiras situações-problema apresentadas a cada criança. "O exercício deve ser desafiador, ou seja, o aluno tem de repensar as estratégias que já conhece e bolar novas. O cuidado deve estar em não apresentar questões difíceis demais, que podem desestimular", ressalta Ivonildes Milan, assessora pedagógica de Matemática e autora de livros didáticos.

Recomenda-se que o professor foque em um tipo de problema de cada vez. Primeiro, os que envolvem agrupamento, depois, transformações e, por último, comparações. Dentro de cada grupo, é possível aumentar o nível de dificuldade controlando outras variáveis, como o tipo de número e o tratamento dos dados. O quadro a seguir ajuda a mostrar como o desafio para as crianças não é nada trivial! Conforme a dificuldade avança, elas precisam lidar com números maiores, em contextos mais abstratos e com enunciados redigidos com maior complexidade.

 

Cada vez mais difícil

Diversos fatores influenciam a complexidade dos problemas apresentados à garotada. Veja abaixo os principais:

Tipo de número          

Grandezas que podem ser facilmente contadas com os dedos ou por meio de desenhos são mais simples, assim como números redondos (múltiplos de 10 e 5). Números "quebrados", decimais e frações são mais desafiadores para  os estudantes.

Contexto da questão

Há dois tipos de grandezas: as discretas podem ser contadas (figurinhas, balas, selos) e são mais simples. As contínuas precisam ser medidas (tempo, peso e comprimento) e requerem maior abstração, o que as torna mais difíceis de operar.

Apresentação dos dados 

Exercícios mais fáceis têm apenas os dados necessários para resolvê-los e os mostram em ordem temporal. Ao alterar a ordem e adicionar dados inúteis, as crianças precisam redobrar a atenção na seleção das informações e no trabalho com elas. 

Tratamento das informações

Um mesmo problema pode ser apresentado de diversas maneiras: apenas por escrito ou com o uso de gráficos, tabelas, desenhos e esquemas. Cada uma dessas formas apresenta novos desafios para a compreensão do problema pelas crianças.

 

 

 

Atenção dobrada para quem precisa

Passamos agora à reorganização do tempo didático. As defasagens podem aparecer na turma toda - o que geralmente indica que o assunto não foi aprofundado o suficiente em anos anteriores - ou em apenas parte dela. No primeiro caso, não tem escapatória: antes de avançar, é preciso retomar o conteúdo, mesmo que se atrase um pouquinho o currículo. Já no segundo, o professor deve estar próximo de quem ficou para trás.

Mas como fazer isso com turmas grandes? A professora Marlise encontrou a solução trabalhando com grupos diferenciados. Depois de realizar o diagnóstico da turma em 2015, ela identificou que apenas um pequeno número de alunos não dominava o conteúdo. Para fazê-los avançar mais rápido e aproximá-los do restante da classe, optou por dividir a turma por níveis de conhecimento próximos. A rotina em sala passou a ser organizada da seguinte maneira: todos resolviam problemas com enunciados parecidos, mas com desafios diferentes. "Quando uma questão exigia duas somas sucessivas, por exemplo, eu dividia a pergunta em duas partes para os alunos com mais dificuldade", lembra.

Ivonildes Milan destaca que não se pode confundir o trabalho com grupos diferenciados com a segregação dos que ainda precisam aprender o conteúdo: "Não é para tirar os alunos da sala ou excluí-los da rotina compartilhada com os colegas",  afirma. A separação deve ser pontual: se a dificuldade de um aluno é na resolução de problemas, ele pode participar das aulas de geometria, por exemplo. Esse trabalho também precisa ser encadeado dentro da sala de aula. Outras possibilidades, como o encaminhamento dos alunos para aulas de reforço, dependem da disponibilidade de recursos de cada rede e são complementares.

Na rede de São Leopoldo, a professora Marlise recebe o apoio de outra docente, em horários combinados com a coordenação. A regente pode, então, se dedicar a acompanhar mais de perto o trabalho dos alunos com dificuldade, enquanto a professora auxiliar acompanha o restante da sala. Nos pequenos grupos, Marlise encoraja os alunos a socializar as estratégias utilizadas em cada problema e intervém propondo questões que os ajudem a questionar o próprio raciocínio e avançar.

Quando o apoio não está presente, a saída é apresentar para o restante da turma exercícios que os alunos possam realizar com autonomia ou privilegiar o trabalho em grupo, em que eles discutem e solucionam as próprias dúvidas. O que não vale é deixar quem precisa de ajuda desassistido. "O professor tem de chegar muito perto para ajudá-los a avançar", explica Jutta.


Consultoria IVONILDES MILAN, assessora pedagógica. | Aria Clara Galvão, professora da Escola da Vila, em São Paulo.

Ilustrações: Eduardo Medeiros