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Inglês para inglês (de verdade) ver

De cursos a contato com nativos, sugestões para contornar as dificuldades no ensino

POR:
Wellington Soares, Sophia Winkel e Alice Vasconcellos

Língua Estrangeira é uma disciplina do currículo do Fundamental 2 e do Ensino Médio, mas sejamos sinceros: os alunos raramente aprendem uma segunda língua na escola. Entre as razões estão a escassez de políticas que valorizam o ensino, a formação docente frágil, a falta de autonomia em relação ao material didático e de contato com a língua falada, além de cargas horárias insuficientes e turmas numerosas. Os obstáculos variam de acordo com o contexto de cada escola e de cada município, mas estão sempre ali, dificultando a vida do professor.

Mas há saídas à vista. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) vai definir um currículo básico enfatizando a interação com pessoas de outras culturas e o uso de novas tecnologias. "Para engajar os alunos, é preciso motivá-los para o uso da língua aqui e agora. Em vez de preparar para o mercado de trabalho, como fazíamos até então, o foco passa a ser o que a língua pode proporcionar hoje", afirma Margarete Schlatter, professora do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e uma das assessoras da BNCC.  

O bilinguismo também começa a ganhar espaço. Pensado para ser um legado olímpico, o programa Rio Criança Global, criado em 2009 pela prefeitura do Rio, por meio da Secretaria Municipal de Educação, intensificou e estendeu o ensino de inglês nas escolas municipais. A partir do programa, os alunos do 1º ao 3º ano têm uma aula semanal do idioma, enquanto os estudantes do 4º ao 9º ano têm dois tempos semanais de inglês, com ênfase em comunicação oral.

Um dos principais trunfos do ensino bilíngue é justamente ter espaços onde se falam duas línguas na escola, o que pode ser criado também em escolas regulares: o professor pode espalhar cartazes, orientações e sinalizações bilíngues que caracterizam a instituição e naturalizam o contato de todos com o idioma.

Esse importante movimento nas políticas públicas é um convite também para os educadores. A seguir apresentamos algumas sugestões e exemplos que podem ajudar professores a ensinar melhor uma língua estrangeira.

 

Formação para a autonomia

Segundo Celina Fernandes, consultora de Língua Estrangeira e orientadora pedagógica do Colégio Equipe, durante a graduação, o professor não aprende a se comunicar em inglês. "Quando tem pouco conhecimento sobre o seu objeto de ensino, ele tem menos condições de criar estratégias para ensinar. A tendência é seguir exatamente o que os livros didáticos propõem, o que nem sempre atende as necessidades dos alunos", explica.

Uma primeira iniciativa é mapear parcerias disponíveis para sua rede. Segundo Ana Emília Fajardo Turbin, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo, o professor deve estar atento às oportunidades para continuar a sua formação. "Há muitos programas, parcerias com instituições privadas e novas metodologias que podem colaborar para esse processo. Além disso, as universidades são focos de especializações e têm possibilidades de abrir caminhos" afirma.

Alunos e professores da Costa Manso, São Paulo, interagem com educadores americanos. Foto:  Raoni Maddalena
 

Todo problema tem solução

"Tenho turmas grandes"
Proponha atividades em grupos menores para facilitar a comunicação.

"São poucas aulas" 
Incentive que os alunos sigam em contato com o idioma fora da sala  de aula (veja em Canvas).

"Meus alunos estão desmotivados" Busque temas como games e séries, em que o contato com o inglês é requisito.  

"Minha formação é fraca"
Procure parcerias com cursos de idiomas e oportunidades de formação continuada (veja em Nik's Learning Technology Blog).  

"O material didático é fraco"
Busque recursos extras, inclusive digitais, que possam complementar suas aulas. 

"Faltam recursos na escola"
Invista em propostas simples,  mas significativas à aprendizagem,  como organizar espaços bilíngues com cartazes e promover participações bilíngues em eventos da escola.

 

A formação continuada deu a Adriana mais autonomia para  a prática em sala. Foto: Raoni Maddalena

Adriana Pavão Wada, professora e coordenadora da rede estadual paulista, procurou um programa de formação continuada e encontrou um convênio da rede com a Cultura Inglesa. Mais confiante, Adriana ganhou autonomia em sala: "Pude olhar o material didático de forma crítica e fazer adaptações, sem sair do que era pedido no currículo". Ela já está no nível avançado, mas o caminho é seguir melhorando sem desanimar. Para Vinicius Nobre, gerente acadêmico da Cultura Inglesa, mais importante do que a proficiência é a atitude de querer aprender. "Há docentes sem um nível alto de inglês, mas que estão motivados e, assim, conseguem envolver os alunos."


Experimente a língua na rede

Com a intenção de aproximar o ensino de língua inglesa às necessidades dos alunos, a professora Gisele Fernandes, no Instituto Federal de Alagoas, em Maceió, traçou estratégias com recursos que não estavam no material didático. "Priorizei um ensino voltado para a comunicação, rompendo com a ênfase na gramática. Foquei em atividades colaborativas, jogos e questões/problemas a serem resolvidos em língua estrangeira", conta.

Gisele trabalha com kits Lego, materiais produzidos para uso escolar com instruções em inglês. A professora também lança mão de webquests: propõe um desafio e os alunos buscam respostas na internet. A pesquisa é sempre feita em língua inglesa, o que amplia e traz novos significados para os resultados que os alunos encontram. Uma aposta certa, segundo Selma Alas Martins, pós-doutorada em Ciências da Educação pela Universidade Lumière Lyon 2, na França. "O professor tem que ser criativo e aproveitar o que a tecnologia pode nos oferecer. Há todo um mundo a ser descoberto e apresentado."

 

Apresente nativos do idioma

Atento à dificuldade de trabalhar a oralidade em inglês, o professor Humberto Alencar Teixeira de Souza trouxe dois americanos, Alexander Knoblock, de Atlanta, e Nicholas Lopez, de Los Angeles, para conversar com os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e do 1º ano do Ensino Médio da Escola Estadual de Estivas, na zona rural de Carmo do Cajuru, em Minas Gerais. 

A visita foi possível graças a uma parceria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde o professor participava de um programa de formação continuada.  Os alunos foram divididos em pequenos grupos, trabalharam um vocabulário específico da cultura local e aprenderam sobre o gênero entrevista, com a criação de uma pauta de perguntas que guiou a conversa.

Uma outra parceria conecta alunos da Escola Estadual Ministro Costa Manso, na capital paulista, com mestrandos da Universidade do Sul da Califórnia (USC), em Los Angeles. Funciona assim: cada três alunos têm dois professores nativos que dão aulas por videoconferência. As aulas acontecem no contraturno, uma vez por semana, e servem de estágio virtual para os professores.

Além das videoaulas, os jovens se comunicam por WhatsApp com os professores, trocam textos, áudio e vídeo. Segundo Laura Medeiros, estudante do 3º ano do Ensino Médio, a experiência ajuda a conhecer pontos de vista de outras culturas.

Os professores estrangeiros, por sua vez, alinham todo o conteúdo curricular e didático com os educadores brasileiros. Ao final do semestre, os alunos fazem um novo teste de nivelamento e uma avaliação pessoal sobre o que aprenderam. Para Jenifer Crawford, professora e coordenadora do projeto Virtual English Language Lab, ação conjunta da USC com a ONG Parceiros da Educação, os dois lados estão ganhando.  "Para os professores, é incrível terem acesso a alunos de culturas completamente diferentes. Isso impacta na forma de ensinar. Para os alunos brasileiros, é uma ferramenta a mais para ajudar a aprender uma Língua Estrangeira, com pessoas nativas e comprometidas com o ensino."

Jogos e webquests foram escolhidos por Gisele para priorizar o contato com a língua. Foto: Renner Boldrino
 

Consultoria CELINA FERNANDES, especialista em Língua Estrangeira e orientadora pedagógica do Colégio Equipe

Ilustrações: 45JJ