Nossas emoções podem influenciar a aprendizagem

Reflexões de Lino de Macedo

POR:
NOVA ESCOLA
Lino de Macedo,

Lino de Macedo,
Professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

Q uando eu tinha 11 anos e estava na 1ª série do antigo Ginásio - hoje, seria o 6º ano do Ensino Fundamental -, fui convidado por meu professor Aldo, de Latim, para recitar uma poesia em frente à turma. Aceitei orgulhoso. Lembro que me sentia como meu irmão, dois anos mais velho, que considerava um grande declamador. Quando comecei, alguém sugeriu que eu falasse mais alto, para que todos escutassem. Devo ter exagerado no volume, pois na aula seguinte meu desempenho foi duramente criticado pelo professor. Fiquei péssimo! Essa experiência me fez passar anos calado, sem nem cogitar me arriscar a passar por outro vexame assim.

Com 18 anos, circunstâncias da vida me levaram a virar educador e, mais tarde, também palestrante. Pouco a pouco, tive de superar o trauma. Mas a sensação de humilhação ainda está presente em mim: ela volta sempre que acredito não ter realizado bem minha função.

Diferentemente da aprendizagem cognitiva, em que os conhecimentos levam tempo para ser construídos e requerem, além de um intenso trabalho pedagógico, capacidades diversas - como de fazer relações -, no caso da afetiva, muitas vezes basta um único instante para ela se fixar na memória e passar a determinar nosso comportamento a partir de então.

As experiências, positivas ou negativas, podem impulsionar ou tolher o desenvolvimento. Daí a importância que, atualmente, estudiosos atribuem à qualidade das relações da criança com o mundo e, sobretudo, com as pessoas nos primeiros anos de vida.

Muitas vezes, basta um único instante para a aprendizagem afetiva se fixar na memória e tolher ou impulsionar o desenvolvimento.

No contexto escolar, essas são duas formas distintas de aprender, mas complementares e indissociáveis. Ambas igualmente importantes para a Educação que ocorre em um espaço institucional e social, que é a escola. A aprendizagem cognitiva implica o desenvolvimento de funções executivas e a ativação de nosso cérebro superior ou racional (neocórtex). Já a afetiva ativa o intermediário, o cérebro emocional (sistema límbico). Essas unidades cerebrais estão interconectadas e compõem um sistema único e interdependente. O ideal é que a parte reflexiva possa interagir com a emotiva ou intuitiva, criando, dessa forma, um contexto em que razão e emoção operem de modo sincrônico e expressem o melhor de nós nas diferentes instâncias de nossa vida.

Nosso desafio como educadores é, pois, conseguir diferenciar e integrar essas duas formas de aprender nos estudantes. Para isso, nós mesmos precisamos planejar as propostas e intervenções com calma, calculando as consequências de nossas ações sobre nós mesmos, os outros e o mundo. Também é importante termos consciência de que, como qualquer pessoa, possuímos uma parte intuitiva, que age de forma rápida, sem refletir. Quantas vezes nossos filhos e alunos despertam em nós, sem querer, atitudes das quais nos arrependemos posteriormente.

Comecei o texto evocando uma lembrança negativa. Permitam-me terminá-lo com uma positiva. No início da docência, tive um aluno chamado Antônio, que certa vez me perguntou: "O senhor joga futebol? É que ontem, ouvi no rádio o locutor dizer seu Lino passa a bola...' ". A confusão do menino se deu porque, no time da cidade, havia um jogador de nome Celino! Mesmo sem valor cognitivo nenhum, nunca esqueci essa experiência tão simples, mas que ainda me emociona pelo carinho daquela criança por seu jovem professor.


Fotografia: Ramón Vasconcelos

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