Seções | Entre Colegas

O novato e as armadilhas na sala dos professores

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
Professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

T ive sorte. O início da minha carreira como professor foi sem traumas. A primeira escola em que atuei tinha boas condições de trabalho, uma gestão consistente, professores motivados e alunos dispostos. Fui desafiado a construir o currículo da minha disciplina, tive autonomia para eleger os materiais que utilizaria em aula e apoio para discutir e aperfeiçoar as propostas antes de colocá-las em prática. Também havia muito diálogo e trabalho coletivo entre os colegas mais experientes e os iniciantes, como eu.

Esse bom começo profissional influenciou a forma como eu encaro a docência e me fez, depois de um período afastado da sala de aula para me aprofundar nos estudos, decidir voltar. Porém, experiências posteriores não tão bacanas me fizeram pensar em como eu estaria agora se minha vivência inicial tivesse sido outra. Como seria minha postura diante dos alunos? Será que já teria desistido da Educação?

Na segunda escola em que trabalhei, presenciei jovens professores serem completamente desmotivados por colegas mais experientes, que os aconselhavam abertamente a abandonar a docência "enquanto era tempo". A sala dos professores era uma central de reclamação sobre os alunos, tratados como inimigos em uma guerra que não beneficia nem o estudante nem o educador. Participei de reuniões em que discussões pedagógicas logo descambavam para ataques pessoais. O desrespeito imperava: enquanto alguém falava, os demais se ocupavam de outras tarefas, como ficar no celular, ignorando solenemente o colega.

Muitas vezes, o ambiente vira uma central de reclamação sobre os alunos. O que estamos fazendo para melhorar ou piorar o lugar?

Caso essa fosse minha referência de ambiente de trabalho, será que eu estaria exercendo a profissão ainda hoje? Provavelmente, não. Essas atitudes - que, aliás, são bem antiprofissionais - e o clima desfavorável que se criou em muitas escolas podem afastar definitivamente jovens professores ou transformá-los em alguém que irá somente perpetuar os problemas existentes. Com isso, todos perdem, estudantes e docentes.

Nós sabemos o peso que os baixos salários, a falta de um plano de carreira e a estrutura precária da Educação têm sobre esse comportamento. O cenário pode tornar a escola um lugar insuportável, a ponto de querermos nos salvar quanto antes. Mas acredito que é importante observarmos o que nós, como parte desse ambiente, estamos fazendo para melhorá-lo ou piorá-lo. A postura desmotivadora, o desrespeito com os colegas, o tratamento dado aos alunos, tudo isso precisa ser considerado.

Volto ao exemplo da primeira escola em que lecionei para dizer que é possível ser diferente. Entre os docentes, havia uma boa mistura entre iniciantes e experientes, de modo que eu tinha a quem observar e consultar, mas também com quem trocar de igual para igual. Havia alunos indisciplinados e turmas agitadas, mas os casos eram discutidos e as decisões combinadas coletivamente para buscar uma ação consistente. Nas reuniões, o clima era de respeito pelas colocações de todos. Muitas escolas ainda são ambientes acolhedores e instigantes para os novatos. Convido todos a pensar: o que fazer para que todas sejam?


Fotografia: Ramón Vasconcelos