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"Brinquedos prontos levam à passividade"

Gandhy Piorski, uma das maiores referências em brincadeiras e infância, é consultor do Instituto Alana, em São Paulo, e autor do livro Brinquedos do Chão

POR:
NOVA ESCOLA e Ana Ligia Scachetti

As crianças de hoje têm muitos brinquedos. Qual é o efeito disso?  

Se a gente as cerca de objetos prontos e pensados para uma função, a tendência é levá-las à passividade. Em geral, o design desses produtos emoldura o processo criativo. Existiu uma época em que os brinquedos, mesmo industrializados, eram de materiais mais naturais, como ferro. Quanto mais simples, maior é a possibilidade de exploração. As crianças precisam de natureza, de campos biológicos de grande vitalidade, como cachoeiras, mar e fauna. Essa necessidade existe por que há um parentesco entre o processo criador delas e os organismos naturais. Na cidade também é possível encontrar essa semântica mais simbólica. Ela está, por exemplo, nas histórias que tratam do reino anímico, como os contos dos Irmãos Grimm.

 

Nas escolas de Educação Infantil, é comum ter um espaço que tenta trazer a natureza para perto. Isso é suficiente?

O contato com a natureza ajuda, mas acendemos mais campos de percepção da criança quando conhecemos melhor o diálogo dela com o meio. Tenho visto muitas escolas em que a natureza é desenhada para uma finalidade. Não é um local livre, um canto em que os meninos vão e se misturam com a terra e com matéria orgânica. Não é um local de experimentação, solidão e silêncio. São sempre áreas em que se brinca em conjunto e isso ganha uma função pedagógica.

 

Gandhy Piorski- Uma das maiores referências em brincadeiras e infância, é consultor do Instituto Alana, em São Paulo, e autor do livro Brinquedos do Chão

 

Por onde o professor pode começar?

Ele precisa lidar com as ferramentas do simbólico que são as artes visuais, plásticas e corporais. Ele tem de mergulhar na sua corporeidade. Com consciência corporal, consegue dar eixo para a sala de aula naturalmente. Essa disciplina corpórea pode vir de ginástica, ioga, capoeira... Hoje, lidamos com o que vemos e vemos a aparência. Sentidos como o tato devem ser aprofundados. 

 

A escola se preocupa em estimular a interação e você fala sobre a importância da solidão. Como equilibrar esses dois aspectos?

A interação é fundamental e as crianças a buscam. Precisam dos colegas e não só da mesma idade etária, porque o aprendizado está nas faixas etárias acima. Mas, muitas vezes, o estímulo à integração é impositivo e também é importante respeitar a individualidade. Existem pessoas que são mais introspectivas e sensíveis. Essas crianças podem até ser referência para as demais.

 

Como a escola pode apresentar brincadeiras tradicionais sem dirigir esse contato?

Precisa ter riqueza de materialidade desde a arquitetura. O desenho da escola deve ser perto dos passarinhos, das árvores, do chão e do barro, se aproximar da intimidade e do aconchego da casa da avó, dos celeiros de ferramentas e do trabalho manual. Deve ter diversidade de materiais e banir o medo de que alguém vai se ferir. 


Foto: Mariana Pekin