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A aula além das ideologias

Mais do que criar leis contra a doutrinação, mostrar diferentes visões de mundo é a melhor saída para o ensino

POR:
Rodrigo Ratier, Pedro Annunciato e Patrick Cassimiro

Marxismo e liberalismo: o que dizem essas teorias sobre a redução da desigualdade social. O tema era promessa de uma aula instigante no 3º ano do Ensino Médio do Instituto São José, no município paulista de São José dos Campos. A coisa esquentou quando o professor Glauco Santos abriu um debate. Fazendo uma defesa enfática do liberalismo, um dos estudantes apresentou a ditadura militar como modelo. Glauco interveio. Reconheceu que parte da população havia avançado, mas pontuou os graves problemas econômicos e a perseguição política. Foi quando o aluno afirmou - nas palavras do professor - que quem morreu era bandido ou terrorista, e que bandido devia morrer.

"Naquele momento, encerrei o assunto", relembra. "Disse a ele que poderia ter a posição que quisesse, mas jamais deveria justificar tortura e assassinato". O estudante se sentiu hostilizado e contou o caso para a mãe. Indignada, ela foi à escola reclamar, dizendo que o filho tinha sido humilhado por suas posições ideológicas.

A saia justa é um exemplo do temporal em torno de uma polêmica recente: a "ideologização" do ensino. São as disciplinas de ciências humanas, especialmente História, que estão no olho do furacão. A disputa tem efeitos na montagem da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e motiva diversos projetos de lei que buscam um ensino neutro. O atual clima de polarização social não ajuda a trazer luz para o debate: dá-lhe gritaria ("doutrinação!", "censura!") e confusão.

A agitação é compreensível. O tema se assenta sobre limites difíceis de delinear. É possível ser imparcial? Qual a diferença entre emitir uma opinião e "fazer a cabeça" da turma? Como conferir sentido a um fato histórico sem distorcê lo? Esta reportagem pretende atacar essas questões, debater as controvérsias sobre ensino e ideologia e ajudar você a conseguir o essencial: levar os alunos a pensar por conta própria.

Um primeiro passo é limpar o terreno da confusão conceitual. Mais do que um exercício acadêmico, retomar o que significa ideologia é fundamental para elevar a qualidade do debate. O clássico Dicionário de Política, dos italianos Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, é uma boa referência. Os autores defendem que a palavra pode ter duas acepções. A primeira, próxima do sentido negativo que ela tem na discussão atual, equivale a "crença falsa", impactada sobretudo por convicções políticas. 

Existe, porém, um outro significado mais neutro, que segundo os autores predomina na ciência contemporânea. Ideologia seria simplesmente um conjunto de ideias e valores que nos auxiliam a enxergar a realidade. Veja que interessante: pode-se pensar na ideologia como os olhos que nos fazem ver o mundo. Há quatro séculos, o matemático e filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662) registrava essa percepção na frase "Vemos as coisas por lados diferentes e com olhos diferentes", que acompanha o pôster desta edição. Dessa perspectiva, somos todos seres ideológicos, com um jeito de enxergar a realidade moldado por ideias e valores particulares. Como ninguém pode se considerar acima ou fora de algum tipo de molde, a neutralidade absoluta é uma ilusão.

 

Três olhares sobre a história

Como as ideologias estão esparramadas pela sociedade, elas impactaram também os modos de fazer história. A operação de narrar fatos organizados num eixo de tempo (do mais antigo ao mais recente) também não é neutra. Os critérios para definir o que é relevante e os métodos de construção e interpretação desses fatos variam segundo a corrente teórica adotada.

Há três linhas principais. A mais antiga, do século 19, já superada na academia, é a metódica ou positivista. Baseada na crença de uma ciência neutra, encarava documentos escritos como provas e deu origem a uma história em que predominam datas e ação de indivíduos isolados - os "heróis".

A segunda, de larga tradição acadêmica, é a marxista, para quem o desenrolar da história se dá principalmente pela luta de classes. Os mais ortodoxos enfatizam o embate entre burgueses eproletários, enquanto a New Left, tendência surgida nos anos 1960 com representantes como Eric Hobsbawm (1917-2012), amplia o conceito de classe para grupos como mulheres e negros.

A terceira é a chamada Escola de Annales. Derivada dos estudos da revista científica francesa Annales d'Histoire Économique et Sociale, surgida em 1929, a corrente busca novos objetos de estudo, como fenômenos culturais e seu papel no curso dos acontecimentos. Surgem a história dos costumes, da sexualidade, da morte e do medo, só para ficar em alguns exemplos. 

Daí decorre que um mesmo fato pode ser lido segundo diferentes perspectivas. Tomemos como exemplo a colonização brasileira. Enquanto o modelo metódico explica de um ponto de vista eurocêntrico a ação portuguesa, vendo-a como sinal de progresso rumo à civilização, o marxismo evidencia a exploração econômica da colônia pela metrópole, e a Escola de Annales investiga o papel dos costumes de escravos, índios e portugueses na formação da identidade nacional.

Valéria, de Juiz de Fora, abordou o surgimento do homem com narrativas tradicionais e científicas

Dúvidas na hora de ensinar

O professor pode revelar suas posições políticas aos alunos?

Sim. À medida que a relação pedagógica se estreita e ganha transparência, é desejável que tanto o docente quanto os estudantes possam expor - civilizadamente - suas convicções pessoais. O importante é não colocar a própria visão como a única correta e aprender a separar as coisas. "Ter militância é um direito do professor, mas a sala de aula não é um lugar adequado para exercê-la", diz Renato Janine Ribeiro, professor de ética da USP.

Os alunos precisam saber qual a corrente de pensamento do professor?

Não. Primeiro, porque muitas vezes as abordagens se misturam no dia a dia da sala de aula ? é difícil, por exemplo, fazer uma interpretação 100% marxista da história. Segundo, porque a teoria da história não faz parte dos currículos. Basta o compromisso de ser intelectualmente honesto e deixar claro que existem outros pontos de vista, igualmente legítimos, além daquele que eventualmente será mostrado com mais detalhe.

Fontes históricas são neutras? Como ajudar a interpretá-las?

Não são neutras. "Quem produz um documento escrito, por exemplo, o faz desde a sua perspectiva histórica e social. Então, é preciso se perguntar como o tempo e o espaço impactaram o que aquela pessoa escreveu", explica Helenice Ciampi, doutora em História pela PUC-SP. A sugestão é levar os alunos a percerber isso com perguntas básicas: o que diz a fonte? Em que contexto foi produzida? Como surgiu e com qual finalidade?

Como escolher reportagens equilibradas no trabalho com atualidades em aula?

Fique atento aos indícios evidentes de parcialidade: excesso de adjetivos, pouco uso de entrevistas e falta de "outro lado" (quando o acusado se defende no texto). Vale, ainda, trazer reportagens com diferentes pontos de vista para debater um assunto. No campo da história oral, pode-se elaborar roteiros de entrevista para a turma sair a campo e ouvir, em primeira mão, o que as pessoas pensam sobre os assuntos polêmicos.

Como lidar com familiares que dizem, por exemplo, que "na Ditadura era melhor"?

Os alunos precisam ter clareza de que a memória é carregada de subjetividade e depende de experiências pessoais, enquanto a História é uma ciência que almeja a objetividade e busca analisar criticamente a memória. Eticamente, a escola deve ter valores inegociáveis, como a defesa da vida. "Nada do que for condenado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos deve ser tolerado", diz Janine Ribeiro.

O professor pode julgar se um determinado acontecimento foi "certo" ou "errado"?

Julgar simplesmente, não - mas pode propor uma interpretação sobre um fato histórico. Perceba a diferença: ser juiz do passado é emitir opiniões tendo por parâmetro os valores éticos e morais de hoje. É grande o risco de uma análise subjetiva e pior, a-histórica (sem considerar as ideias que circulavam no tempo dos acontecimentos). A interpretação de um episódio, por outro lado, leva em conta causas, consequências e o contexto do fato.

Jair, do Recife, questionou a crença da turma de que a Idade Média seria apenas um período de trevas

Por isso, são tão problemáticos projetos de lei baseados na iniciativa Escola Sem Partido, que tramitam em 13 municípios e sete estados. Em maio, Alagoas aprovou uma lei parecida, demandando um ensino "imparcial", proibindo docentes de "abusar da inexperiência de alunos, com o objetivo de cooptá-los" e prevendo punições como processos administrativos e demissão.

A dificuldade é como separar a apresentação de um ponto de vista histórico da doutrinação, palavra que remete à pregação, algo inadequado em qualquer aula. Para os especialistas ouvidos por NOVA ESCOLA, a alegação de que estaria havendo um esforço generalizado de doutrinação marxista nas escolas não faz sentido. "Há uma ideia simplista de que se pode fabricar o posicionamento das pessoas como se fabrica uma mesa. Os alunos, principalmente adolescentes, contestam o professor o tempo todo", argumenta José Sérgio Fonseca de Carvalho, livre-docente em Filosofia da Educação na Universidade de São Paulo. "É ingenuidade ou má-fé acreditar que a escola possua tanto poder", completa Caroline Pacievitch, doutora em ensino de História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Há casos ainda mais graves. Também em maio, um grupo de ONGs de direitos humanos denunciou que várias escolas estariam recebendo notificações extrajudiciais intimidando professores com processos na Justiça caso eles abordassem questões relacionadas à diversidade sexual - pejorativamente chamadas de "ideologia de gênero". A ameaça, que segundo as ONGs é amparada por grupos conservadores e religiosos, é ilegal e configura constrangimento ao exercício profissional. "Sou contra doutrinação, de todo tipo. Justamente por isso, parece-me bom que os professores proponham conteúdos diferentes do que os pais já pensam e já tentaram impor às crianças", provocou o psicanalista Contardo Calligaris em sua coluna na Folha de S. Paulo.

 

Cruzar interpretações e questioná-las

A pluralidade de visões - e o questionamento de cada uma delas - é um caminho fértil mesmo para abordar os assuntos mais espinhosos. Jair Santana, professor da EMTI Divino Espírito Santo, em Recife, recorre a referências diversas para tratar da Idade Média, um dos períodos mais estigmatizados da história europeia. Inspirado em historiadores como Jacques Le Goff, Jair tenta quebrar a ideia de "Idade das Trevas", mostrando que também houve avanços no campo das ideias e da sociedade. "Um dos conceitos que abordo é o de servidão, um regime de trabalho que substituiu a escravidão do Império Romano. Pode não parecer, mas isso representou um salto importante na qualidade de vida: enquanto o escravo era uma 'coisa', o servo estabelecia uma relação de direitos e deveres com o senhor feudal", afirma.

Em Juiz de Fora, no interior mineiro, a professora Valéria Guimarães seguiu a mesma rota ao tratar do surgimento da humanidade com a turma de 6º ano da EM João Guimarães Rosa. Ela propôs um estudo de narrativas sobre a origem do Universo em diferentes épocas e culturas. Dividiu os alunos em quartetos e distribuiu textos das mitologias chinesa e grega, do relato bíblico da criação e da teoria evolucionista. Então, pediu que todos lessem e, em seguida, contassem para a turma. O passo seguinte foi relacionar as histórias mitológicas e bíblicas com a cultura de cada povo. Por fim, Valéria distinguiu as narrativas culturais da teoria evolucionista. "Quis que eles entendessem que a ciência histórica funciona de forma diferente da mitologia e da religião. A história investiga os vestígios do passado em busca de evidências, como num trabalho de detetive", explica.

Contemplar diferentes interpretações do passado não significa o fim das dificuldades. Quando se busca uma abordagem plural, surge o risco de cair em outro extremo, que é o relativismo total - a ideia de que, se não existe uma "verdade" com "V" maiúsculo, então todas as interpretações são válidas. Segundo José Guilherme Zago, formador de professores de História pelo Pibid, o docente evita problemas ao se apoiar em dois pilares: "O primeiro é assentar as afirmações em evidências históricas. E o segundo é o consenso entre os historiadores. Quanto mais consensual a afirmação, mais sólida ela tende a ser, mais testada pela comunidade científica ela foi."

Se já é difícil equilibrar visões científicas, metodológicas e políticas dentro de uma única sala de aula, imagine o tamanho da encrenca quando se tenta estabelecer orientações para todo o país. É justamente esse o desafio que o Brasil enfrenta atualmente ao formular a Base Nacional Comum Curricular. Em setembro de 2015, o lançamento da primeira versão do documento causou fortes reações pela exclusão de conteúdos da história clássica e um certo excesso, na visão dos críticos, de tópicos relacionados ao Brasil contemporâneo. Para essas pessoas, a opção seria uma iniciativa ideológica de "brasilcentrismo".

 

O desafio em escala nacional

Esse tipo de controvérsia não é exclusividade do nosso país. No Chile, grupos conservadores reagiram mal à retirada das cruzadas da lista de temas de história europeia, um conteúdo caro à tradição católica do país. Na Inglaterra, a crítica é a prioridade a conteúdos ligados à história nacional e a presença tímida de assuntos relacionados a outras culturas. "O currículo de História será sempre polêmico, porque ele tem a ver com o mito do que nós somos. É ali que se constrói, junto com as outras ciências sociais, a autovisão que temos de nossos países", explica Maximiliano Moder, mestre em liderança educacional, política e desenvolvimento pela Universidade de Bristol, na Inglaterra. A Austrália fez essa discussão. O país adotou como estratégia geopolítica a aproximação com a Ásia e decidiu incluir mais conteúdos sobre os países vizinhos no currículo. A alteração foi bem aceita por pais e educadores.

Quanto ao Brasil, a questão é saber como a sociedade, democraticamente, decidirá qual caminho quer seguir. Sem clareza do que devemos ser no futuro, não poderemos obter um consenso sobre como olhar o passado. Um bom começo seria trabalhar um acordo acerca do tipo de cidadão que queremos formar. O professor Glauco, do início do texto, dá uma boa lição sobre como chegar lá. Ao se colocar contra a tortura, mostrou valores inegociáveis da escola - o respeito aos direitos humanos. E, ao apresentar diferentes pontos de vista sobre um fato histórico, convidou a analisar a realidade por múltiplas perspectivas - nenhuma delas neutra, mas capazes de, em conjunto, superar maniqueísmos e ingenuidades. Mais calmo, o aluno que defendeu a ditadura aceitou conversar com o professor. Ele não mudou de opinião, mas entendeu que Glauco estava cumprindo, na plenitude, a função de ensinar.

Glauco, de São José dos Campos, apresentou o crescimento econômico e a censura na Ditadura

Consultoria JOSÉ GUILHERME ZAGO, formador de professores pelo Pibid 

Fotografia: Tomás Arthuzzi