Reportagens | Reportagens

Receita contra a gripe: prevenção – e calma

Prepare sua escola sem pânico. Veja como enfrentar o H1N1 e a temporada de propagação do vírus

POR:
Anna Rachel Ferreira, Rosi Rico e Victor Malta

Chega o meio do outono e começa a operação de guerra. Todo ano, o Ministério da Saúde inicia a campanha de vacinação contra a gripe, bastante comum no inverno. Neste ano, as coisas foram um pouco diferentes: os casos da doença começaram a ser noticiados antes do esperado. Para piorar, o número de mortes aumentou. Até o dia 2 de abril haviam sido registrados 102 óbitos no país - no ano passado, foram 36. O cenário assustou e causou corrida a hospitais e clínicas. O pânico só atrapalha. "A falta de informação faz as pessoas irem ao médico por qualquer razão. Aumenta o risco de quem não estava doente acabar ficando", diz o infectologista pediatra Victor Nudelman, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

O vírus que tem gerado preocupação é o H1N1, causador da influenza A, chamada de gripe suína quando do seu surgimento em 2009, época em que houve uma pandemia da doença. "Hoje, temos vacina, remédio e as orientações higiênicas necessárias. Em vez de criarmos alarde, temos que agir conscientemente", diz a médica sanitarista Ana Freitas Ribeiro, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Casos graves existem, mas são raros. As mortes foram resultado de complicações da patologia, que virou síndrome respiratória aguda grave. Mas, se o paciente for diagnosticado logo e fizer o tratamento, ele provavelmente se recuperará sem grandes transtornos. É importante que a equipe escolar saiba lidar com a situação. Veja a seguir o que fazer para atravessar a temporada de gripe.

1. Como fazer a higiene pessoal?

O vírus da gripe é transmitido pelas secreções liberadas quando o doente tosse, fala ou espirra. Mas, além do contato direto, há a possibilidade de ser contaminado ao tocar superfícies infectadas, como corrimãos ou mesas. O segredo é lavar bem as mãos. Pela facilidade de acesso, o álcool gel é uma boa opção. "Você diminui as possibilidades de contato porque a pessoa não precisa ir ao banheiro, mexer na maçaneta e na torneira para fazer sua higiene", afirma o pediatra Victor. Quando assoar o nariz, use lenço de papel ou papel higiênico e, na sequência, jogue tudo no lixo. Vale também evitar tocar olhos, nariz e boca. Com os menores, a recomendação é para o educador sempre lavar as mãos das crianças - para os maiores, mesmo na creche, é importante mostrar. "Saber cuidar do próprio corpo, do amigo e do ambiente é conteúdo curricular e a escola tem o dever de ensinar aos pequenos", diz Damaris Gomes Maranhão, enfermeira e formadora do Instituto Avisa Lá .

 

2. Quais os cuidados com o ambiente escolar?

A escola é um local com grande circulação de pessoas e, por essa razão, necessita de limpeza frequente com produtos antissépticos - ao menos uma vez por dia ou por turno. Superfícies de contato como maçanetas, corrimãos, bebedouros, torneiras, ban

cadas ou mesas de refeição exigem atenção. Em creches, o cuidado é redobrado. "Os pequenos ainda não conseguem fazer sua higiene adequadamente. Então, os adultos devem fazê-la por eles', lembra Damaris. Com os brinquedos, a higienização precisa ocorrer, no mínimo, uma vez por dia. O ideal, porém, é realizar sempre que uma nova turma for usar os mesmos objetos ou quando se verificar o manuseio por algu- ma criança suspeita de estar infectada. O produto mais adequado para limpar é o álcool 70%. É importante também deixar portas e janelas abertas para facilitar a renovação do ar nas salas, bibliotecas. O ar condicionado é contraindicado, já que, além de expor alunos e funcionários a temperaturas baixas, pressupõe o fechamento de portas e janelas.

 

3. Qual é a melhor vacina disponível?

A rede pública de saúde oferece a versão trivalente, produzida pelo Instituto Butantan, em São Paulo, e recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Essa vacina é contra dois tipos de influenza A (H1N1 e H3N2) e um da B. Na rede privada, há a tetravalente, que protege também contra mais um vírus da gripe B. Como o maior problema tem sido o H1N1, o tipo disponível nos postos públicos satisfaz a necessidade atual. Os grupos contemplados no setor público são crianças de 6 meses a 5 anos, idosos, profissionais da saúde, grávidas, mulheres que tiveram filhos há até 45 dias, presidiários, funcionários do sistema prisional, indígenas e portadores de doenças crônicas ou com condições clínicas especiais. 

 

4. Dá para vacinar  na escola? 

A instituição de ensino não é o ambiente mais adequado para isso, mas tem a facilidade de ter um público-alvo reunido num mesmo local. Se a decisão for por promover a vacinação, a equipe gestora precisa entrar em contato com uma clínica particular devidamente liberada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e comprar a quantidade necessária de frascos. No dia da aplicação, separe e esterilize uma sala para esse procedimento. Somente profissionais habilitados - no caso, enfermeiros - poderão vacinar alunos e funcionários. O fornecimento só é gratuito para os grupos de risco, diretamente nos postos da rede pública de saúde. A campanha de vacinação, que começou em abril, vai até 20 de maio.

 

5. Quais são os principais sintomas?

Tosse, espirro, coriza, dores muscular, de cabeça ou de garganta, fadiga, falta de apetite e febre são comuns em pacientes com H1N1. Em alguns casos, podem ocorrer vômitos e diarreia. Em geral, o que diferencia essa doença de um resfriado comum é a intensidade dos sinais. Nesse sentido, a febre é um fator bem   importante de se observar. Caso ela surja, é recomendável procurar um médico.

 

6. O que fazer se  alguém apresentar sintomas de gripe?

Afastar tanto alunos quanto professores e funcionários que adoecerem é a recomendação do Ministério da Saúde. No caso de suspeita de influenza, eles devem ficar fora por pelo menos 48 horas. O retorno deve ocorrer apenas se a pessoa estiver clinicamente estável, sem uso de antitérmico e sem febre por 24 horas. Se o diagnóstico for comprovado, o afastamento deve ser de 7 a 10 dias, tempo de transmissão do vírus. Vale frisar a importância de não permitir que crianças ou adolescentes fiquem na escola mesmo quando o pedido for dos pais, que muitas vezes trabalham e não têm com quem deixar os filhos. O diálogo e os esclarecimentos são essenciais para que as pessoas diagnosticadas só retornem depois de se recuperar.

 

7. Quando e como comunicar aos  pais sobre os casos  da doença?

A comunicação deve ser feita no sentido de educar para os procedimentos a ser adotados. "Minha opinião é que não precisamos apontar cada caso que aparecer", opina Ana Freitas Ribeiro, do Emílio Ribas.  Mas é essencial que os responsáveis saibam se houve ou não casos na escola e sejam informados sobre as orientações de higiene e afastamento adotadas na instituição e também sobre a vacinação disponível para seus filhos. Para comunicar, os gestores podem usar os diversos meios disponíveis, como e-mail, informativos impressos entregues pessoalmente e colocados no mural da escola. O importante é garantir a leitura por parte dos responsáveis. E se colocar à disposição para dúvidas. 
 

8. É possível medicar alunos com sintomas?

A orientação depende de decisão dos conselhos estaduais e municipais de Educação. Mas, em geral, mesmo em caso de emergência, ministrar ou não qualquer tipo de remédio vai depender do que os responsáveis pela criança ou adolescente autorizam. A sugestão é fazer com que essa informação, bem como a indicação sobre eventuais alergias, conste na ficha de matrícula de cada estudante. De qualquer maneira, a principal recomendação para lidar com pessoas sintomáticas é, em caso de febre alta, avisar os pais e orientá-los a procurar um médico. É ele quem saberá se é necessário prescrever um antiviral ou apenas um antitérmico. 


Fotos: GettyImages e Shutterstock