O segredo é provocar os alunos

Para a presidente da SBPC, o professor deve reformular as questões que propõe às crianças

POR:
Ricardo Falzetta
Glaci Therezinha Zancan. Foto: Jader da Rocha
Glaci Therezinha Zancan. Foto: Jader da Rocha

"Você vai ao quarto andar? Então é por aqui mesmo", indicou a simpática senhora. Dentro do elevador, a rápida viagem foi suficiente para que ela explicasse uma curiosidade do histórico prédio da Universidade de São Paulo na Rua Maria Antônia, centro da capital paulista. Até pouco tempo atrás a gaiola com portas pantográficas, do século passado, partia do primeiro andar, não do térreo. "Era um contra-senso ter de subir até o primeiro andar a pé antes de pegar o elevador", disse. "Agora que mudaram isso, as pessoas ainda estão se atrapalhando um pouco com a novidade."

Minutos depois, no horário combinado, eu era apresentado formalmente à professora Glaci Therezinha Zancan, 66 anos, atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a mesma senhora que havia me guiado até a sede da entidade, no quarto andar do edifício. Mais tarde, eu descobriria que o tom racional das poucas palavras trocadas no elevador permeia as opiniões que Glaci tem sobre as Ciências Naturais no Ensino Fundamental ? e na vida em geral. "Os professores estão mal preparados e, quando muito, apenas passam a informação científica adiante", diz. "É preciso fazer o aluno raciocinar."

O segredo, para ela, reside na formação. Por isso, uma de suas ações à frente da SBPC antes do fim do seu mandato, em julho próximo, será a criação de um programa de capacitação. O lançamento ocorrerá na próxima reunião anual da sociedade, de 13 a 18 de julho, em Salvador.

De costas para a janela, sem se abalar com o pesado temporal que se armava numa tarde quente de São Paulo, Glaci, que vive em Curitiba, falou à NOVA ESCOLA deixando a impressão de que outra tempestade se formava em suas idéias, às vezes tão rápidas que lhe impediam de terminar uma frase antes de emendar outra. São essas idéias (expressas aqui com frases completas) que você conhece a seguir.

NOVA ESCOLA - O atual Ensino Fundamental está formando os cientistas de amanhã?
Glaci Therezinha Zancan - O problema não é educar futuros cientistas. O Ensino Fundamental tem que formar cidadãos preparados para viver em um mundo de alta tecnologia, onde os conceitos científicos serão básicos para a vida. E isso não está acontecendo.

NE - Onde está a falha?
Glaci
- A informação científica está apenas sendo passada adiante e isso não funciona. Os conteúdos estão nos livros, na internet, à disposição de qualquer um que queira obtê-los. Esse método de trabalho não propõe que os alunos raciocinem. O motivo de isso acontecer é que nem os professores estão raciocinando.

NE - Qual seria, então, a forma correta de ensinar?
Glaci - O professor, em qualquer nível de ensino, tem de ser um pesquisador em sala de aula, observando os avanços e os problemas enfrentados por seus estudantes. E deve instigá-los, para que eles também sejam pesquisadores, descobrindo o fato científico por meio da experimentação e relacionando-o com a vida cotidiana. Caso contrário, a ciência fica completamente alheia à vida da criança.

NE - Como isso funcionaria na prática?
Glaci
- Vou usar um exemplo das minhas aulas do primeiro ano do curso de Bioquímica (na Universidade Federal do Paraná), mas que certamente ocorre em todos os níveis de ensino. Numa das minhas provas, pergunto quais os mecanismos usados pelo organismo humano para se defender durante um assalto. A pergunta é só essa, mas quero, na verdade, saber o que ocorre dentro das moléculas, como é produzida a adrenalina etc. Todos ficam embasbacados, travados, não sabem o que responder.

NE - Agora, se a senhora pergunta o que é adrenalina...
Glaci - Respondem no ato. Ou seja, estão memorizando as coisas mas não sabem para que servem.

NE - Esse tipo de questionamento pode ser feito pelos docentes do Ensino Fundamental?
Glaci
- Claro que sim. Obviamente, com temas adequados. Por exemplo, quando se fala de fermentação. Em vez de explicar que se trata de uma transformação química provocada por um fermento vivo, é melhor perguntar o que é um queijo e como ele se forma. Os alunos vão ficar muito mais curiosos e vão se sentir estimulados a pesquisar. É claro que estarão sendo acompanhados de perto, mas não receberão a informação pronta, abstrata. As crianças não têm total capacidade de abstração, precisam encontrar a ciência na vida cotidiana.

NE - Existem outros temas que permitem esse tipo de abordagem?
Glaci
- Aqui no Brasil, por nossa natureza, temos uma forma preciosa de canalizar o conhecimento científico para questões do meio ambiente. Não somos uma sociedade tradicionalmente científica, por isso, não adianta ficar importando métodos educacionais dos países mais desenvolvidos. Temos que criar o nosso próprio caminho. Temas como esse, apoiados pelo espaço que a mídia tem lhes reservado, já têm feito com que profissionais mais atentos explorem o assunto em sala de aula.

NE - Que tipo de pergunta sobre meio ambiente poderia estimular os alunos a pesquisar?
Glaci
- Uma infinidade delas... Como uma semente se transforma numa plantinha? Qual é o ciclo de vida de um parasita? As crianças são receptivas a esse tipo de provocação. E têm uma criatividade fantástica. Um garoto, no interior do Paraná, venceu o concurso Cientista do Amanhã, promovido todos os anos pela SBPC, com um projeto que mostrava o ciclo de vida de um inseto que comia outro inseto e, com isso, fazia o seu controle naturalmente em plantações. Ninguém, até então, sabia disso. Outro, em Niterói, no Rio de Janeiro, de apenas 16 anos, fez uma ótima pesquisa para desenvolver tintas antiincrustrantes não-poluentes (para pintura de cascos ou materiais que ficam em contato com a água do mar). Para isso, estudou o mexilhão Perna e fez testes utilizando o extrato da alga Laurencia obtusa. Ele e o professor que orientava o trabalho ganharam uma viagem a Paris pelo Centro Brasileiro de Documentação Técnica (Cendotec), com apoio da Embaixada da França no Brasil.

NE - O que se deve fazer para que todos os professores passem a trabalhar dessa forma?
Glaci - O passo inicial é melhorar a formação. E precisa ser algo imediato. Não podemos esperar as mudanças nos cursos de licenciatura, que também se fazem necessárias. Temos que reciclar os profissionais que estão na ativa.

NE - Eles aceitam essa mudança?
Glaci - Sinto que muitos estão angustiados. Acho que sabem que precisam mudar. Durante as reuniões da SBPC ocorrem grandes feiras e os educadores que participam delas mostram grande interesse em trabalhar de forma diferenciada.

NE - Qual a colaboração da SBPC para a formação dos docentes?
Glaci - Mantemos as revistas Ciência Hoje e Ciência Hoje para Crianças, uma home-page (www.sbpcnet.org.br), temos CD-ROMs e promovemos workshops e encontros. Além disso, estamos preparando um programa de formação a ser lançado durante a próxima reunião anual, em Salvador (de 13 a 18 de julho). Criamos uma equipe de especialistas para montar esse projeto e apresentá-lo à sociedade. O objetivo é mostrar que o ensino de Ciências deve estar muito próximo da realidade das crianças. E que o professor tem de estar disposto a crescer com sua turma. Deve entender também que a realidade de cada grupo é diferente. Não adianta tentar a mesma aula, ou os mesmos instrumentais, com uma turma de classe média e outra de periferia. As realidades são diferentes. Os desafios propostos podem até ser os mesmos, mas a forma como vão pesquisar deve levar em conta o que está à sua volta.

NE - Nesse sentido, o livro didático ainda é útil?
Glaci - Sim, porque o livro sempre fascina as crianças. Agora, ele só ajuda se não contiver erros e se não for o único recurso. A primeira avaliação feita pelo MEC mostrou um verdadeiro desastre na nossa área. Na última, a situação melhorou um pouco. Mas isso é geral. Nos Estados Unidos, depois de mudanças na proposta curricular (algo como os nossos PCN), quase nenhum título foi aprovado pelo grupo que sugeriu as mudanças. Há muitos erros também. Um estudo recente feito por um pesquisador da North Carolina State University revelou que doze dos mais populares livros de Ciências americanos continham falhas graves que até comprometiam a segurança das crianças.

NE - Como anda a produção científica do Brasil?
Glaci
- Por incrível que pareça, vai bem. Passamos de 26o para 18o lugar no ranking de produtores mundiais de ciência. De tudo o que se produz em termos de novidades científicas no mundo, éramos responsáveis por 0,2%. Agora, representamos 1,2%, com boas perspectivas de crescimento.

NE - Mas continua ocorrendo o êxodo de cientistas em busca de melhor remuneração nos países do primeiro mundo?
Glaci
- O êxodo tem diminuído. A causa principal dessa saída, no entanto, não é o salário. Em nenhum lugar do mundo os pesquisadores científicos ganham mais do que qualquer outro profissional executivo. A diferença é que lá fora a infra-estrutura é muito melhor. O pesquisador obcecado, competitivo, quer ter condições de trabalho. Não pode ficar aqui e ser obrigado a esperar, por exemplo, mais de seis meses para importar uma droga ou um equipamento necessário para a sua pesquisa. A idéia pode se perder ou, como acontece muitas vezes, ser desenvolvida antes por outra pessoa.

NE - Essa falta de estrutura, certamente, afeta também as escolas.
Glaci
- Sem dúvida, ela é geral. Quase não temos museus aqui no Brasil. Algumas exceções, como a Estação Ciência, em São Paulo, e o Museu de Ciências, recém-aberto pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, poderiam ser considerados como exemplos para outras iniciativas. Você conhece o Smithsonian Institution (www.si.edu), nos Estados Unidos? Tem tudo lá. Você entra e encontra crianças sentadas no chão, tendo uma aula que com certeza será inesquecível. Na Inglaterra, em qualquer escola pública, nos deparamos com alunos em bancadas cheias de equipamentos e, à sua volta, todos os livros necessários para o estudo. Aqui no Brasil ainda estamos distantes dessa realidade, mas muitos jovens despontam com idéias criativas. Se tivéssemos mais estrutura, lá na frente chegaríamos com muito mais cientistas bem formados.

NE - Como a senhora vê o uso do computador no ensino de Ciências?
Glaci - Ninguém sabe no mundo como usar o computador para a educação. Sabem usá-lo como fonte de informação, mas não como forma de transmissão do conhecimento. Tanto é verdade que em 1999 foi feito um seminário com as universidades estaduais americanas para discutir ensino de graduação pela internet. Chegaram à conclusão de que ainda não dá para dar um curso de graduação. Os que existem atualmente são de educação continuada. Por isso, a idéia é investir maciçamente em pesquisa educacional para saber como usar as máquinas para aprender. No Ensino Fundamental, mais do que o acesso à internet ou a softwares didáticos, acho que o aluno precisa antes de tudo de um professor motivado.

Quer saber mais?

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, R. Maria Antônia, 294, 4º andar, CEP 01222-010, São Paulo, SP, tel. (11) 259-2766

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