Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias
RDRevista Digital

Nova Escola

Nesta área você encontrará todo o acervo da revista de maneira organizada e em formato digital

Sala de Aula | Geografia | Sala de aula


Por: Paula Peres, Patrick Cassimiro e Rosi Rico

“É o sinal que a chuva chega no sertão”

Observar a natureza ajuda a turma a compreender as diferenças entre o saber popular e o científico

"Será que chove?" Fazer essa pergunta para os pais dos alunos, quando eles deixavam os filhos na escola, era um hábito da professora Francisca Deusineide dos Santos Nasario, da Unidade de Ensino V Francelino Granjeiro, na zona rural de Pau dos Ferros, a 401 quilômetros de Natal. A questão não era meramente para jogar conversa fora. "Como a maioria é trabalhador do campo, sei que prestam muita atenção no tempo antes de tirar uma conclusão. Os palpites deles não são nada aleatórios", explica. Um dia, a docente ficou intrigada com a resposta dada por uma das mães. "Ela me disse: 'O que observarmos hoje vai servir para todo o mês de fevereiro'. Me peguei pensando o que ela queria dizer com isso", lembra. 

Para entender de onde vinha tal convicção, ela buscou informações. Descobriu que alguns agricultores tinham a crença de que era possível prever o tempo dos meses de janeiro a junho ao acompanhar o clima entre os dias 8 e 13 de dezembro. Nesse caso, se chovesse pouco no dia 9 - que foi quando aquela mãe foi questionada -, poderiam concluir que a quantidade de chuva em fevereiro também seria fraca. "Aqui no semiárido, falamos que há duas estações no ano: inverno e verão. A primeira é o período úmido, que vai de fevereiro a junho e, por vezes, cobre também janeiro. No segundo semestre, é a seca", explica Josemir Araújo Neves, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (EMPARN). Sem conseguir estabelecer uma ligação entre o que acredita o povo e as características climáticas da região, Francisca decidiu envolver os alunos na busca por respostas.

 

Mergulho na vida sertaneja

As crianças perceberam que a flor do mandacaru é sinal de chuva para muitos sertanejos

A professora desenvolveu um trabalho de climatologia com a turma multisseriada dos anos iniciais do Ensino Fundamental. "Pensei que seria interessante relacionar os costumes da comunidade com os conteúdos curriculares previstos", conta. Para Denizart Fortuna, educador do Labo

ratório de Ensino de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), a professora mostrou aos alunos que existem outras formas de conhecimento. "Ela conseguiu, simultaneamente, valorizar o saber do homem do campo e introduzir conceitos de estudos científicos", elogia.

Quando a professora contou aos alunos sobre a fala daquela mãe a respeito do tempo, percebeu que eles não tinham referências sobre esse método de previsão tão comum na comunidade. Ela, então, pediu que as crianças pesquisassem, como lição de casa, de que forma os parentes mais velhos faziam as estimativas de tempo para o inverno. O retorno obtido foi rico em detalhes. Os estudantes falaram que o aparecimento de um inseto chamado farturinha nas ruas era sinal de que iria chover. Também citaram o mandacaru, uma cactácea que é símbolo do sertão nordestino e cujas flores, segundo os sertanejos, indicam água para a região, como reverbera a conhecida canção O Xote das Meninas, de Luiz Gonzaga. 

Depois de levantar os relatos da garotada, a docente combinou de saírem pelo entorno, entre os dias 8 e 13 de dezembro, para fazer uma experiência de observação e descrição do clima. Quem ainda estava desenvolvendo o sistema de escrita registrava o que via por desenhos. Os demais tinham de escrever. Em seguida, todos organizaram, em uma cartolina, um quadro demonstrativo com o aspecto climático de cada dia. O avô de uma das crianças, um experiente agricultor local, foi convidado para interpretar os dados. "O inverno  que equívocos podem existir, lemos um texto sobre a margem de erro nas previsões meteorológino vai ser bom em janeiro, mas melhor ainda em fevereiro, pois vai ter muita chuva?, decretou ele.

A ideia era comparar os registros feitos nesses dias com o que identificariam nos meses correspondentes a eles, de acordo com a crendice popular (em que dia 8 se refere a janeiro, dia 9 a fevereiro, dia 10 a março e assim por diante). Isso não quer dizer que a sequência seria um processo de validação do que diziam os moradores. Não há respaldo científico para o costume, que coincide com datas religiosas importantes da região. A intenção foi investigar se há relação entre o que acreditam eles e o que ocorre. "Para deixar claro que equívocos podem existir, lemos um texto sobre a margem de erro nas previsões meteorológicas  e discutimos sobre como isso era normal na ciência", conta a docente. Com isso, os estudantes chegaram à conclusão de que o mesmo poderia valer para o que havia dito o homem do campo, que parte apenas da observação empírica da natureza, sem a ajuda de tantos aparelhos e satélites.

 Segundo Denizart, ao trabalhar o diálogo entre o conhecimento comum e o científico, é importante que o professor tenha consciência de que esses saberes são distintos. "Apesar de olharem para um mesmo objeto de estudo e, às vezes, chegarem a conclusões parecidas, o senso comum e a ciência partem de construções diferentes", completa Sueli Furlan, professora da Faculdade de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).
 

Coleta de dados

Na segunda etapa do trabalho, a turma teve de registrar a quantidade diária de chuva na região entre os meses de janeiro e junho. Para isso, lançaram mão de um pluviômetro. "Expliquei que esse é um instrumento utilizado inclusive por profissionais para fazer as medições oficiais dos institutos meteorológicos", conta Francisca.

Com o pluviômetro, a turma anotou a quantidade de chuva diária por seis meses

Como alguns possuíam o aparelho em casa, a docente entregou a eles duas tabelas e pediu que já começassem a fazer os registros referentes aos meses de janeiro e fevereiro. Ela deixou claro às crianças que também faria anotações. Assim, cada um poderia enriquecer as descobertas da turma com seus próprios dados. 

Com o início das aulas, todos passaram a coletar as informações sobre a quantidade, em mililitros, de precipitação de chuva a cada dia. Para isso, aprenderam a usar o pluviômetro instalado na instituição de ensino e o observavam sempre no mesmo horário. O número referente à marca em que a água batia era colocado na tabela do mês, que ficava exposta em classe. Em junho, eles encerraram as coletas e tiveram um panorama do período chuvoso do sertão nordestino. "Eles tinham uma situação que queriam investigar, foram atrás dos dados e produziram conteúdo com as descobertas feitas. No caso das chuvas, existe uma base científica complexa, mas a professora mostrou que é possível fazer um bom trabalho com procedimentos simples", afirma Sueli.

No meio do ano, a população do Nordeste fica em polvorosa por causa das festas juninas. Francisca, então, aproveitou para incrementar a conversa sobre clima. "Comparamos as noites de São João de quando o inverno é bom e quando ele é considerado ruim", lembra Priscila. A relação, segundo o pesquisador Josemir, é simples: se chove bastante, a safra do milho é melhor. Com isso, existe mais comida para abastecer os festejos.
 

Análise e comparações

A turma somou as quantidades de chuva em cada mês e montou um gráfico do semestre observado. A docente também levou aos estudantes os registros referentes ao mesmo período realizados pela EMPARN nos últimos quatro anos em Pau dos Ferros. Organizados em três grupos, a turma analisou o material e identificou que, apesar de ser considerada a época mais chuvosa do ano, nem sempre ela é de fato assim, pois os registros de 2015 indicavam ter sido um inverno seco, com 602 mm de precipitação nos seis meses. O resultado era diferente do observado em 2002, em que houve 879 mm de pé d?água de janeiro a junho.

Com a atividade, as crianças puderam começar a refletir sobre o histórico de chuvas na região. "Mas é importante ressaltar que o foco não deve ser a precisão, pois é necessário no mínimo 30 anos para estabelecer uma média de pluviosidade na área", afirma Denizart, da UFF. 

Francisca também fez uma provocação aos alunos: "Por que um órgão agropecuário, como a EMPARN, cuida da meteorologia?". Logo surgiram hipóteses de que, no campo, eles plantam e cuidam dos animais, então precisariam saber sobre a chuva para fazer isso. "Os agricultores recebem sementes da Secretaria da Agricultura de acordo com o tempo na época do ano. Por isso, para o homem do campo, é fundamental saber como vai ser cada período. Só assim ele consegue se preparar tanto para plantar o que for mais adequado quanto para prever métodos alternativos de irrigação caso seja necessário",  explica Joemir.

Depois da discussão, os alunos reuniram as informações da EMPARN com as coletadas por eles em gráficos e apresentaram à comunidade um pequeno histórico das chuvas na cidade. Durante a tabulação, eles resgataram a fala do avô que interpretou os dados levantados pelos estudantes em dezembro, no início da sequência.

Os alunos compararam esses registros com os do primeiro semestre do ano e a previsão do agricultor. Eles viram que os meses apontados pelo senhor como bons tiveram mesmo mais chuva do que os outros. "Não existe relação entre a crença popular e os fatos. Mas acho que, quando o homem do campo diz que o inverno será bom, é a esperança de que precisa para passar pelo tempo de seca", conclui Francisca. Para a turma, a descoberta foi o prazer em procurar os sinais de que a chuva chega ao sertão. Enquanto isso, aprenderam muito sobre o clima.


Fotografia: Thiago Henrique