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O que conservar diante da impermanência da vida

Reflexões de Lino de Macedo

POR:
NOVA ESCOLA
Lino de Macedo,

Lino de Macedo,
Professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

Como professor de Psicologia do Desenvolvimento, dediquei meus primeiros 20 anos de estudo às chamadas provas de conservação, elaboradas por Jean Piaget (1896-1980), que, por meio de problemas, demonstrou como as pessoas a partir do primeiro ano de vida e até a adolescência constroem princípios de conservação, fundamentais para a vida e o conhecimento. Por exemplo, ao esconder um brinquedo de um bebê embaixo de um lenço, ele entende que o objeto continua existindo? Esse assunto sempre me inquietou. Afinal, o que conservar - e de que forma -, dado que, no plano da experiência, tudo é mudança ou impermanência?

O aqui e o agora são diferentes, no plano do espaço e do tempo, do ontem e do amanhã. Acredito que é daí que vem nossa necessidade de formar hábitos, repetir ou manter costumes e valores, como se fossem insensíveis às inevitáveis transformações que acontecem em nós mesmos, nos outros e em todas as coisas.

Do ponto de vista etimológico, a palavra conservar tem o mesmo radical de observar, que, em latim, significa servare, ou seja, guardar, manter e proteger. No exemplo acima, várias reações podem ser notadas na criança que deixa de ver seu brinquedo. Ela pode ser indiferente, chorar, olhar fixamente para o ponto em que ele sumiu ou, enfim, levantar o pano e pegar o objeto. Aliás, que brincadeira gostosa essa atividade se torna aos 2 anos de idade. Essa fase anuncia uma mudança radical no desenvolvimento sensório-motor da criança. O objeto já não é mais uma extensão de  seus olhos ou corpo, mas existe por si só. Isso cria no pequeno a necessidade de construir imagens mentais e aprender palavras ou gestos que conservem essa peça dentro da mente, dado que os planos perceptivo e sensorial não são suficientes. Isso requer uma inteligência simbólica que guarda, mantém e protege o objeto. O brinquedo pode estar longe dos olhos ou das mãos, mas continua dentro do coração ou do cérebro, pois pode ser falado, imaginado, imitado, descoberto,e, quem sabe, compreendido.

Que essa impermanência inevitável da vida seja um desafio para a construção de permanências necessárias.

Dessa forma, proponho um contraponto: o que precisamos ou queremos guardar, manter ou proteger ao longo da vida, apesar das transformações? O que deve ser deixado para trás e esqueci

do? Que coisas precisam ser atualizadas em um contexto que sempre muda? O que mantém você, educador, igual e, ao mesmo tempo, diferente de quem era ontem ou quando se formou? O que, por fim, o torna melhor?

Vou contar o que, por ora, ocorre comigo. Por mais de 40 anos, fui um professor universitário. Agora, estou aposentado. Com isso, me peguei questionando: qual a pessoa que devo me tornar nessa nova fase? O que devo conservar e o que transformar? Como permanecer o mesmo, sabendo que hoje sou outro? Como atualizar minha identidade, se as marcas que a definiam se desfizeram no tempo e no espaço? Em resumo, se tudo é impermanência, pois muda no todo, o que devemos guardar, manter e proteger? Ou seja, o que vamos levar daqui quando formos, do ponto de vista físico, apenas cinzas? 

Que essa impermanência inevitável da vida seja também um desafio para a construção de permanências necessárias, traduzidas em valores, escolhas ou riscos que assumimos e com os quais aprendemos, ficando iguais e, ao mesmo tempo, distintos de nós mesmos e em relação ao mundo.

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