Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Faltam para:   

Agressores: quem são? Por que agridem? O que fazer?

Telma Vinha comenta os desafios da Educação moral

POR:
NOVA ESCOLA
Telma Vinha,

Telma Vinha,
Professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Muitos educadores se veem como alvos de violência praticada por alunos. Dados da Prova Brasil mostram que 2% dizem ter sido agredidos fisicamente por estudantes e 18% alegam ter ouvido ofensas verbais. Não se trata de exclsividade de nosso país. No livro Da Violência Escolar à Cooperação em Sala de Aula (440 págs., Ed.Adonis, tel. 19/3407-7536, 110 reais), Maria José Díaz-Aguado, doutora em Psicologia pela Universidade Complutense de Madri, conta que 4% dos alunos da Espanha falam que já participaram de episódios de agressões a docentes. Isso gera medo e desânimo com a carreira. O problema é sério e merece bastante atenção.

Entender o que está por trás dessa conduta pode nos dar pistas de como agir para preveni-la. O estudo espanhol identificou características comuns aos agressores. A maioria deles são meninos, de 12 a 14 anos, com problemas de aprendizagem, que faltam às aulas sem justificativa, vi

vem em situações de risco e envolvem-se com álcool e drogas. A relação das famílias com a escola é menos frequente e mais difícil. Eles também fazem parte do grupo com maior taxa de repetência, participam em agressões entre colegas e recebem punições (advertência ou suspensão) com mais regularidade. Acreditam ser perseguidos pelo professor - que grita, implica e ameaça dar notas baixas - e que as regras impostas são injustas e desnecessárias.

O depoimento de um estudante do Ensino Médio expõe a dificuldade desses alunos em reconhecer as consequências de seus atos e pensar em atitudes alternativas. Ele diz: "Me mandaram para fora da sala por enfrentar professores. Me desrespeitam. Abusam de ser professores. Uma delas me disse que a classe estava melhor sem mim. Eu falei que, se estava melhor sem mim, então também estava melhor sem ela. Poderiam tentar falar comigo, mostrar outro caminho. Dizendo essas coisas me deixam nervoso e pioram tudo. Não acho que tenha solução. Se você fosse o diretor do colégio, o que faria para resolver essas situações? Expulsar o aluno ou o professor? Porque eles me expulsam, mas não expulsam o professor".

Combater a violência exige participação dos alunos nas decisões da escola e um trabalho para o desenvolvimento moral de cada um.

Nesse relato, fica evidente que o garoto apresenta os conflitos de forma parcial e distorcida. Não reconhece a diferença de papéis entre ele e os professores e ignora a própria responsabilidade. Analisando os estudos na área, vemos que a agressão acaba sendo o sintoma de um problema complexo - como a febre é o indicativo de que algo vai mal no corpo. É comum as instituições usarem a coerção ou medidas reducionistas para enfrentá-la: mais regras, policiamento intensivo, contratação de mais funcionários e mais punições. Contudo, medidas assim tornam difícil estabelecer vínculos educativos de qualidade com esses garotos e acabam aumentando a violência.

Não existe receita simples. O caminho para reverter o quadro passa por diversas ações, de modo a transformar a cultura na instituição. Isso inclui planejar a aula para favorecer a atenção do aluno, criar momentos sistematizados de participação dele nas decisões da escola e trabalhar o desenvolvimento moral. Na próxima edição, relatarei ações que se mostraram eficazes. Por mais difícil que pareça, podemos fazer algo e, assim, mudarmos não somente a realidade em sala mas a vida dessas crianças.


Em coautoria com MARIA JOSÉ DÍAZ-AGUADO, doutora em Psicologia pela Universidade Complutense de Madri, na Espanha