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Polarização política, chance de educar para o diálogo

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
Professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Os ecos da crise política atual chegaram às escolas. A cada sala que entro para dar aula, escuto dos alunos alguns bordões gritados nas manifestações de rua e disseminados nas redes sociais, como corruptos e "ladrões".

A intolerância e a agressividade também aparecem e, com elas, a dúvida de como nós, professores, devemos agir diante dessa tensão no ar.

 É comum fingir que nada acontece. Alguns colegas agem assim por considerar o assunto alheio ao seu planejamento, outros por não receber 

apoio da gestão escolar. Assumir a posição de mediador dessa discussão é algo delicado e é preciso exercê-la com responsabilidade.Porém, ao ignorar a questão, perdemos uma rica oportunidade de ajudar os estudantes a desenvolver a argumentação, a visão crítica e a subjetividade diante dos problemas que atingem a sociedade.

A escola é um espaço privilegiado para o debate, e, para muitos estudantes, o único. É nosso papel como educadores colocar em pauta temas como esse, que dividem a opinião pública, para, em conjunto com os alunos, analisarmos os interesses em jogo e o posicionamento assumido pelas pessoas e instituições. Devemos levar subsídios para que eles entendam a diversidade de pontos de vista envolvidos, inclusive aqueles com os quais discordam. Assim, transformamos a disputa política em situações produtivas, que trazem novos aprendizados à turma.

 Há atividades interessantes para isso. Conheci o trabalho de uma professora de Língua Portuguesa que propôs a análise de reportagens sobre a crise atual publicadas em diferentes meios de comunicação. Os estudantes tinham de identificar quais visões eram favorecidas em cada um dos textos localizando as justificativas utilizadas. Eles observaram intenções expostas sutilmente nos materiais, que antes desse estudo não eram capazes de notar. Outra ideia é investigar a argumentação empregada. Por exemplo, se em um está escrito que em determinado governo a pobreza aumentou, como saber se isso ocorreu mesmo? Os alunos devem aprender a identificar que informações são necessárias para sustentar a afirmação, encontrá-las e avaliar se os dados apoiam o que foi dito. 

Saber dialogar de forma produtiva, sem agressão, é algo desejável em qualquer tempo, mas urgente no momento em que vivemos.

A crise pode ser um contexto para ensinar os alunos a debater. Isso exige apresentar uma posição e sustentá-la diante de um interlocutor. Trata-se de um conhecimento que não surge naturalmente, mas precisa ser aprendido pela garotada. Situações em que há debate coletivo e respeitoso ajudam de maneira decisiva a formar pessoas que contribuam para a discussão política com mais qualidade e propriedade. A consequência disso para a sociedade é que a democracia se torna um valor cada vez mais prevalente. A defesa do debate - principalmente o ato de escutar aqueles que têm opiniões diferentes das nossas - deve ser um princípio do nosso trabalho em sala de aula. E, para isso, não importa a etapa ou a disciplina em que atuamos. Saber dialogar de forma produtiva, sem agressão, é algo desejável em qualquer tempo, mas extremamente urgente para a situação que vivemos neste momento. mas extremamente urgente para a situação que vivemos neste momento.