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Virei professor e mudei o mundo

Histórias de educadores que transformam escolas e vidas

POR:
Rodrigo Ratier, Alice Vasconcellos e Anna Rachel Ferreira

Capítulo 1: era o primeiro dia de Gabriela à frente de uma classe da rede pública. Recém-formada no magistério, a jovem professora de 18 anos vivia a ansiedade típica dos iniciantes ao cruzar a porta do 4º ano da EM Euzebio Costa Rodrigues, em Pinheiro, cidade pobre de 81 mil habitantes no norte do Maranhão. Entrou na sala, se apresentou, olhou de relance para a turma, pousou os olhos em Andreina e gelou. A menina era cega.

"Lembro como fiquei desesperada quando me contaram do desafio", diz. A reação automática foi buscar auxílio com a coordenação pedagógica. Pela lei, alunos com deficiência têm direito a um cuidador em sala e atendimento especializado no contraturno. A resposta dos gestores foi outra: nenhuma assistência. Mas que Gabriela não se preocupasse, porque a menina de 9 anos já estava acostumada a ficar sentada escutando as aulas e a fazer prova oral. "Prova oral? Ela precisava ser alfabetizada junto com o resto da turma!". Virou ponto de honra não deixar Andreina para trás.

O apoio que faltou na escola Gabriela encontrou na internet. No site da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela conheceu o programa Braille Fácil. As noites eram dedicadas ao estudo do sistema de leitura tátil para cegos e as manhãs para ensinar Andreina. O começo foi complicado. "A menina foi bem resistente nas minhas primeiras tentativas", relembra. "Sempre que eu perguntava, ela dizia 'não sei'. Se eu insistia, ouvia 'já disse que não sei'. Essa resistência aumentava minha angústia." 

Gabriela persistiu. Considerava um absurdo que só sua aluna cega não tivesse a oportunidade de ler e escrever por conta própria. O ano foi correndo, a resistência foi cedendo, Andreina se empolgando com o aprendizado e, em dezembro, o que era difícil aconteceu: a menina conseguia ler.

Esta reportagem é uma homenagem às professoras e aos professores que não desistem.

Educadores como Gabriela, Willman e Cristina. Gente que sabe que ensinar não é fácil - ao contrário, está cada vez mais complicado, mas essas pessoas vão além da queixa. Elas valorizam um dos mais belos traços da docência - a capacidade de transformar escolas e vidas de muitas pessoas - para vencer desafios como a inclusão, a aprendizagem de todos e a indisciplina. Gente que, enfim, trilha o caminho sugerido por Paulo Freire na frase que ilustra o pôster encartado nesta edição: "Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza".

 

Mais que uma missão

Mas esta não é uma reportagem que apenas celebra histórias de superação. Fazer isso seria respaldar uma concepção ultrapassada de idealismo. Por muito tempo, comparou-se a docência a uma atividade heroica, levada a cabo por mulheres e homens abnegados que lecionavam somente por amor e fé. Em poucas palavras, ensinar era uma missão, ideia que se alimenta da origem religiosa da Educação brasileira com os primeiros colégios jesuítas, no século 16.

Sobrevivendo ao berço catequista, a noção do magistério missionário atravessou centenas de anos e continuou impactando o imaginário da profissão. No século 19 e em boa parte do 20, prevaleceu a ideia de que as moças formadas pelas Escolas Normais não precisavam ser bem remuneradas - afinal, elas eram mulheres e a docência parecia uma extensão "natural" do cuidado doméstico e da educação dos filhos. Já a partir dos anos 1970, com o avanço da escola para todos, o interesse pela carreira diminuiu proporcionalmente ao encolhimento dos salários e à precarização das instituições. Com essas condições de trabalho, quem nunca ouviu que tem de ser missionário para seguir dando aulas?

 

"Meu desafo foi incluir uma aluna cega. Me orientaram a passá-la direto. Não me conformei. Fui estudar braile para poder ensinar. No fm do ano, ela aprendeu a ler." 

GABRIELA MARTINS COSTA, professora do 4º ano na rede municipal de Pinheiros, no Maranhão

 

"Todo mundo tem uma missão a cumprir. Mas o professor não é um caridoso, e sim um profissional", esclarece Maria do Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM. Assumir funções do coordenador, do diretor ou mesmo do Estado pode resolver um problema específico por um curto período, mas não transborda as paredes da sala nem representa soluções duradouras. Isso significa que precisa haver limites para o voluntarismo.

 

Mais que uma técnica

Capítulo 2: aquela classe de 7º ano do Colégio Estadual Álvaro Alvim, em Miguel Pereira, pequena cidade no interior do Rio de Janeiro, era a típica turma-problema. "A direção colocou os repetentes todos juntos e aí... Bem, não espanta que eles fossem hostis e se sentissem estigmatizados como adolescentes que não conseguiam aprender." Relembrando como conseguiu virar esse jogo, o professor de Língua Portuguesa Willman Costa diz que tudo começou com uma sensação - a de que o ensino tradicional não estava funcionando com a moçada. 

Sua aposta foi ousada: organizou os jovens em roda e propôs um bate-papo em que todos poderiam perguntar o que quisessem. 

- O que a gente vai estudar, professor? 
- Depende. Do que vocês gostam? 

A proposta desarmou os espíritos. Como muitos eram fãs de funk, Willman deu a sugestão de que eles trouxessem letras - sem palavrão, estabelecendo os limites da liberdade - para serem analisadas. Estava criado um canal de diálogo, uma via de mão dupla que o ajudou a avaliar constantemente a melhor forma de ensinar os conteúdos e a manter o interesse da turma.

Pouco a pouco, as notas foram melhorando, o que ajudou a amenizar a desconfiança dos colegas com a abordagem inovadora. "Outros professores passaram a adotar a estrutura de sala em roda ou em U", conta Fabíola Chagas Passos da Costa, então diretora adjunta. Mudou também a forma de ver aqueles adolescentes. A maioria foi aprovada no final do ano e a segregação dos repetentes abolida. "Cabe também a nós fazer com que os jovens queiram estudar", reflete Willman.

A atitude de mudar a estrutura rígida das carteiras enfileiradas ou de considerar a opinião dos estudantes para ajustar o planejamento subverte  outro entendimento sobre a docência: a ideia de que o professor seria, acima de tudo, um técnico. Pode-se dizer que essa concepção está no polo oposto da missionária. Suas raízes remontam aos anos 1960 e ao avanço da ideia de que a Educação deveria apenas preparar pessoas para o mercado de trabalho - não à toa, a expressão "capital humano" nasce nesse período. Nessa lógica, o docente é um transmissor de conteúdo que cumpre friamente as exigências de seu trabalho.

 

"Diziam que aquela classe nunca iria aprender.  Estavam errados: usei letras de funk para engajar a moçada. Cabe também a nós fazer com que os jovens queiram estudar." 

WILLMAN COSTA, professor do 7º ano na rede estadual em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro

 

Num certo sentido, a concepção técnica é uma tentativa de afirmação da ideia de que o professor é um profissional - e isso é bom. Ocorre que reduzir o ensino a uma atividade padronizada acaba deixando muitas coisas de fora. O idealismo, por exemplo. Para que sonhar e lutar por um mundo melhor se o resultado da Educação (preparar apenas para o mercado) já está programado? "Quando transformo o professor num técnico, estou subestimando a capacidade dele. Ele é uma pessoa que sente, pensa e faz. Assim como seus estudantes", opina José Cerchi Fusari, professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). 

 

Mais que uma ação individual

Capítulo 3: in-dis-ci-pli-na. O pentassílabo mais temido do cotidiano escolar cruzou a trajetória de Cristina Maria Campos há três anos, quando ela chegou para dar aulas na rede pública de Campinas, no interior paulista. Graduada em História e doutora em Educação, Cristina já havia passado por turmas de várias idades. Pensou ter visto de tudo na escola até encarar a classe do 3º ano da EMEF Ângela Cury Zákia, na periferia da cidade. "Era um caos. Cadeiras voavam e todo mundo se xingava. Achei que  nunca conseguiria trabalhar ali."

Cristina respirou fundo. Concluiu que, se desistisse daquelas crianças, estaria desistindo também de tudo o que acreditava sobre Educação. "Pensei: elas ainda sabem muito pouco da vida. Posso auxiliar a formá-las integralmente, como cidadãos."

Sua primeira providência foi tentar entender a razão de tanta bagunça. Durante o primeiro bimestre, observou os alunos um por um, num trabalho minucioso de entender o que cada um queria e o que os incomodava. Identificou pontos críticos e, aí, lançou mão de uma outra estratégia fundamental: buscou na formação acadêmica subsídios para desenvolver o trabalho. Ela já tinha concluído seu mestrado sobre violência na Educação de adolescentes na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e tinha acabado de voltar de um doutorado-sanduíche na Itália. Levou para a equipe da escola conhecimentos sobre mediação de conflitos, jogos colaborativos, elaboração de combinados e, principalmente, muito diálogo.

Descobriu, por exemplo, que dois dos meninos que brigavam muito eram primos. Suas mães tinham uma relação estremecida. Conversou com elas - uma, duas, três, quatro vezes, até fazer entender que era preciso controlar a desavença. "Quando entenderam que eu não era uma inimiga, as coisas começaram a fluir. Hoje consigo ensinar sem problemas."

A possibilidade de mudar o mundo - mesmo que esse "mundo" seja algo ao mesmo tempo tão pequeno e grandioso quanto ajudar uma criança a compreender uma ideia nova - é um poderoso fator de atração para a sala de aula. A pesquisa A Atratividade da Carreira Docente no Brasil, realizada pela Fundação Carlos Chagas (FCC), aponta o reconhecimento desse potencial como um dos fatores para a escolha da profissão. Escolha feita, manter a chama da mudança acesa é que são elas.

Se o missionarismo soa como ingenuidade, uma dose de resiliência, a capacidade de lidar com problemas, driblar obstáculos ou resistir à pressões surge como característica comum aos educadores que conseguem impactos positivos. E se o tecnicismo puro empobrece o magistério, Paulo Freire novamente está aí para nos lembrar de que a força transformadora de um educador se funda na sua competência profissional. "O professor que não leve a sério a sua formação, que não estude, que não se esforce para estar à altura de sua tarefa não tem força moral para coordenar as atividades de sua classe", sentencia o patrono da Educação brasileira no livro Pedagogia da Autonomia.

À imagem de intelectual resiliente podemos adicionar um terceiro aspecto, presente no exemplo de Cristina e fundamental para os dias de hoje: a capacidade de articulação. Isso significa que, para que a transformação desejada se torne realidade, é preciso ter mais gente empenhada no mesmo objetivo. "Uma docência de impacto só é possível com o envolvimento de todos os atores que colaboram no projeto pedagógico", defende Cláudia Davis, superintendente de Educação e Pesquisa da Fundação Carlos Chagas.  

De todas as características, essa é provavelmente a mais difícil de cultivar. A habilidade de tecer relações, costurar acordos e encontrar os lugares  e as pessoas certas para uma orientação é algo para o qual a formação incial e continuada ainda não preparam. Mas deveriam.

Numa sociedade organizada em rede - como é a característica dos tempos em que vivemos -, ativar os "nós" certos pode fazer a diferença entre uma boa ideia que não sai do papel e uma iniciativa que se mantém ao longo do tempo e provoca melhorias na vida de muita gente. Como afirma Betania Leite Ramalho, professora do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mudanças profundas dependem do interesse, bem amarrado, de muitos. No Brasil, essa condição ainda está longe de se efetivar. "Quando a Educação passar a ser um fator de prioridade nacional, como acontece em países com elevada qualidade de vida, consensos sobre o ensino de qualidade serão construídos como parte de um sistema nacional que compar tilha metas e finalidades educativas integradas ao projeto de país", exemplifica.

 

"Era tanta indisciplina  que eu pensei em desistir.  As coisas mudaram  quando decidi conhecer  cada aluno. Me aproximei  e viram que eu não era uma inimiga."

CRISTINA MARIA CAMPOS, professora do 3º ano na rede municipal de Campinas, em São Paulo

 

Mesmo que não exista manual para desenvolver essa capacidade de mobilizar pessoas para uma luta ou causa, é um equívoco pensar que essa é uma habilidade exclusiva das pessoas com carisma. O fim da história de Gabriela ajuda a ilustrar esse ponto.

 

Mais que tudo, seguir em frente

Durante dois anos, a professora trabalhou no improviso, contando apenas com um alfabeto móvel de letras vazadas e um único livro transcrito em braile. As coisas melhoraram quando o Instituto Federal do Maranhão (IFMA) instalou uma unidade em Pinheiro e a convidou para lecionar. Mais que recursos (livros e materiais para a produção de obras em braile deixaram de ser um problema), Gabriela ganhou a companhia de uma professora cega, Denise Ferreira Costa. Enquanto uma fazia as transcrições dos textos, a outra revisava. As coisas corriam bem no IFMA, mas Gabriela queria colaborar com os estudantes da rede municipal. Junto com Denise, escreveu um projeto para capacitar professores, pais e alunos da EM Euzebio, onde ela havia dado aulas. Em dois meses e meio de curso, 28 pessoas aprenderam a ler e a escrever em braile.

Último passo: garantir condições para produzir recursos didáticos para cegos. "Descobri que as coisas estavam espalhadas. As escolas tinham um ou dois livros, uma tinha o papel, outra tinha a máquina. Nós propusemos concentrar tudo num único lugar", explica Gabriela. Agora, a EM Euzebio tem uma sala especializada em alfabetização em braile com impressora, duas máquinas de escrever, regletes, punções e 20 livros transcritos. O mundo dos estudantes cegos em Pinheiro mudou. O dos repetentes de Miguel Pereira e dos indisciplinados de Campinas, também. Tudo começou com três professores que acreditaram que poderiam fazer a diferença. Fizeram. 

 

Foto: Douglas Cunha Jr.
Ilustração: 45JJ