Sala de Aula | LÍNGUA PORTUGUESA | 9º ANO | Sala de aula

Artimanhas do discurso

Analisar o que o outro diz ajuda a desenvolver a argumentação oral

POR:
Pedro Annunciato, Alice Vasconcellos e Rosi Rico

E ra uma frustração. Em quase toda aula, a professora Sônia Santos de Oliveira buscava estimular a participação da turma do 9º ano da EEF Francisco Correia Rodrigues, em Ocara, a 86 quilômetros de Fortaleza. Para instigar o debate, ela tentou de tudo: escolheu temas polêmicos, fez perguntas sobre os assuntos... E nada. "Os alunos não conseguiam articular argumentos e se posicionar diante de uma plateia de ouvintes. Alguns não falavam, outros riam sem motivo ou travavam", conta. A ficha caiu quando ela percebeu que estava pedindo aos estudantes algo que eles ainda não sabiam. Era preciso explorar as marcas específicas da argumentação oral. 

Dá para entender por que muitos professores negligenciam o ensino de gêneros orais. A fala é uma coisa cotidiana e entendida como inata. Mas a reflexão sobre a oralidade é importantíssima, ainda mais quando o que está em foco é a argumentação. "O domínio das diferentes situações de comunicação impacta na vida social e política. O que somos e fazemos depende de como lidamos com a fala", explica Marcelo Ganzela, formador do Instituto Singularidades, em São Paulo.

No caso de Sônia, a oportunidade ideal para uma nova tentativa surgiu com a eleição do representante de classe. Afinal, para convencer seus colegas de que é o melhor líder, o aluno-candidato precisa ter bons argumentos e ser convincente. Sônia pediu que os cinco interessados no cargo preparassem a defesa de suas candidaturas. Depois, eles tiveram dois minutos para falar, enquanto ela gravava o áudio. Joice Freire, 14 anos, venceu a votação com um discurso que usou recursos como a reiteração de pontos de vista (ela insiste na necessidade de união dos alunos: "Pretendo exercer o cargo dando o melhor de mim, e conto com o apoio de vocês. Sugiro que nos juntemos 

para vencer todos os obstáculos e fazer da escola um ambiente saudável".) e a criação de uma autoimagem que a identificava com a turma ("Eu, como aluna, sempre procuro melhorar a escola. Então, esse será meu objetivo principal: buscar melhorias para todos nós."). 

Na aula seguinte, toda a sala ouviu cada discurso e observou aspectos verbais (a escolha de palavras, argumentos, interjeições) e não verbais (como a entonação das falas). Os alunos registraram tudo no caderno e, oralmente, fizeram sugestões para tornar a defesa mais persuasiva.

Refletir para convencer
Veja os elementos que contribuem para uma fala persuasiva

Escuta
A análise atenta permite compreender as intenções do autor. Em um primeiro momento, os alunos observam escolhas de palavras, tom de voz, sotaque - elementos que compõem o contexto em que a comunicação ocorre - e o tipo de interlocutor envolvido. Depois, se aprofundam e destrincham os argumentos e o encadeamento lógico.

 

 

Linguagem não verbal
Expressões faciais, gestos, a posição dos ombros, o olhar. Tudo compõe o discurso diante da plateia e pode ser elemento persuasivo. O professor deve corrigir a postura e a entonação dos alunos. Dividir a turma em grupos menores pode ajudar os mais tímidos a não travar nas primeiras experiências e a ganhar confiança.

 

 

Normas
Não dá para avaliar o discurso oral com base nas normas que regem a escrita. O fundamental é avaliar se a fala é compreensível e adequada ao contexto, se tem coerência interna e, por fm, sua correção sintática, morfológica e lexical. O docente pode intervir no momento da fala ou tematizar o erro posteriormente ? mas sempre de uma maneira cuidadosa.

 

 

Pesquisa e documentação
Para a argumentação ter consistência, é preciso estudar o tema a ser tratado. Pode-se dividir a sala em duplas ou grupos maiores que, com o apoio do docente, trabalhem em cima de um mesmo material. Depois de debater o que encontraram, os alunos retomam a pesquisa e transformam as anotações em um roteiro de apresentação.

 

 

 

 

Como avaliar a argumentação
Anotações e discursos de referência são indispensáveis

Registros

Anotar é essencial: como as produções não são feitas em suporte escrito, registrar gestos e gravar o que é dito são os meios pelos quais o professor pode retomar e avaliar posteriormente as falas. Essas informações servem de apoio para as intervenções em relação ao conteúdo dos argumentos e às formas verbais e não verbais de expressão. 

Bons materiais

Tão importante quanto ter uma boa biblioteca de textos escritos é manter uma coletânea de materiais audiovisuais de alta qualidade. Debates televisivos, programas de rádio, peças de propaganda política, discursos e palestras podem trazer exemplos concretos de como um orador se comporta diante da plateia.

 

Leitura crítica para melhor argumentar

A possibilidade de retornar ao texto oral para refletir sobre a intenção do autor é um dos pontos positivos da sequência didática de Sônia. A leitura crítica permite encontrar "buracos" no discurso e aprimorar versões futuras (veja nas ilustrações exemplos de elementos para observar).

É possível dividir o trabalho de análise em dois eixos. O primeiro diz respeito à apresentação de quem fala. "A observação de bons oradores, dos gestos utilizados, do tom de voz e da escolha daspalavras ajuda o estudante a perceber quais elementos tornam o discurso mais convincente e a incorporá-los à própria prática", comenta Heloisa Ramos, consultora pedagógica de NOVA ESCOLA. O trabalho pode incluir também análises de vídeos, áudios e podcasts variados com falas históricas para comparação (confira uma seleção de materiais para o uso em sala em abr.ai/oralidade). O segundo eixo é a apreciação do texto lido em público.

Essa prática de fazer uma leitura crítica de discursos é essencial para ser um bom argumentador, comenta Ana Lúcia Tinoco Cabral, autora do livro A Força das Palavras - Dizer e Argumentar (160 págs., Ed. Contexto, tel.:11/3832-5838, 28 reais). "Só o leitor crítico identifica em um discurso os pontos com os quais concorda e os de que discorda, para, com base neles, dialogar com o interlocutor e formular respostas adequadas", diz a escritora. Sobre esse ponto, Heloisa elenca alguns aspectos importantes de ser examinados. "Com candidatos políticos, é frequente o exagero das características negativas do opositor ou de seus próprios feitos, usando dados estatísticos, adjetivos e advérbios", afirma. Praticando a oralidade com frequência os estudantes ficam mais atentos a tudo isso.


Ilustração: Marcelo Badari