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O que o sudoku ensina à escola e à vida

Reflexões de Lino de Macedo

POR:
NOVA ESCOLA
Lino Macedo,

Lino Macedo,
Professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

T oda noite, reservo cerca de 20 minutos para fazer um sudoku no computador. O desafio é completar os espaços vazios de uma matriz com números de 1 a 9, sem repetir nenhum deles em uma mesma linha, coluna ou grade (de três linhas e três colunas). Os algarismos já postos dão as coordenadas para inserirmos os que faltam de modo lógico, chegando à única solução possível. Acreditem, apesar do desafio mental, isso me relaxa e prepara para o descanso. É como uma meditação, em que tenho de estar presente, calmo e atento, para realizar uma tarefa que pede esforço, concentração e foco, mas que tem como consequência apenas o prazer de viver esse fluxo e cumprir a meta.

Há algo nessa prática que pode ser útil no contexto escolar e na vida. Isso porque uma das funções da escola é preparar crianças e jovens para se tornar adultos, ou seja, capacitá-los para os desafios dessa fase que, muitas vezes, exigem habilidades semelhantes às necessárias no sudoku.

Analisemos o jogo: em um contexto lúdico, temos de observar (números presentes e ausentes), lidar com mais de uma possibilidade (um mesmo algarismo poder ser colocado em uma ou outra casa), assumir riscos, nos esforçar para descobrir o único lugar correto de cada número e justificar essa escolha, ter atenção, sair do automático e decidir pela melhor jogada em cada momento. Também precisamos conter a impaciência, a impulsividade, o sentimento de que não somos capazes e de que a solução é impossível. Enfim, exercitamos um pensamento reflexivo e crítico, além de desenvolvermos o autocontrole e a capacidade de dirigir as emoções. Nesse sentido, jogar sudoku é adquirir capital cognitivo, para usar o conceito do economista americano James Heckman. Ele se refere ao conhecimento que, mais tarde, será utilizado na vida e no trabalho.

De fato, as habilidades conquistadas são aplicáveis no dia a dia. Por exemplo, ao optar por uma estratégia para chegar ao resultado profissional desejado, ao aguardar a melhor hora para investir num negócio ou quando é preciso quebrar a cabeça para resolver um problema financeiro. 

Algumas pesquisas têm investigado essa aquisição via jogo. Em seu mestrado em psicologia escolar pela Universidade de São Paulo (USP), Angela Catuta Ferreira Ebner constata que o sudoku favorece o desenvolvimento de habilidades mesmo em crianças pequenas. Me inspiro ainda no trabalho do psicólogo Daniel Kahneman, teórico israelense que combina a economia com a ciência cognitiva, para ver nessa prática um jeito de agradar e exercitar o que ele coloca como uma parte preguiçosa, mas fundamental, de nosso cérebro. Preguiçosa pois nem sempre se empenha no que exige esforço. Fundamental porque é analítica e crítica. Em outras palavras, se por um lado resistimos a pensar coisas complicadas, por outro é na cognição que se expressam nossas formas mais complexas de raciocinar e trocar recompensas fáceis e baratas por outras difíceis e caras a nós.

No contexto do sudoku, ainda que esses itens estejam todos presentes, me sinto relaxado e entro no fluxo da busca de soluções de forma leve e descontraída. Troco a preguiça pelo ócio produtivo, ativado apenas pelo prazer funcional e pelo sentimento de realização. Esse jogo, como a vida, pode ser gostoso e desafiador, enquanto nos leva a aprender no processo.


Foto: Ramón Vasconcellos