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Precisamos olhar para os alunos invisíveis

Estudantes que se calam não dão trabalho, mas deveriam dar. Aprenda a enxergar essa parte escondida da turma

POR:
Patrick Cassimiro, Camila Camilo e Rosi Rico

Eles não costumam levantar a mão para responder a questões propostas em sala. Durante as atividades em grupo, se manifestam pouco. Não têm os melhores boletins da classe nem são aqueles com visíveis dificuldades de aprendizagem. Não fazem bagunça nem são supercomportados. Nas reuniões, as conversas com seus pais são rápidas. Embora sejam parte significativa da turma, esses meninos e essas meninas passam despercebidos aos olhos dos educadores. Como se diz nos corredores das escolas, "eles não dão trabalho".

Mas deveriam. "Todo aluno precisa ?dar trabalho? ao professor porque, para aprender, todos precisam da mediação desse profissional", explica a orientadora educacional Catarina Iavelberg, colunista de GESTÃO ESCOLAR. Ela enfatiza que a maior preocupação com os dois extremos - a primeira fileira, dos que colecionam notas 10, e os mais difíceis, a turma do fundão - é tão recorrente que ofusca quem está no meio. Não raro, eles só são notados quando algo fora do comum acontece. Uma queda no desempenho ou uma vontade de mudar de escola, por exemplo.

O manto da invisibilidade que recobre certos alunos não conhece barreiras entre as etapas de ensino. Helena Ruiz, coordenadora pedagógica da rede municipal de São José dos Campos, a 94 quilômetros da capital paulista, relembra um caso emblemático. Quando se reunia com professoras da Educação Infantil numa das escolas onde trabalhou, ela costumava pedir informações sobre cada um da classe. Nas conversas, os que estavam muito aquém ou acima do esperado recebiam muitos comentários. Os demais, não. "Algumas nem sabiam dizer o nome dos pais, embora eles pegassem as crianças na porta todos os dias."

Por que esse fenômeno ocorre? O professor tem sua dose de responsabilidade, mas não é o único culpado. "Há toda uma cultura que valoriza o individualismo, o melhor aluno ou mais comportado", diz Flávia Vivaldi, coordenadora pedagógica da rede municipal de Poços de Caldas, a 461 quilômetros de Belo Horizonte, e pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Quem se sobressai é aquele que rouba a cena para o bem ou para o mal."

Parte do problema também pode ser atribuída ao modelo de ensino tradicional. A cena é conhecida: o professor vai ao quadro, expõe o conteúdo e pergunta se alguém tem dúvidas ou se sabe a resposta para determinada questão. Esse padrão intimida quem ainda não tem segurança, mas poderia fazer colocações valiosas em dinâmicas diferentes de troca de saberes. Maria Feliciana do Amaral é professora de Língua Portuguesa da rede estadual paulista e escreveu sua tese de mestrado sobre os estudantes que não se destacam na multidão. Ela concluiu que, na gestão de sala, é raro encontrar um ambiente que estimula crianças ou jovens mais tímidos a colocar à prova suas próprias hipóteses de conhecimento. A exigência da resposta certa pode fazer o aluno se calar por achar que não entende do assunto.

 

Quando há invisíveis, todos perdem

A invisibilidade se agrava nos anos finais do Ensino Fundamental. Quando os docentes têm encontros curtos com várias classes, a tendência é o adolescente mediano cair ainda mais no esquecimento. Principalmente porque a preocupação em apenas cumprir o currículo e seguir o livro didático pode superar as iniciativas ligadas à gestão desala, que incluem como formar os grupos mais produtivos e propor desafios diferentes para cada um dos alunos.

O resultado é um ambiente mais pobre em relações pessoais. Todos perdem. Os que recebem pouca atenção são menos estimulados pelos educadores, desempenham um número menor de papéis em sala e raramente expõem o que pensam. Tendem a completar a Educação Básica sem desenvolver todas as suas potencialidades como estudantes. O resto da turma, por sua vez, tem discussões mais limitadas do que se todos fossem impulsionados a se manifestar e se cada um fosse provocado a refletir com base no que o colega diz, não somente no que é ensinado pelo professor.

A solução passa por uma expressão famosa entre os educadores: valorizar a heterogeneidade da turma. O desafio é ver a diversidade como uma vantagem e não como um problema. Nas próximas páginas, apresentamos cinco estratégias para enxergar os alunos invisíveis.

O trabalho, que ganha muito ao ser feito em conjunto com a equipe gestora, inclui a observação cuidadosa de crianças e jovens, registros completos sobre cada um, criatividade para driblar as aulas expositivas, formação de grupos eficazes e a construção de um ambiente acolhedor para que todos possam aprender e se expressar.

 

Caminhos para ver todo mundo

Guardar o nome, convidar os quietos e envolver  os tímidos: o escondido passa a se mostrar 

 

1. Construir um registro completo dos alunos

"Com organização, dá para acompanhar o percurso de todos os estudantes, mesmo quando as classes são grandes", explica Helena. Um instrumento fundamental nessa tarefa é o registro de classe. Mas é preciso ir além dos diários que ficam só nas indicações de presença e de nota. Para contar direitinho a história de cada um (para a equipe e para você mesmo), as informações do registro precisam ser completas.

"Não podemos depender só da memória", opina Silvia Portela, educadora do Instituto Materno Infantil (IMI) Helena Vaz de Lima Solima, em São José dos Campos. Responsável por uma turma de 16 bebês de até 2 anos, Silvia se apoia em dois tipos de registros. O primeiro caderno é mais pedagógico. Ele contém os objetivos nos diferentes eixos da creche (linguagem e expressão corporal, exploração de objetos, identidade e autonomia etc.) e uma coluna com o nome dos pequenos. Para cada atividade, ela anota comentários sobre como cada criança se saiu. 

O segundo é um caderno que fica permanentemente aberto na sala, como um livro de visitas. Nele, Silvia escreve eventos importantes para aquela faixa etária, como a fala dos bebês, manifestações de curiosidade a respeito de um objeto específico ou até mesmo se um ou outro fica mais quietinho ou leva um tempo diferente para cumprir certa atividade. As informações enriquecem as conversas com os responsáveis durante as reuniões de pais. "Também me ajuda a entender e a acompanhar o ritmo de cada um", esclarece.

Os modelos de registros - e as estratégias de preenchimento - podem ser adaptados conforme o nível de ensino. Para o Fundamental 2, por exemplo, enquanto os estudantes trabalham, o docente deve observar atentamente e anotar avanços e dificuldades de todos, como se comportam, indicar comentários e perguntas de cada um e o desempenho em atividades diferentes (grupos, seminários, debates etc.).

 

2. Trabalhar junto com a coordenação

A coordenação pedagógica precisa estar próxima dos alunos, sabendo o que acontece com cada um deles. Esse acompanhamento minucioso ajuda o professor a não cair em armadilhas, como deixar de lado os diagnósticos de início de ano e, conforme o semestre avança, retomar a prática antiga de focar apenas em uma parcela da sala. A parceria é útil também para o docente ter uma segunda opinião sobre como está dando aula para rever suas práticas se for necessário. Isso porque é possível que a falta de participação de determinada criança ou jovem seja reflexo de desinteresse pelo conteúdo ou pela forma de ensino.

Outro problema que pode ser contornado com a ajuda da coordenação é a postura nos conselhos de classe. Darlene Knoener, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lembra que é recorrente esse momento ser mal utilizado. Segundo ela, o comum é se perder muito tempo reclamando de quem apresenta problemas de comportamento. "Na verdade, o conselho é a hora de analisar o desempenho de todos os estudantes e discutir com os colegas meios para colaborar com o avanço das turmas", afirma.

A proximidade com a coordenação é também fundamental quando surgem sintomas de questões mais graves. O professor geralmente é o primeiro a percebê-los, mas deve soar o sinal de alarme para a coordenação. "Se um adolescente dorme no canto da sala, o docente precisa perguntar porque ele está dormindo, analisar quando isso começou e relatar o ocorrido aos gestores. Refletir juntos sobre os problemas individuais é uma forma eficaz de superá-los", explica.

 

 

3. Planejar dinâmicas de ensino variadas 

Nem todo mundo aprende do mesmo jeito. Alguns podem se dar melhor com aulas expositivas, enquanto outros avançam mais com pesquisas. Há os que se comunicam melhor falando do que escrevendo ou os que se entusiasmam ao produzir jornais e peças teatrais. Quem apostar no mesmo modelo todos os dias para todos os alunos com certeza vai deixar alguém para trás. O planejamento precisa ser claro, mas também aberto para se adaptar à classe. Flávia conta que algumas escolas em Madri, na Espanha, estão apostando na aprendizagem colaborativa para atender igualitariamente seus estudantes. "São instituições preocupadas em dar espaço para que as crianças testem as próprias hipóteses e investiguem em conjunto." No Colegio Ártica, na capital espanhola, ela observou uma atividade em grupo em que cada aluno ocupava uma função distinta: porta voz, escriba ou debatedor. Esses papéis variam conforme o projeto, o que dá a chance para testar habilidades tendo responsabilidades variadas. As crianças atuam em coisas diferentes e, assim, o professor passa a ter muito mais meios para avaliar em que cada estudante vai melhor e refletir como fazer para estimular ainda mais sua turma.

Atividades que promovem a participação coletiva são, portanto, bem-vindas. Em ambientes assim, o docente percebe quem geralmente não se expressa com frequência e consegue trabalhar para que todo mundo fale e coopere.

 

4. Considerar os perfis para formar grupos

Se os alunos estão sempre sentados um atrás do outro, é mais difícil olhar para cada um. Em grupos, as características se sobressaem e quem educa deve estar atento a isso. Mas não basta formar conjuntos de alunos aleatoriamente. É preciso conhecer os estudantes para propor o grupo mais adequado para cada objetivo de aprendizagem. A regra básica é que todos cooperem entre si para aprender. Uma primeira providência é unir alunos em fases próximas de aprendizagem, para aquele que saiba um pouco mais ajude os outros a avançar. "Mas, para que todos tenham voz, é preciso prestar atenção às personalidades", alerta Flávia. Aquele menino tímido, por exemplo, provavelmente não vai avançar na equipe do falante que sempre tira notas boas. Mas pode aprender mais com o apoio do empático, que gosta de colaborar.

Dá para definir esses perfis ao fazer a avaliação diagnóstica e montar a ficha dos estudantes. Não para rotular a turma, mas para facilitar o aprendizado em conjunto. Enquanto a classe trabalha, o professor, nas palavras de Flávia, deve "gastar sola de sapato" e ir de equipe em equipe vendo como está o andamento da atividade, quem precisa de ajuda e, principalmente, se todos estão se expressando e contribuindo para a discussão.

 

5. Valorizar as perguntas

Perguntar em sala não é uma atividade qualquer. É, talvez, o principal ato pedagógico. Ao questionar ou ser questionado, o aluno é chamado a refletir. O melhor jeito para garantir a participação é estimular a dúvida. Fuja de questões cujas respostas sejam apenas sim ou não. Também evite interromper um debate dando a solução do desafio logo de cara para a turma. Deixe a discussão rolar! "Às vezes, a resposta errada ensina mais do que a certa, na medida em que ela ajuda a por à prova o raciocínio", diz Fernanda Liberali, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e formadora de gestores e docentes.

Por exemplo, em uma aula de Língua Portuguesa, o educador pergunta o que significam figuras de linguagem. Um aluno pode responder que são as imagens que ilustram um livro. Em vez de só dizer "você está errado",  o docente pode sugerir que a classe explore melhor o raciocínio: "Por que você acha isso? Quem mais acha que tem a ver com ilustração? Alguém tem uma ideia diferente?". Quando a criança ou o jovem sentem que estão em um ambiente acolhedor, onde suas hipóteses são valorizadas e contribuem para o desenvolvimento de todos, a tendência é que se sintam à vontade para participar da aula. Em vez de ficar invisíveis, querem aparecer. 
 


Foto: Tomás Arthuzzi

Modelo: Felipe Argenton/ Agência Kids