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Para Winnicott, isto não é só um cobertor

Entenda como o pediatra inglês – que completaria 120 anos em 2016 – mudou o que sabemos sobre a infância

POR:
Wellington Soares e Alice Vasconcellos

Um cobertor não é só um cobertor, um brinquedo não é só um brinquedo e uma chupeta... bem, você pegou a ideia. O pediatra inglês Donald Woods Winnicott (1896-1971) mudou a forma como enxergamos a primeira infância ao afirmar que, para os bebês, todos esses artefatos são "objetos transicionais". 

Transicional por que está ligado a um processo de transição: a gradual separação entre mãe e bebê. Por volta dos 6 meses de idade, o pequenino se dá conta de que ele e a mãe não são a mesma coisa - é a descoberta da realidade externa, etapa fundamental no desenvolvimento psíquico infantil. "Para lidar com esse afastamento, a criança pode ocupar o vazio com um objeto que esteja ligado a essa relação primordial", explica Rosa Maria Mariotto, psicanalista e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

 

HOLDING - Ao sustentar o bebê no colo ou oferecer cuidados básicos, o adulto faz com que o pequeno se sinta real
 
OBJETOS - Com o afastamento de objetos, a criança compreende que a realidade é compartilhada
 
MANUSEIO - Nos momentos de cuidado, constrói-se o vínculo, importante nos estágios iniciais de desenvolvimento

 

 

A formulação de Winnicott teve grande importância no domínio da Psicologia da Educação e se tornou comum no cotidiano das creches. O eixo de cuidados com os bebês se beneficiou muito de suas contribuições. Na Escola Bakhita, em São Paulo, a equipe de educadores recomenda que os pais levem para os primeiros dias dos pequeninos algo que os faça lembrar do ambiente familiar. Isso facilita a adaptação. "No início, muitas crianças têm uma relação de dependência com os objetos, mas, conforme se acostumam e se interessam pelo ambiente da escola, deixam de recorrer a eles toda hora", afirma a coordenadora pedagógica Cristiane Vieira da Silva.

Esse conceito não é o único cunhado por Winnicott a inspirar ações em instituições de Educação Infantil. Entre as décadas de 1930 e 1970, o pensador atendeu como pediatra milhares de bebês e crianças na presença de pais, avós, irmãos e outros familiares. Apoiado nas observações feitas nesse momento e na prática da psicanálise com adultos, ele desenvolveu a Teoria da Amadurecimento, que permite analisar o desenvolvimento com base na qualidade das relações estabelecidas nos primeiros anos de vida.

A proposta de Winnicott parte do princípio de que todo indivíduo tem uma tendência inata para amadurecer, mas que isso só é possível se a pessoa tiver um "ambiente facilitador" na primeira infância. É nesse período que se formam as bases da personalidade e da saúde psíquica. Para garantir o desenvolvimento saudável, Winnicott conceituou três funções que os adultos - tanto familiares quanto os educadores de creches - devem cumprir (veja ilustrações acima). Elas são importantes por estar diretamente relacionadas ao desenvolvimento emocional primitivo.

Três funções para o desenvolvimento

A primeira é o holding, que consiste em segurar o bebê no colo ou dar suporte para que fique sentado, de acordo com a necessidade. Nessa ação, sustenta-se a criança corporal e psiquicamente durante um estado de dependência absoluta. 

Ao mesmo tempo, ao manusear o corpo da criança (handling) para oferecer cuidados, o adulto não deve fazê-lo de forma mecânica, mas com afeto, conversa e interação. Para Winnicott, ao sentir que está sendo cuidado, o bebê passa a diferenciar as realidades externa e interna, e a estabelecer relações entre as duas.

A experiência como pediatra foi essencial para as formulações teóricas de Winnicott. Foto: Topfoto/AGB Photo Library

 

Já a apresentação de objetos, terceira função, diz respeito ao gesto pelo qual o adulto mostra o que é pedido pela criança. O primeiro deles é o seio ou a mamadeira. A mãe, ao reconhecer a existência de tal necessidade, fornece alimento ao pequeno. A criança, por sua vez, acredita ter criado o objeto e que ele sempre estará lá quando ela precisar, o que Winnicott chama de "ilusão de onipotência". A substituição do seio pela mamadeira - objeto que tem a mesma função do aleitamento - ajuda a "desiludir" o bebê até o desmame. A ideia é que a troca seja gradual, evitando que o bebê entre no estado que o pediatra denomina de deprivação (a não satisfação de uma necessidade primordial, que para Winnicott poderia prejudicar o amadurecimento). Assim, estabelecem-se aos poucos as noções de realidade compartilhada e de realização pessoal. 

Uma das maiores referências dos trabalhos de Winnicott foi o psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856-1939). Apesar de ter estudado a obra de Freud durante sua formação, o pesquisador inglês formulou suas teorias baseado em um ponto de vista bastante diferente. Na percepção da professora Rosa, Freud escreveu textos fundamentais para se pensar a relação entre mãe e bebê, mas construiu seu pensamento atendendo apenas adultos e observando sua própria infância ou a do neto. Winnicott, por sua vez, como pediatra dentro de um hospital, pôde estudar essa relação com maior proximidade. "Para Freud, tudo se passa no intrapsíquico, ou seja, no interior da pessoa. Já Winnicott analisa as relações efetivas entre o bebê, um adolescente ou um adulto e as pessoas ao seu redor", afirma Elsa Oliveira Dias, presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana, em São Paulo. 

Contemporâneo de Jean Piaget (1896-1980) e Lev Vygotsky (1896-1934), Winnicott também se debruçou sobre o ato de brincar, considerado fundamental para o desenvolvimento pelos três pensadores. "Winnicott se aproxima de Vygotsky ao mostrar a perspectiva da brincadeira como algo relacional, com os outros e com o mundo. Quanto a Piaget, o pediatra confere uma dimensão criativa à brincadeira, algo que não era o foco do biólogo suíço", analisa Rosa. Mostrando atualidade, a teoria de Winnicott ainda tem semelhanças com a abordagem de Emmi Pikler (1902-1984), sobretudo na importância dada à qualidade dos cuidados. O conceito de vínculo, tão importante para o inglês, também aparece no trabalho da pediatra austro-húngara, traduzido em recomendações práticas para creches e abrigos.


Ilustrações: 45JJ