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Virando o jogo da obesidade infantil

Uso criativo do espaço reduz espera entre jogos e faz a turma gastar mais calorias

POR:
Pedro Annunciato, Patrick Cassimiro e Fernanda Salla

Ser o gordinho da turma não é mais para uma pequena minoria. Uma em cada três crianças brasileiras de 5 a 9 anos é obesa ou tem sobrepeso, de acordo com a última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Elas também estão a cada dia mais sedentárias. A previsão é que até 2030 o tempo médio de exercícios praticados pelos brasileiros diminua em 34%, segundo relatório do movimento Designed to Move, iniciativa internacional para estimular a atividade física na criançada. Esse quadro é grave, pois está relacionado a doenças crônicas como a hipertensão e a diabetes. É preciso incentivar a mudança de comportamento já na infância. Na Educação Física, o eixo favorável para promover essa conquista é o movimento. "Um dos papéis da escola é oferecer a possibilidade de a criança ser ativa", diz Kelly Samara da Silva, coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Atividade e Saúde da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

 

A primeira recomendação é simples: quanto mais ação, melhor. Porém, nem sempre essa é a regra nas aulas de Educação Física. Nas práticas esportivas, é comum alunos ficarem parados enquanto não chega a vez de jogar.

Márcia Lebkuchen, docente da EMEF Professora Geny Maria Muniz de Almeida Klein Pussinelli, em São Paulo, resolveu o problema organizando as aulas de forma que todos pudessem se mexer o máximo possível .A quadra e outros espaços escolares foram divididos para oferecer quatro esportes simultaneamente - basquete, vôlei, futebol e tênis. A aposta de Márcia foi duplamente interessante. Primeiro, por reduzir o tempo de espera da garotada do 5º ano entre uma partida e outra (30 alunos ao todo).

"Deixar os estudantes sem atividade não é produtivo para melhorar o condicionamento físico deles", afirma a educadora. Segundo, a variedade de propostas permite que o indivíduo escolha fazer o que mais gosta, aumentando a chance do hábito se incorporar no futuro.

"A professora foi feliz ao evitar a visão funcionalista da atividade física apenas para emagrecer. O sentido é ajudar os alunos a desenvolver o gosto pelo movimento como um momento prazeroso da rotina", explica Fábio D'Ângelo, coordenador pedagógico do Instituto Esporte e Educação, em São Paulo.

As regras dos esportes foram adaptadas para adequá-los ao espaço disponível e permitir maior participação de todos. Márcia também passava nos grupos fazendo intervenções para que eles avançassem no conhecimento dos gestos e estratégias de cada modalidade, como o melhor jeito de segurar a raquete para ter força na rebatida. 

Como resultado, a turma ampliou os movimentos e teve mais gasto calórico. "Em uma aula mal aproveitada, uma criança perde cerca de 300 quilocalorias (kcal) em uma hora, o que é pouco. Com exercícios em que o coração acelera mais, o corpo consome energia em maior volume", afirma Getúlio Bernardo Morato Filho, especialista em pediatria e medicina esportiva da Escola Superior de Ciências da Saúde de Brasília (veja nas fotos comparações do gastos calóricos de alunos em aulas bem e mal aproveitadas).

O que engorda e o que emagrece

Em torno do movimento, é possível agregar outros objetivos clássicos da disciplina, como conhecer o próprio corpo e adotar hábitos saudáveis. E quando o assunto é obesidade, falar sobre isso é fundamental. Para que entendam o que impacta o ganho e a perda de peso, vale apresentar aos alunos o conceito de caloria, unidade que mede a energia presente na comida e também no corpo, armazenada em forma de gordura. 

Todos precisam de energia para viver, pois ela é usada tanto no funcionamento dos órgãos quanto para qualquer ação. Se alguém gasta mais energia do que consome, perde peso. Caso contrário, ganha. Márcia mediu o peso e a altura dos alunos com balança e fita métrica. Em seguida, calculou o Índice de Massa Corpórea (IMC) de cada um, parâmetro para saber o nível de obesidade de uma pessoa. Para fazer isso, contou com a ajuda do colega Marcos Evangelista, professor dos anos finais do Ensino Fundamental na mesma área, que também a auxiliou durante os jogos.

 Para encontrar o IMC, basta dividir o peso da pessoa em quilos pela altura em centímetros, elevada ao quadrado (se preferir, use a ferramenta disponível em abeso.org.br/atitude-saudavel/curva-obesidade, específica para quem tem de 5 a 19 anos). De modo geral, quando o resultado é igual ou superior a 25, há sobrepeso. A docente também pediu que os pais preenchessem uma ficha sobre a saúde dos filhos para saber se tinham alguma doença que poderia restringir as atividades. "Pude identificar quem estava acima ou abaixo do peso ideal e adaptar as práticas respeitando as limitações individuais", explica ela.

 

Como a alimentação inadequada também é uma das causas da obesidade, Márcia apresentou a pirâmide alimentar - gráfico que mostra como deve ser uma alimentação diária saudável. Para tornar o aprendizado mais concreto, pediu que os estudantes documentassem tudo o que comeram em três dias. Biscoito recheado, chocolate e refrigerante estavam entre os favoritos. Os registros foram compartilhados em uma conversa coletiva.

Foi a chance de a professora debater o que deveria estar mais e menos presente no cardápio. Ela aconselhou a turma a optar por frutas e iogurte com baixo teor de açúcar no café da manhã. "Alguns relataram que nem faziam essa refeição por não terem fome no horário. Expliquei que comer bem antes da escola garante energia para enfrentar as aulas", diz. 

"As necessidades nutricionais de quem tem entre 7 e 10 anos são diferentes das de um adulto, pois as crianças estão em desenvolvimento. Há grande demanda por carboidratos, como pães e arroz, ferro, presente no feijão, cálcio, proveniente do leite e derivados, e vitaminas A e D, encontradas em hortaliças. Todos essenciais para a formação de ossos, dentes e músculos", afirma Cleliani de Cássia Silva, docente da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Márcia observou que, depois do trabalho, houve um engajamento maior dos alunos nas aulas. Carlos Eduardo Calabraro, 11 anos, não gostava de Educação Física."Como estava acima do peso, tinha vergonha. Conversei com ele e sugeri que fizesse cada atividade até quando aguentasse. Aos poucos, ele foi participando mais", conta ela. Em menos de um ano, o IMC do garoto passou de 28,3 para 27,7. Com isso, assim como os colegas, deu início a um movimento por hábitos mais saudáveis e pela diminuição da obesidade.