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É agora a hora certa de alfabetizar

A estratégia adequada pode fazer com que os alunos em defasagem cheguem ao nível da turma

POR:
Wellington Soares, Anna Rachel Ferreira e Lucas Freire

 

Você assume uma turma no 4º ou 5º ano e, depois de fazer o diagnóstico, surge a surpresa: alguns alunos ainda não leem nem escrevem convencionalmente. A situação é bastante comum. Dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) mostram que mais de um quinto das crianças chega ao final do 3º ano - o último da "idade certa" do ciclo de alfabetização - lendo apenas palavras em que há sílabas simples, ou seja, compostas de uma vogal e uma consoante.

Você tem de fazer com que esses alunos aprendam, mas não pode deixar de lado os demais. Como proceder? A saída, afirmam os especialistas, é investir em estratégias que façam com que os estudantes em defasagem avancem mais rápido (veja nas ilustrações algumas das mais comuns). "O ideal é que se estabeleçam parcerias entre coordenação, professores, família e a própria turma. Todos devem se empenhar", defende Célia Prudêncio, formadora do programa Ler e Escrever do estado de São Paulo.

As tradicionais aulas de reforço ainda são aceitas como uma das possibilidades mais eficientes para esse trabalho. Com mais tempo dedicado às necessidades específicas de cada aluno e com menos crianças em sala, é possível fazer intervenções mais certeiras. A professora Anita Gonçalves Possamai Darabas leciona para o 3º ano na EEB Maria Garcia Pessi, em Araranguá, a 218 quilômetros de Florianópolis. No início de 2015, ela recebeu alguns estudantes que ainda não haviam alcançado o mesmo domínio da língua escrita que o restante da sala. Anita sugeriu que eles participassem das aulas no contraturno, onde seriam atendidos duas vezes por semana pela professora Adriana Machado Fernandes. "Eu sempre oferecia atividades e materiais que fossem mais adequados para o nível de cada um, como o uso de letras móveis para os em alfabetização inicial", conta.

A eficiência do reforço depende da troca de figurinhas constante entre a docente da turma regular e a que atua no período estendido. No decorrer do ano, Anita e Adriana ficaram em contato para avaliar a evolução dos estudantes e ir adequando os desafios propostos para eles em sala. "Quando a Adriana me contou que um dos alunos tinha conseguido ler com ela, passei a pedir que ele lesse baixinho para mim, já que era muito tímido", lembra Anita.

 

Reforço no contraturno 
É importante porque os alunos em defasagem têm a oportunidade de trabalhar suas dificuldades específicas e, assim, aprendem mais rápido. 
Para funcionar, é preciso que os docentes da turma regular e do contraturno atuem em parceria, bolando juntos estratégias para que as crianças que mais precisam avancem.

Outra alternativa é reorganizar a rotina da turma, abrindo espaço para trabalhar em grupos menores formados por alunos de níveis de conhecimento próximos. Enquanto parte da sala realiza atividades de maneira autônoma, o restante recebe atenção mais concentrada do docente. É importante que isso aconteça em ocasiões específicas e que o professor deixe claro que esse não é um momento de castigo, muito pelo contrário. Com o tempo, esse grupo já estará mais próximo dos demais, tornando a divisão desnecessária. 

A presença de um professor auxiliar também pode ser proveitosa para os alunos em defasagem. Mas é preciso tomar muito cuidado: o trabalho desenvolvido por ele não pode estar completamente dissociado daquele feito com o restante da turma. "Cada atividade propicia diferentes situações de aprendizagem que devem ser escolhidas de acordo com a necessidade do estudante", explica Rosanea Mazzini, consultora de Alfabetização no interior de São Paulo. Na EE Maria do Carmo, na capital paulista, o planejamento acontece em conjunto.

 

Atividades diferenciadas
São importantes porque permitem que os alunos em defasagem participem da rotina da sala, de acordo com suas possibilidades, e aproveitem o conhecimento dos colegas.
Para funcionar, é preciso um planejamento cuidadoso e uma boa gestão da sala de aula para garantir que todos os alunos sejam atendidos em suas demandas.

A professora titular Marly Damasceno, a coordenadora pedagógica Elvira Flores Fernandes Araújo e a professora auxiliar Bruna Rodrigues Pereira Peixoto elaboram atividades que permitam que os alunos ainda não alfabéticos na turma de 4º ano avancem. "Eu tinha estudantes com autonomia na leitura e na escrita e os que precisavam de qualquer auxílio costumavam se sentir diminuídos", recorda Marly. 

Quando preparam os planos de aula, as educadoras combinam como funcionará a gestão da sala. Uma delas sempre fica responsável por acompanhar mais de perto os alunos com dificuldade. Assim, os alunos se sentiam mais confiantes e confortáveis para pedir ajuda. Por exemplo: numa atividade de escrita de textos de memória, a professora auxiliar fazia uma revisão mais aprofundada com os estudantes que ainda não eram escritores fluentes, enquanto os demais elaboravam as produções de maneira autônoma. 

Apoio do professor auxiliar 
É importante porque não desvia o foco
do docente titular e garante que toda
a turma avance, com as necessidades
específicas de cada um atendidas.
Para funcionar, é preciso que professor e auxiliar planejem atividades que se relacionem com o trabalho desenvolvido pelo restante da turma.

A melhor atividade para cada aluno

A impossibilidade de realizar as mesmas tarefas que os colegas não deve privar os alunos em defasagem da rotina em sala. O docente deve encontrar meios de incluí-los nas atividades e fazê-los avançar nos conhecimentos. "Se a criança não consegue escrever de maneira autônoma, ela pode estruturar o texto e ditar para o professor ou para um amigo mais experiente", diz Rosa Monsanto Glória, orientadora pedagógica da rede de São Bernardo do Campo, em São Paulo. 

Outra possibilidade é agrupar os alunos com níveis de conhecimento próximos e apresentar propostas diferentes para cada conjunto de estudantes. Se o professor pede a leitura de texto informativo, o docente pode entregar textos mais longos sobre dois animais para as crianças que possuem maior fluência na leitura e pedir que elas listem as principais diferenças entre os bichos. Já os alunos ainda não autônomos podem receber um texto organizado em tópicos para que encontrem informações explícitas. 

É esse o tipo de trabalho desenvolvido pelo professor José Rondinely com a turma de 4º ano da Escola Riso da Criança, em Pedra Branca, a 263 quilômetros de Fortaleza. Em suas aulas, leituras e produções textuais são realizadas por todos, mas o desafio é dosado de acordo com o nível de cada um. "Se o aluno não consegue ler o livro sozinho, eu leio com ele fazendo intervenções", explica. 

Receber estudantes ainda não alfabetizados não é uma tarefa fácil. Fazer com que eles avancem exige tempo e dedicação. Isso é indispensável. Além disso, quanto mais agentes se propuserem a colaborar, mais rápido será o desenvolvimento da criança. "Estar disposto a ensinar e acreditar nos alunos é o primeiro passo para que essa empreitada funcione", conclui Rosanea.


Ilustrações: Priwi