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Zika: ciência diante dos nossos olhos

A pesquisa da relação entre o vírus e a microcefalia é uma lição sobre como ocorre uma descoberta científca

POR:
Pedro Annunciato, Alice Vasconcellos e Fernanda Salla

Não é mais preciso ser azarado para ouvir falar em zika. O vírus, que ganhou proporção de ameaça global, tem o Brasil como epicentro  e chega a ameaçar a realização dos Jogos Olímpicos Rio 2016 - em fevereiro, cientistas da Universidade de Nova York escreveram um artigo para a revista americana Forbes pedindo o cancelamento do evento em função do problema. Se as atenções da sociedade se voltam ao combate à epidemia (veja como a escola pode agir nesta reportagem), há outro caminho interessante para se percorrer em aula. Enquanto pesquisadores correm contra o tempo para responder às inúmeras dúvidas que ainda cercam o assunto - "O vírus é transmitido pela saliva?", "Ele sofreu mutação em nosso país?" e, a mais temida, "Ele causa microcefalia?" -, a ciência acontece diante dos olhos de todos. A garotada pode aprender muito com isso.

A proposta é convidar os alunos a traçar os passos de uma descoberta científica, entendendo todo o processo que resulta nos achados (veja infográfico no final da página). "É uma rara oportunidade de associar o ensino da área ao desenrolar de pesquisas verdadeiras. A turma pode questionar as recentes descobertas e até levantar outras hipóteses para o fenômeno", diz Antonio Carlos Pavão, professor do Departamento de Química Fundamental da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e diretor do Espaço Ciência, em Olinda, região metropolitana do Recife.

Aprender em meio às incertezas

Explorar a relação entre o vírus e a má-formação cerebral é um conteúdo apropriado para os anos finais do Ensino Fundamental. Para isso, não dá para simplificar o tema - ele é complexo e ainda não está totalmente desvendado. A sugestão é adotar com a turma uma postura essencial dentro do método científico, que é se debruçar sobre os indícios que surgem sem tomar como verdade algo que ainda é passível de questionamento. "Como os cientistas, o professor deve investigar as diversas hipóteses junto com os estudantes, orientando-os a desenvolver uma metodologia organizada", afirma Antonio Carlos.

Para isso, vale explorar a diferença entre fatores associados ao problema e aqueles que verdadeiramente podem causá-lo. Vamos tomar como exemplo o câncer de pulmão: havia uma associação entre o aumento da ingestão de café e o desenvolvimento da doença. No entanto, constatou-se que o responsável pelo problema era, na verdade, o cigarro - que também induz os fumantes a consumir mais café, daí sua alta presença entre os doentes. A pergunta que precisa guiar essa trajetória investigativa deve ser: o que é preciso para comprovar uma hipótese tão avassaladora quanto a relação entre o zika e a microcefalia?

No caso dessa má-formação, os cientistas sabem que se trata de uma anomalia cerebral caracterizada pela diminuição da cabeça do bebê. O problema pode gerar comprometimentos cognitivos e motores em diversos graus de intensidade e até levar à morte. "Entre as causas, estão defeitos genéticos, contaminação por produtos químicos e processos infecciosos, como toxoplasmose, citomegalovirose e rubéola", diz Marta Heloisa Lopes, docente do Departamento de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). A inclusão do zika vírus como um novo agente é o que está em estudo.

O caminho para se chegar a uma conclusão factível passa pelo cruzamento das constatações biológicas (a exemplo da presença do vírus no líquido amniótico de grávidas de bebês com microcefalia) e estatísticas (como o fato de as regiões mais afetadas pela epidemia terem tido surtos de dengue, zika e chikungunya antes do nascimento dos bebês). São evidências importantes, mas não suficientes. Elas devem vir acompanhadas de estudos que identifiquem o mecanismo por meio do qual o vírus causaria a má-formação ao entrar em contato com o tecido nervoso dos fetos.

Apesar de os indícios estarem progredindo na direção de confirmar a relação entre o zika e a microcefalia, os mais variados boatos ainda surgem. Entre eles estão a atribuição da anomalia a um lote vencido de vacina e ao uso de determinado larvicida para combater o Aedes aegypti (veja no quadro abaixo). A propagação de informações não confirmadas pode causar pânico e levar a consequências graves, como pessoas pararem de se vacinar com medo de contrair doenças. Portanto, discutir esses aspectos, problematizando o que é uma fonte confiável e como é possível confirmar uma informação, é essencial.

Causas desmentidas

Vacinas de rubéola tríplice bacteriana acelular

Ministério da Saúde descartou as vacinas como causa da microcefalia.

Inseticida Pyriproxyfen
A hipótese do larvicida usado na água para combater o Aedes ser o causador da má-formação cerebral ficou enfraquecida. O produto não é usado em Pernambuco, estado com maior número de casos. 

 

Hipóteses ainda investigadas

Infecções consecutivas pelos vírus zika e da dengue 

A hipótese de que a microcefalia teria essa causa foi levantada por estudo da rede Zika.

Infação de casos de microcefalia pela obrigatoriedade da notifcação

O aumento efetivo ainda precisa ser confrmado (alguns bebês com
crânio pequeno são apenas prematuros). Mas especialistas não descartam aumento de quadros graves no país.

Outra questão a se considerar é que, sendo verdadeira essa causalidade, muito ainda tem de ser investigado. Como a epidemia de zika está se espalhando mais rápido que a dengue e a chikungunya, transmitidas pelo mesmo mosquito, as hipóteses por trás desse fenômeno são várias. "Pode ser que o vírus seja transmitido por outras espécies de mosquitos além do Aedes aegypti e que ele esteja no Brasil há mais tempo do que se imagina, já que é parecido com o da dengue", diz Margareth Capurro, docente do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e membro da Rede Zika, formada por pesquisadores da doença.

É possível, ainda, analisar as condições socioeconômicas das regiões e das parcelas mais afetadas da sociedade. Em nota, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) chama a atenção para a vulnerabilidade da camada mais pobre da população: a maior concentração dos casos de microcefalia inicialmente notificados em Pernambuco ocorreu em São Lourenço da Mata, cidade de precárias condições sanitárias. "Hoje sabe-se que muitas doenças proliferam onde há poluição e falta saneamento básico. Pode ser o caso do zika", pondera Antonio Carlos.

Como na história e na geografia, as descobertas da ciência não são verdades estanques, mas reavaliadas a cada nova evidência. Ao acompanhar esse processo, os alunos podem se espelhar nele para também produzir conhecimento.

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Ilustração: Francisco Martins