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Professor, para que precisam de você?

Reflexões de Lino de Macedo

POR:
NOVA ESCOLA
Lino de Macedo,

Lino de Macedo,
Professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

Um dos paradoxos atuais é que quanto mais se tem consciência da necessidade da escola na formação de crianças e jovens, menos se considera a importância específica do professor. Mais que isso, não se valoriza o papel irredutível que ele exerce no contexto do que é primordial: a aprendizagem dos alunos e a diferença que ela fará no futuro. Hoje, facilmente substituímos esse profissional por livros, palestras gravadas, computadores, tablets, isto é, por produtos ou tecnologias para serem lidos, ouvidos ou manipulados. Por favor: observe que eu escrevi substituímos, ou seja, colocamos no lugar, trocamos como se uma coisa fosse o mesmo que a outra. Mas não parece legítima essa troca e me inquieto procurando o que torna um mestre singular. 

Afinal, para que crianças e jovens querem você, professor? Para tomá-lo como referência para seu próprio comportamento. Eles o observam e imitam, são marcados pelo que você faz. Nesse sentido, todo professor tem valor social e emocional para seus alunos. Social porque é por meio desse adulto que eles conhecem regras e limites, aprendem a conviver em ambientes de estudo, desenvolvem autocontrole e autonomia. Emocional são impactados por suas atitudes e por seu jeito de lidar com conflitos. Na escola, os jovens aprendem a interagir com colegas e a canalizar sentimentos como a raiva e o ciúme, lidam com a necessidade de reconhecimento e com sua impulsividade. 

Mas por que crianças e jovens precisam do professor nos dias atuais, mais do que nunca? Porque ao ensinar, ele abre a oportunidade para que assimilem o modo como age ou pensa nas diferentes situações. E isso tem valor de capital cognitivo. Sua formação, nível de estudo, personalidade, lógica de raciocínio, como argumenta, faz perguntas, propõe tarefas e ensina procedimentos são exemplos concretos de maneiras de pensar, enfrentar e resolver problemas, de aprender. Nesse sentido, o professor é um pesquisador e sua aula um laboratório em que os alunos produzem conhecimentos por meio da observação e da experiência. Ali, eles aprendem a fazer perguntas que valem a pena, a buscar informações para respondê- las, a respeitar divergências e considerar níveis diferentes de domínio sobre um assunto. Esses saberes e posturas não merecem ser substituídos por livros, internet e outras ferramentas pedagógicas, mesmo que sejam complementos importantes. Observe que professor digital ou cursos a distância só existem para adultos, que já vivenciaram a Educação Básica. É para adquirir esse capital cognitivo que crianças e jovens querem um mestre de carne e osso e precisam dele. 

Se, por causa dos novos recursos, o papel de detentor do conhecimento do professor de fato diminuiu, ao mesmo tempo sua função como indivíduo de referência se ampliou. Penso que uma das razões pelas quais parece fácil substituí-lo é que muitos enxergam seu trabalho como uma transmissão de conteúdos, ou seja, julgam que dar aulas é apenas explicar conceitos, contar histórias, apresentar teorias e modelos... Como se a própria exposição, ainda que exaustiva, fosse suficiente para que os alunos aprendessem! É absurda e reducionista essa imagem. O que o professor ensina pelo exemplo humano nenhum livro, vídeo ou tablet poderá substituir.


Foto: Ramón Vasconcellos