Fracasso escolar e conflitos: quem se responsabiliza?

Telma Vinha comenta os desafios da Educação moral

POR:
NOVA ESCOLA
Telma Vinha,

Telma Vinha,
Professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Pesquisas indicam que muitos educadores atribuem aos pais as causas dos problemas de aprendizado e comportamento dos alunos. Alegam que isso é decorrente de famílias desestruturadas, que não têm tempo para os filhos, não transmitem valores ou não põem limites. Mais da metade dos gestores escolares responsabiliza a família por não cumprir o papel de educar, segundo estudo de Maria Isabel Leme, docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Para 40% deles, conflitos envolvendo estudantes são causados pelo desinteresse deles próprios ou por seus traços de personalidade. Apenas 14% admitem que a escola pode influenciar nisso de algum modo, como ao estimular a competição ou destinar pouco espaço à recreação. 

O fracasso escolar também é atribuído a fatores externos à instituição de ensino. Em outros levantamentos, poucos entrevistados incluem em suasrespostas questões pedagógicas ou sobre a qualidade das relações interpessoais como aspectos a ser considerados. Assim, a escola se isenta de uma 

revisão interna, já que a questão é deslocada para fora de seu domínio. Quando se depara com desavenças ou desobediência, tende a terceirizar a solução para os familiares. 

O envio de bilhetes ou notificações eletrônicas acaba sendo um recurso bastante usado para isso, principalmente em relação aos conflitos. Foi o que comprovou investigação realizada em escolas públicas e privadas por Sandra Dedeschi, mestre em Educação pela Unicamp. Ao contrário do que se acredita, 100% dos pais notificados tomaram uma atitude diante da reclamação. Porém, 70% usam de castigos, um terço deles com punição física. Poucos acharam que as intervenções adiantaram, não sabendo mais como agir. Sem formação adequada, eles tentam ajudar como acreditam ser certo, mas por vezes até pioram a situação. 

A escola deve educar integralmente, pois é uma instituição organizada e com profissionais preparados para isso. Nesse sentido, os conflitos são oportunidades para detectar aspectos que precisam ser aprendidos pelos alunos. Por não estar presentes em situações como essa e não acompanhar seu desenrolar, as famílias não conseguem contribuir para resolvê-las de forma justa e eficaz. 

Muitos comportamentos inadequados de estudantes têm relação com aspectos pelos quais os pais pouco podem fazer, como ineficiência da prática pedagógica (cobrança excessiva da postura sentada e do silêncio, metodologias que subestimam o aluno etc.), baixo incentivo à autonomia e às interações da garotada, ausência de momentos para a participação (na elaboração de regras e gestão da sala) e falta de espaços institucionais para resolver conflitos (assembleias e círculos restaurativos). 

Em vez de solicitar aos pais que tomem providências, é mais construtivo que a escola avalie seus processos, identifique as causas de problemas e atue para que os conflitos sejam oportunidades de aprendizado para alunos e educadores. Se para saber viver em grupo e desenvolver a autorregulação é necessário ter experiências de vida em comum, a escola é um local propício para se trabalhar questões de igualdade, respeito à dignidade humana, justiça, responsabilidade, diálogo e participação democrática. Independentemente das famílias, o desafio do professor é dar conta do que ocorre no espaço de sua responsabilidade, tanto no que se refere à construção de saberes quanto à moralidade e solução de conflitos.


Foto: Ramón Vasconcellos