Por um “planejamento” de verdade, sem aspas

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
Professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Enquanto me organizava para iniciar o semestre, lembrei de uma situação que presenciei um tempo atrás: durante uma reunião, dois colegas colavam cópias do índice de um livro didático em papéis timbrados da escola. Quando perguntei o que estavam fazendo, eles me explicaram que aquele era o planejamento que entregariam à coordenação pedagógica. É mais fácil assim, já que todo ano eu ensino os mesmos assuntos: os que estão no livro, justificou um dos docentes. 

Fiquei chocado com o fato de eles abrirem mão tão tranquilamente da autoria de seus cursos e deixar que esse papel coubesse apenas aos autores do material de referência, que elegeram os tópicos que meus colegas abordariam. Além disso, aquele planejamento não considerava os ajustes que precisavam ser feitos para cada turma e ignorava temas ausentes da obra, mas relevantes para o contexto local. 

Os professores também deixaram de fora atividades que já estavam previstas no projeto pedagógico da escola. Nenhum dos dois incluiu o estudo do meio realizado anualmente, mesmo sabendo que a organização demandava antecedência para que a saída fosse bem aproveitada. Essas e outras omissões mostravam que o documento elaborado por eles estava muito distante do que de fato iria acontecer em sala durante aquele ano. 

Conforme conheci melhor a escola, descobri outra faceta da história. A coordenação, afogada em suas tarefas, arquivou as fichas sem ler. No fim das contas, aquele planejamento era apenas uma exigência burocrática. Professores e gestores estavam gastando o precioso tempo de trabalho coletivo preparando documentos que não os ajudariam em nada. Acredito que situações parecidas ocorram em muitas escolas do país. 

Um planejamento de verdade é um instrumento que nos guia e facilita nosso trabalho. Não basta formular uma lista de assuntos que se pretende abordar durante o ano. O bom planejamento contém os objetivos centrais e específicos de cada tópico que o professor discutirá. Ele também explicita algumas das estratégias para atingi-los. Desse modo, conseguimos manter o foco no que é mais relevante, traçar o melhor caminho durante a preparação das aulas e selecionar os meios de avaliação mais adequados para cada sequência didática. Tomando o documento como base e o consultando constantemente, conseguimos observar se os alunos estão alcançando os objetivos delimitados e avaliamos nosso próprio trabalho. 

Posto no papel, o planejamento também pode ser um valioso instrumento de reflexão para a equipe de educadores. Ao compartilhar os planos de ensino com colegas e gegestores, você pode receber sugestões, observar como suas aulas se relacionam com outras disciplinas e com projetos da escola como um todo. Vale lembrar que a coordenação tem o dever de fornecer devolutivas sobre esse documento. 

Por fim, o que é esboçado antes do início das aulas não é um documento definitivo, mas aberto para alterações. Só assim ele adquire sentido, vai além da burocracia e torna-se um instrumento que está a nosso serviço.


Foto: Ramón Vasconcellos

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