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Por: Rodrigo Ratier, Paula Peres e Alice Vasconcellos

De olho nas transformações

Analisamos como as mudanças na preparação para o magistério impactam sua vida profissional

Não chega a ser uma revolução, mas é uma mudança importante e com prazo certo para acontecer. Até junho do ano que vem, cursos de Pedagogia e licenciaturas devem estar prontos para atender as novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para a Formação Inicial e Continuada dos Profissionais do Magistério da Educação Básica. Homologadas pelo Ministério da Educação (MEC) em 2015, as DCN têm gerado discussões nas universidades, que correm para adaptar os currículos, e entre os educadores, ainda com dúvidas diante das transformações.

É o seu caso? Você já sabe qual o impacto das inovações na sua vida profissional? Nossa reportagem procura trazer respostas para construir sua trajetória de estudo. Ao longo das próximas páginas, você confere a lista de mudanças nas graduações e nas atividades em serviço com um mapa completo: tudo o que a nova resolução determina, uma avaliação sobre seu impacto, os prós e contras das opções de formação continuada e os caminhos acadêmicos escolhidos por três educadores nota 10 (inspire-se com eles no final da reportagem).

Apesar de críticas pontuais, as novas Diretrizes têm sido saudadas como um avanço pelos especialistas ouvidos por NOVA ESCOLA. É um consenso difícil de se obter numa área de opiniões tão fortes quanto díspares. Coube a Luiz Fernandes Dourado, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e relator das DCN no Conselho Nacional de Educação (CNE) o papel de amarrar, num único documento, as aspirações de governo, universidades e docentes. "Foi um trabalho bem-feito. Os conselheiros se preocuparam em informar sobre suas ações, participar de discussões em vários fóruns, ouvir e incorporar sugestões", afirma Bernardete Gatti, vice-presidente da Fundação Carlos Chagas (FCC) e uma das maiores autoridades em formação de professores no Brasil.

A face mais visível é a ampliação da carga horária. As licenciaturas de disciplinas e da Pedagogia com foco restrito passam de 2.800 para 3.200 horas, com duração mínima de quatro anos (veja os blocos temáticos logo abaixo). Mas há novidades também na formação continuada e para quem busca um segundo diploma (veja o quadro "Prós e contras").

Para enfrentar os problemas das graduações - cursos ligeiros, distantes da sala de aula e sem qualidade, com raras exceções -, a nova resolução aposta no conceito de "organicidade". A palavra, repetida 25 vezes nas 61 páginas do documento, faz referência a uma formação mais integrada. No caso do magistério, isso significa tentar unir pares geralmente dissociados: teoria e prática, conteúdo e metodologia, universidade e escola, ensino ideal e desempenho real.

O foco do documento são esses princípios de ensino e a definição dos núcleos de conteúdo.

O que muda para quem é estudante

A parte prática ganha reforço e o estágio acontece ao longo do curso

 

ATIVIDADES FORMATIVAS 

CARGA HORÁRIA: 2.200 HORAS

O bloco mais robusto abrange as disciplinas tradicionais, como o estudo das didáticas, conhecimentos sobre jovens e adolescentes, legislação, teorias e ciências aplicadas à Educação. Nas licenciaturas de disciplinas, o eixo ganha 400 horas em relação a hoje.

 

DISCIPLINAS PRÁTICAS 

CARGA HORÁRIA: 400 HORAS

Não se confunde com o estágio nem com as aulas práticas das licenciaturas - a parte laboratorial de Química, Física e Biologia, por exemplo. São atividades ligadas ao desenvolvimento da docência, que podem ser disciplinas inteiras ou frações delas. Um exemplo: uma parte do curso de Sociologia da Infância pode ocorrer na forma de observação de atividades na creche.

 

ESTÁGIO
CARGA HORÁRIA: 400 HORAS

Para as licenciaturas de disciplinas, o tempo se mantém. Pedagogia ganha mais 100 horas. Segundo o CNE, o estágio agora deverá obrigatoriamente ser oferecido ao longo do curso - e não concentrado em um semestre, como ainda ocorre em muitas faculdades.

 

ATIVIDADES DE APROFUNDAMENTO
CARGA HORÁRIA: 200 HORAS

São os cursos complementares. Contam créditos projetos de extensão e iniciação científica, monitoria e presença em seminários e congressos. A Pedagogia recebe mais 100 horas. Nas licenciaturas de disciplinas, não há acréscimo de tempo.

 

Ainda que as DCN não proponham alterações curriculares, elas incentivam mudanças na grade. "O MEC já devolveu 70 pedidos de cursos novos, que deverão ser reapresentados com adequações às normas", informa Dourado. Nas graduações em funcionamento, as transformações começaram, mas o ritmo varia em cada instituição. No Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), os debates iniciais visam reforçar o cardápio de disciplinas práticas nas licenciaturas. Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a discussão está em etapa intermediária e chegou às secretarias de Educação. "A intenção é estruturar um estágio em que a escola abra portas para os graduandos, mas receba formação em serviço como contrapartida", afirma João Valdir Alves de Souza, vice-diretor da Faculdade de Educação. Já no Instituto Superior de Educação Vera Cruz (Isevec), na capital paulista, a reestruturação está valendo. O curso de Pedagogia agora é dividido em módulos temáticos semestrais e não mais em disciplinas. "O eixo do primeiro semestre é infância. O aluno estuda questões como produção das culturas infantis, contextos de desenvolvimento e de aprendizagem das crianças ao longo da história e nos dias de hoje. A nova estrutura ajuda a desenvolver uma visão mais global de cada um dos temas propostos", argumenta Regina Scarpa, diretora pedagógica do Isevec.

É verdade que a reforma não é nenhuma solução mágica. Pontos cruciais da formação, como a atratividade de carreira, não são tocados pelas DCN. "É preciso que estados e municípios cumpram os dispositivos do Plano Nacional de Educação, que define substantiva melhoria nas condições de trabalho, de carreira e de salário. Que haja concursos, efetivação e progressiva permanência na profissão e em uma mesma escola", afirma Selma Garrido Pimenta, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Também é certo que o sucesso depende do envolvimento efetivo dos formadores e da fiscalização consistente do cumprimento da nova proposta (nesse aspecto, o MEC tem falhado). Mas há motivos para ser otimista, como a tendência do aumento da presença de didáticas específicas, de estágios mais efetivos e de uma melhor articulação entre teoria e prática (veja respostas para oito polêmicas mais abaixo). Ainda não é motivo para soltar rojões, mas dá para alimentar a esperança de uma formação melhor.

O que muda para quem está na ativa

Formação para graduados não licenciados

Destinada a quem fez faculdade mas não cursou licenciatura. A carga varia de 1.000 horas para candidatos da mesma área do curso de origem (um engenheiro químico que quer se licenciar em Química) a 1.400 horas para áreas diferentes (um jornalista que deseja lecionar Matemática). A opção substitui os antigos programas especiais de formação pedagógica, que tinham apenas 540 horas.

Segunda licenciatura

Amplia a atuação no magistério para profissionais já licenciados que buscam uma habilitação adicional. Novamente o tempo varia de acordo com o curso de origem. Se for a mesma área (licenciado em Matemática que queira ensinar Física), são 800 horas. Se for outra (licenciado em Arte que pretende dar aulas de Ciências), são 1.200 horas. A resolução mantém a carga horária dos programas hoje existentes.

Prós e contras na formação continuada

Avaliamos nove modalidades de curso para você escolher

 

PALESTRAS E SEMINÁRIOS

+ Podem apresentar novos pontos de vista e inovações inspiradoras, sobretudo se o tema for próximo da sua área e o palestrante uma autoridade reconhecida.

- Não trazem detalhes teóricos ou práticos: são apresentações superficiais de assuntos.


PARFOR PRESENCIAL

+ O programa de educação superior para professores sem diploma ou que atuam em área distinta da sua formação (veja aqui) é gratuito e oferecido por universidades públicas.

- Deslocamento até a cidade do curso. Até 2014, o Parfor esteve em só 8% dos municípios.


UAB

+ Versão a distância do Parfor, a Universidade Aberta do Brasil oferece também especialização e atende professores de todos os lugares via internet.

- A Educação a distância exige disciplina de estudo e não tem a interação dos cursos presenciais. A qualidade dos tutores também pode deixar a desejar.


PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU

+ Reúne cursos que aprofundam a formação inicial. As modalidades são atualização (de 20 a 80 horas), aperfeiçoamento (180 horas) e especialização (360 horas).

- A maioria das ofertas é paga. A qualidade dos cursos varia, pois não há fiscalização. Vale checar o currículo dos formadores e da instituição.


PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU

+ São o mestrado e o doutorado, que habilitam ao ensino e à pesquisa universitária. Nas redes, relacionam-se a melhorias salariais.

- Exigem anos de dedicação e podem ter perfil pouco prático.


MENTORIA

+ Contar com a orientação de um professor experiente ou coordenador ajuda a refletir sobre a prática e focar em desafios reais.

- Exige maturidade para, de um lado, aceitar críticas e, de outro, saber o momento de se distanciar da visão de mundo do mentor.


AUTODIDATISMO

+ Estudar por conta própria está ao alcance de todos. Planejamento, temas de interesse e horários são moldados como você quiser.

- Não há ninguém para tirar dúvidas. Exige disciplina para cumprir a rotina.


CURSOS LIVRES

+ Têm temas mais amplos que a Educação e aceitam quem não tem diploma.

- Não possuem o peso de um certificado de pós-graduação. A qualidade varia de acordo com o professor e a instituição.


MESTRADO PROFISSIONAL

+ A opção costuma durar menos que o mestrado tradicional, é voltada para o mercado e tem qualidad fiscalizada pelo governo.

- Não dá acesso ao doutorado e apresenta poucas opções gratuitas (veja aqui).

A formação de professores vai melhorar?

Especialistas discutem quais problemas terão solução - e quais não

 

OS CURSOS TERÃO MAIS QUALIDADE.

"Embora as DCN proponham uma qualificação melhor, só as práticas efetivas podem garantir a qualidade. É preciso esperar", opina Bernardete, da FCC. Para Selma, da USP, a qualidade dos cursos de parte das instituições particulares, que respondem por 68% dos concluintes de licenciatura, é o maior problema. "Elas cumprirão apenas os aspectos formais dessa peça legal", acredita. A fiscalização terá um papel importante. Dourado, relator das DCN, afirma que a avaliação dos cursos deverá ocorrer durante o recredenciamento periódico. Há críticas. "Muitas vezes, o recredenciamento é realizado sem visita à instituição ou avaliação de currículo. Devemos aperfeiçoar o processo", diz Bernardete.

 

A PEDAGOGIA PASSA A TER UMA IDENTIDADE MAIS CLARA.

A questão diz respeito ao acirrado debate sobre a função da graduação: formar professores
da Educação Básica ou um profissional multitarefa, que lecione, possa ser gestor escolar e pesquisador? Como as diretrizes de Pedagogia não foram alteradas (segundo Dourado, por enquanto não há planos para modificá-las), vale hoje a segunda opção. "As DCN do curso falam em 16 funções para o pedagogo. É um excesso?, afirma Bernardete. "A ênfase no conhecimento teórico a serviço da prática pode mudar a identidade do curso. A aproximação com o ensino vai depender do projeto de cada universidade", diz Regina.

 

O ESTÁGIO SERÁ PARA VALER.

As DCN avançam ao recomendar atividades além do preenchimento de relatórios. "Lecionar e acompanhar reuniões pedagógicas é fundamental", exemplifica Dourado. A atenção se volta para a necessidade de supervisão efetiva. "O estágio não pode ser uma atividade só do aluno. Na escola, é preciso que um educador o acompanhe. E os docentes universitários precisam de mais tempo para atender a todos", diz Micaías Andrade Rodrigues, professor de estágio supervisionado em Física na Universidade Federal do Piauí (UFPI).

 

HAVERÁ MAIS ESPAÇO PARA AS DIDÁTICAS ESPECÍFICAS.

"Vários artigos das DCN indicam a necessidade de trabalhar as metodologias e as práticas de ensino", diz Bernardete. É uma sinalização forte para reformar os currículos afastados da realidade docente - na Pedagogia, apenas 28% das disciplinas focam a formação profissional específica, de acordo com pesquisa de 2008 da FCC. "Como essa guinada se dará na prática vai depender da interpretação de cada instituição formadora", ressalva Regina, do Isevec.

 

HAVERÁ MAIS ARTICULAÇÃO ENTRE TEORIA E PRÁTICA.

Dourado argumenta que esse é o princípio central do documento. "Precisamos evitar tanto o ensino teórico descolado da prática quanto o direcionado apenas ao ?como fazer", opina. Já Bernardete avalia que a articulação pede atenção ao bloco de disciplinas práticas. "O CNE poderia indicar possibilidades sobre o que constitui esse eixo. Corre-se o risco de as instituições simplesmente atribuírem algumas horas de prática a cada disciplina", afirma.

 

A FORMAÇÃO EM SERVIÇO SERÁ MAIS EFETIVA.

As DCN concebem a formação continuada como reflexão sobre a prática pedagógica - e não como tapa-buracos da graduação, como ocorre hoje. Mas não vão além disso. "A qualificação em serviço depende do respeito ao horário coletivo para planejamento e avaliação", opina Regina. Bernardete concorda, mas adiciona que a formação não precisa se restringir à escola. "O professor se beneficia de cursos externos que ampliem sua visão sobre o ensino e permitem que ele atue melhor em sala", diz.

 

A FORMAÇÃO DE PROFESSORES SE TORNOU MAIS ATRATIVA.

"Atratividade significa melhores salários e prestígio social", resume Regina. As DCN podem ajudar a tornar as graduações mais interessantes, mas isso é pouco para que ela seja a primeira opção de profissão dos estudantes de Ensino Médio. "O poder público tem de investir nas condições de trabalho e nas perspectivas de progresso na carreira sem que o professor precise sair da sala de aula, virando gestor ou formador", completa Bernardete.

 

A ESCASSEZ DE PROFESSORES TENDE A DIMINUIR.

Os programas de segunda licenciatura e de formação pedagógica para graduados são uma opção "emergencial, mas necessária", na visão de Dourado. Porém há dúvidas de que faltem professores. Um estudo de José Marcelino de Rezende Pinto, professor da USP de Ribeirão Preto, defende que há formados para assumir as vagas existentes, exceto em Física. A escassez seria causada pelo desinteresse em dar aulas, aspecto que foge do escopo das DCN.


Caminhos inspiradores

Educadores nota 10 contam como conjugaram formação iniciada e continuada em trajetórias vencedoras

VÂNIA EMÍLIA DOURADO
Professora do Ensino Fundamental 1 na rede municipal de Iraquara, na Bahia 
Educadora Nota 10 em 2015

"Comecei a lecionar na década de 1990 antes mesmo de concluir o magistério em nível Médio. Em 2000, fz um curso do Projeto Chapada e aprendi a diagnosticar o nível de escrita em que meus alunos se encontravam, coisa que não sabia até então. A formação continuada foi fundamental para aprimorar minha prática em aula. Como ainda sentia falta de aprofundamentos teóricos sobre a Alfabetização, me matriculei em Pedagogia. Consegui aproximar teoria e prática. Agora, estou cursando pós em Alfabetização para não deixar ninguém de lado."

ROSIANE RIBEIRO JUSTINO

Professora do Ensino Fundamental 1 na rede municipal de Joinville, em Santa Catarina Educadora Nota 10 em 2013

"No início da carreira, eu preparava aulas com base em atividades prontas e cópias de livros. Depois de cinco anos, não via mais sentido naquilo. Fui para uma escola em que a coordenadora criou grupos de estudos e percebi que poderia mudar o que fazia. Também comecei a estudar por conta própria com uma colega. Líamos muitos livros, participamos de seminários e fizemos cursos rápidos de dois ou três dias. Foi um período rico, em que trocávamos muitas impressões e materiais de aula. Três anos depois, ela foi fazer mestrado acadêmico e eu uma especialização em Pedagogia da Infância."

MARCOS VILAS BOAS
Professor de Educação Física na rede municipal de São Paulo
Educador Nota 10 em 2015

"Depois de formado, fui para academias e me matriculei ao mesmo tempo na especialização em Educação Física Escolar e em Pedagogia. A pós fez toda a diferença. Entendi que o professor de Educação Física precisa ter um currículo com conteúdos e métodos de avaliação baseados no tipo de aluno que se deseja formar. A Pedagogia me deu mais conhecimento sobre temas gerais de Educação ? que passaram batidos na minha licenciatura. As formações na rede tiveram importância menor, mas contribuíram para moldar a atitude de ação-refexão ação de que fala Paulo Freire."

 

 

Percurso dos Educadores Nota 10. Fotos: Silvia Zamboni, Sthel Braga e Marcelo Almeida

Fotos: Ricardo Toscani | Modelo: Brina Oliveira | Binóculo: maserafi.com | Lupa: Acervo Juliana Matteucci | Produção: Viviane Andrade | Ícones: Noun Project