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Por: NOVA ESCOLA

O papel da escola e da família na formação das crianças

Telma Vinha comenta os desafios da Educação moral

TELMA VINHA,

TELMA VINHA,
Professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Em nossa sociedade, escola e família são as duas principais instituições responsáveis pela formação do ser humano. A Educação informal (não sistematizada ou não intencional), também chamada de socialização primária, é proporcionada pela família e começa quando nós nascemos, no âmbito privado. Nela, a criança aprende a diferenciar o certo do errado, de acordo com o núcleo em que está inserida. Já a formal ou secundária é oferecida na escola, na esfera pública.

Porém, algumas características fazem com que as duas possuam funções e objetivos distintos. Em casa, as relações são assimétricas, ou seja, os pais têm mais autoridade e poder do que os filhos. Além disso, mesmo que o filho brigue ou desobedeça, a mãe e o pai nunca deixarão de ser mãe e pai, e a criança o filho. Isso quer dizer que os papéis se conservam. O mesmo não acontece na instituição de ensino, em que a manutenção das relações depende muito das atitudes. O espaço não é mais de intimidade, é público. Ocorrem mais provocações e brigas entre irmãos do que entre amigos, por exemplo, porque esse primeiro tipo de relação é estável. 

Na escola, como aluno, se faz a passagem da vida privada para a coletiva. Meninos e meninas deixam de ocupar um lugar privilegiado no seio familiar e tornam-se mais um entre os demais. É dado início a uma nova aprendizagem, em que eles experimentam a igualdade como quando percebem que as regras valem para todos e aprendem a lidar com a diversidade presente  por exemplo, ao conviver com pessoas que possuem outras religiões. No âmbito escolar, a socialização é diferente da familiar, consistindo no ensino de conhecimentos e no desenvolvimento de valores sociais ou coletivos. A criança tem a oportunidade de aprender a viver em uma sociedade democrática.

Isso envolve reconhecer os sentimentos do outro, coordenar pontos de vista distintos, lidar com os conflitos de forma não violenta, estabelecer relações e perceber a necessidade de regras para se viver bem. Dessa forma, valores presentes em algumas famílias, como o preconceito, devem ser debatidos e transformados em algo que seja socialmente desejável, como o respeito às diferenças. Não se pode pensar na estruturação escolar apartada da familiar, contudo, é preciso modificar a crença na impotência da escola perante a família. Como sintetiza o filósofo espanhol Fernando Fernández-Savater Martín, da Universidade do País Basco: "Eu não desprezo a Educação paterna e materna, mas tampouco vamos pensar que todos os pais têm ideias que devem ser perpetuadas. Se os pais ensinam coisas boas é ótimo, senão, a sociedade tem que ensinar, porque os valores que devem ser transmitidos não são apenas valores familiares, são valores sociais". 

Diversos estudos indicam que as instituições escolares influenciam de maneira expressiva na formação moral das crianças e dos adolescentes, quer queiram ou não, e confirmam que o desenvolvimento da moralidade está relacionado à qualidade das relações que se appresentam nos ambientes sociais nos quais o indivíduo interage se mais cooperativos ou autoritários. Evidentemente, essas interações não ocorrem apenas no lar. Além disso, para uma criança que vive em um núcleo familiar disfuncional, a escola pode ser a única estrutura estável. 

Por fim, independentemente de a família ddesempenhar seu papel, a escola necessita educar seus alunos para a vivência em uma sociedade democrática e contemporânea, atuando na socialização secundária. Não podemos continuar esperando por alunos ideais como pré-requisito para que possamos ter êxito nessa tarefa.