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De onde vem a merenda

Ao descobrir como os alimentos são produzidos, os jovens valorizam o trabalho no campo

POR:
Bruna Escaleira, Lucas Freire e Nairim Bernardo

Batata, mandioca, feijão. Boa parte dos ingredientes da merenda oferecida diariamente na EEEF Doutor Cunha Lima, em Remígio, a 148 quilômetros de João Pessoa, é cultivada pelas famílias dos alunos. Apesar disso, muitos estudantes da zona rural sofriam preconceito por parte dos colegas que vivem na parcela urbana do município. Diante dessa contradição, o professor Benedito da Silva propôs um projeto sobre agricultura familiar para a turma do 8º ano. Além de aprender sobre agroecologia e características de clima e vegetação da região, a classe discutiu conceitos sociais importantes para a organização local, como o papel da mulher e dos jovens durante o trabalho nos cultivos.

De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, 30 milhões de brasileiros vivem no campo. Muitos deles sobrevivem da agricultura familiar, que é responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos no país. A Lei da Alimentação Escolar define que 30% dos recursos repassados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para a merenda sejam usados na compra de ingredientes provenientes dessas pequenas propriedades.

Mesmo assim, vários alunos ficaram surpresos quando Benedito expôs a origem dos ingredientes que eles comem todos os dias na escola. "Por incrível que pareça, muita gente acredita que o leite vem da caixinha", comenta Lisangela Nascimento, doutora em Ensino de Geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Diante da confusão dos adolescentes, é função do professor explicar a relação de interdependência entre campo e cidade. "O meio ambiente não tem limite urbano ou rural. Por exemplo, o que é contaminado na cidade também pode afetar o campo e, consequentemente, o que vamos consumir. Por isso, é importante trabalhar as questões da agricultura", aponta Suely Gomes, docente de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Na visita à propriedade rural, os alunos conheceram a horta e a casa da agricultora.
Foto: Arquivo pessoal/Benedito da Silva

Para obter mais informações e planejar uma boa sequência didática, Benedito se reuniu com colegas, gestores, pais, estudantes e lideranças do Sindicato de Trabalhadores Rurais, que deram sugestões de atividades, como reuniões e visitas a comunidades agrárias da região.

Como a maior parte da turma vive na área urbana, o primeiro passo do educador foi pedir aos alunos da zona rural que produzissem cartazes com mapas mostrando a organização de suas propriedades. Então, esses estudantes apresentaram suas produções e contaram sobre o cotidiano de suas famílias no campo ao restante da classe.

Em seguida, todos participaram de uma reunião com membros do sindicato, que esclareceram dúvidas sobre a atividade agrícola. Com base nessas informações, Benedito fez uma aula expositiva, abordando a história das plantações no município e a relação entre a diferença de clima das microrregiões existentes em Remígio e o tipo de cultivo de cada propriedade.

"Conhecer quem produz e de onde vem grande parte da merenda da escola, além de valorizar o agricultor, ajudou a apreciar também o alimento que é servido na hora do lanche. Alunos do campo que não tinham muito contato com os da cidade ficaram mais próximos ao explicar como vivem. Percebemos que o distanciamento e as atitudes desrespeitosas contra eles diminuíramsignificativamente, comemora o docente.

Agro o quê?

Chamou a atenção da turma o modelo de cultura praticado e a relação dele com a agroecologia. Aprenderam, então, que o agricultor familiar é aquele que realiza atividades econômicas no meio rural e atende a alguns requisitos básicos: não possuir grandes extensões de terra, utilizar predominantemente mão de obra da própria família e obter a maior parte da renda familiar das atividades agropecuárias. Já a agroecologia é a ciência que orienta o plantio com uma preocupação ecológica: sem o uso de venenos ou insumos estranhos à região. O esterco que aduba o solo vem dos animais ali criados e os fertilizantes são feitos com os produtos naturais do local.

Para aprofundar o aprendizado, o professor propôs uma visita a uma agricultora na zona rural de Remígio. Antes da saída, os estudantes elaboraram, coletivamente, o que perguntariam a ela. Eles estavam curiosos para saber como é o dia a dia no campo. Além de tirar dúvidas, a turma pôde ver pessoalmente a realidade dos trabalhadores rurais, conhecendo a horta e a moradia presentes naquela propriedade.

"Alunos do campo que não tinham muito contato com os da cidade ficaram mais próximos ao explicar como vivem.  Percebemos que  o distanciamento  e as atitudes  desrespeitosas  contra eles  diminuíram  signifcativamente."
 
BENEDITO DA SILVA,

professor de Geografia
da EEEF Doutor
Cunha Lima.

A visita provocou uma discussão sobre o papel desempenhado pelas mulheres nas famílias do campo. Os adolescentes perceberam que, assim como na cidade, a atuação feminina é desvalorizada e as tarefas domésticas são vistas como responsabilidade dela. "Alguns alunos do sexo masculino tinham vergonha de dizer que varrem a casa e lavam a louça. Mas, aos poucos, foram percebendo a importância da colaboração na organização da casa. Do mesmo modo, compreenderam que o trabalho das mulheres na roça é essencial para a agricultura familiar", lembra Benedito. 

Depois do passeio, a turma criou uma conclusão conjunta: "Agricultura familiar é a agricultura que coloca a comida na nossa mesa todo dia, é feita pelas pessoas das famílias, e toda família se preocupa com as outras. Ela se preocupa com a saúde das pessoas que comerão aquilo que ela produziu. Por isso ela é tão importante".

O campo na cidade

O professor Benedito contou com alunos agricultores e uma propriedade rural próxima à escola para realizar sua proposta. Mas como essas questões podem ser abordadas nas salas de aula dos grandes centros urbanos? Para Suely, associar esse conteúdo ao contexto da cidade não é difícil, já que os dois estão diretamente relacionados: "Ao ensinar sobre a produção no campo, fala-se, também, do consumo na zona urbana. Essa relação é direta, os espaços são interdependentes".

Os alimentos da merenda escolar são um bom gancho para introduzir o assunto. Independentemente  de a criança vivenciar o áreas rurais ou não, ela vê o conhecimento aplicado à sua realidade, pois os produtos desses locais estão cotidianamente no seu prato. O professor pode aproveitar para contemplar outras questões que envolvem o caminho da comida até nós, como o tipo de transporte utilizado.

Se não for possível ir até uma propriedade rural, outros espaços podem ajudar os estudantes a se aproximar dessa realidade diferente da deles. "Visitar o mercado central da cidade ou feiras livres pode ser bem interessante. Muitas crianças só veem a comida já no prato, preparada para o consumo", sugere Valéria de Marcos, professora do Departamento de Geografia da USP. "Quando o aluno faz uma pesquisa de campo e ouve quem está trabalhando com aquilo, ele tem outra visão. O conhecimento se dá pelo que ele viu de fato, e não pelo que o professor falou ou pelo que ele leu em um livro", completa.

Também é possível desenvolver atividades práticas. "Se houver um cantinho para fazer uma horta na escola, mesmo que na vertical, dá para trabalhar com a produção e cultivo. Uma opção é plantar condimentos, que podem ser utilizados na cozinha da escola. Os restos de comida podem servir como adubo", sugere Suely.

A turma aprendeu com os colegas que vivem no campo e com membros do sindicato. Fotos: Arquivo pessoal/Benedito da Silva