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Um passo pra cá, outro pra lá

Dança de salão envolve ritmo, deslocamento do corpo e contato com o outro

POR:
Jacqueline Hamine, Teresa Santos e Elaine Iorio

Falta de formação específica, espaços inadequados e carga horária reduzida demais para abordar todas as linguagens. Esse é o cenário desafiador normalmente encontrado por professores de Arte, que acabam deixando de fora do planejamento os conteúdos de expressão corporal.

Bacharel e licenciada em Dança, Danielle Berbel Leme de Almeida não se intimidou pelas dificuldades e levou a dança de salão para as aulas do CE Conselheiro Zacarias, em Curitiba. Durante seis aulas, ela explorou essa modalidade com as turmas de 7º e 8º anos, abordando o bolero, o forró e o samba de gafieira. No vasto repertório dessa temática ainda há outros estilos como salsa, valsa, foxtrote, minueto, zouk e tango.

Apesar da proximidade dela com o assunto, os objetivos de trabalhar o ritmo, o deslocamento do corpo e o contato físico não foram fáceis de alcançar. "Era a primeira experiência dos alunos com dança na escola. Eles ficavam muito envergonhados ao se olhar nos olhos para começar um passo", conta Danielle. Sem falar no burburinho, na descoberta da paquera e no estranhamento do próprio corpo, tão comuns na adolescência.

Para organizar a garotada, a professora seguiu um ritual em todas as aulas. Antes de começar, pedia que os alunos afastassem as carteiras, varressem o chão, tirassem os calçados e se concentrassem no aquecimento. E, no fim, propunha um relaxamento. "Nas primeiras tentativas, eram mais de 20 minutos para os preparativos e para acalmar os ânimos. Eles comentavam sobre as meias uns dos outros, davam risada e ficavam agitados com a música. Era difícil eu conseguir falar. Aos poucos, o processo entrou na rotina, e a turma passou a curtir esses momentos", relembra.

Andrea Cavinato, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), acredita que a inquietação dos estudantes reflete como a escola, de modo geral, disciplina o corpo para estar parado, fazer apenas movimentos restritos ou que estejam de acordo com alguma norma. "A maior dificuldade das aulas de dança é desconstruir o rigor e possibilitar o toque entre as pessoas, seguindo um código específico de conduta corporal", diz. E se não conseguir a participação efetiva de toda a sala, o professor pode envolver os alunos reticentes na organização do ambiente e no registro, por exemplo.

Primeiro, a coordenação

Para iniciar, a educadora propôs que os alunos, em duplas, subissem e descessem as escadas da instituição para que coordenassem os passos e ampliassem a movimentação para fora da classe. Em seguida, começaram de fato a primeira dança, com a caminhada do bolero. "Iniciar a sequência com ele é interessante por ser uma dança lenta, o que facilita a apropriação dos gestos e a posição dos braços, que é repetida em outros estilos", diz Danielle. Face a face, o par dá passos para a frente e para trás, seguindo o ritmo da música. Para embalar, ela escolheu uma versão instrumental de And I Love Her, dos Beatles, e canções do porto-riquenho Luis Miguel.

Os estudantes começaram a experimentar o toque do colega, o olhar, o deslocamento e o dançar junto, percebendo quando deveriam conduzir ou ser conduzidos (leia mais sobre esse e os outros estilos nos quadros ao final da reportagem). "Eu oriento a troca de pares e a alternância entre quem representa a dama e o cavalheiro, inclusive entre meninos e meninas, para que todos vivenciem os diferentes papéis", explica a professora. Conforme eles se familiarizavam, Danielle mostrava evoluções como soltar uma das mãos e fazer giros ou variações dos movimentos.

Na aula seguinte, a educadora fez com todos os passos básicos do samba, primeiro individualmente, depois um em frente do outro e, por fim, lado a lado. Ao som de Martinho da Vila e Jorge Aragão, eles se arriscaram na gafieira. Embora o ritmo seja bem difundido, foi raro encontrar adolescentes que sabiam dançá-lo em par.

O forró também já era conhecido de alguns, que até faziam piruetas. Então, quando chegou a vez desse estilo, a troca de duplas foi fundamental para o avanço de todos. Para acompanhar, Danielle deu preferência para músicas de Sivuca (1930- 2006) e do grupo paranaense Bayaka, em que a sanfona e o acordeão se destacam. A cada aula, a docente chamava a atenção para novos detalhes, como a postura do corpo, o eixo tendo os pés como base e as formas girar nesse ritmo.

 

Dentro e fora da escola

O rigor na postura e a busca pelo passo perfeito são almejados nas academias de dança de salão. Mas, na escola, o que vale é a experiência, conforme explica Lilian Vilela, do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), em São Paulo. "É interessante pensar na dança como forma de conhecer o corpo, de entrar em contato com o movimento e com a respiração. Os alunos não devem apenas reproduzir os passos, mas compor sequências e assistir a outras feitas por profissionais", sugere.

Ela lembra que o ensino de qualquer estilo de dança, assim como das outras linguagens, precisa incluir as etapas de fazer (aprender e compor os passos), apreciar (ver outros dançando) e contextualizar (entender em qual cultura e momento histórico os estilos foram criados). E se nas aulas de Educação Física os benefícios do movimento, o exercício e a contribuição para o corpo são o foco, em Arte o que se almeja é o desenvolvimento da sensibilidade e da criação.

Essa preocupação esteve presente no trabalho que Danielle realizou. Ela promoveu a exploração do contexto em que os três estilos foram criados e conversou sobre o percurso deles ao longo do tempo. A classe viu imagens de artistas consagrados, como o ator e dançarino norte-americano Fred Astaire (1899-1987), e assistiu ao filme Vem Dançar (Liz Friedlander, 118 min, Playarte, sinopse aqui), sobre o ensino da dança de salão em uma escola, e a vídeos de profissionais.

O uso de compositores e intérpretes variados foi outra preocupação da docente, que preferiu as músicas instrumentais porque nas outras a letra acabava distraindo os estudantes e isso interferia na percepção do ritmo. Ela aumentava o som para eles se soltarem e o diminuía para fazer alguma intervenção. "E quando já tinham maior domínio da técnica, conseguiam improvisar e imprimir a própria marca na dança", relata.

Lilian levanta uma dúvida recorrente entre os professores: "O universo dessa linguagem artística é vasto. Qual estilo explorar?". Para ela, a decisão pode ser feita com base em vários aspectos, como o repertório dos alunos e a possibilidade de fazer uma ligação com outras disciplinas. Se, nas aulas de História, eles estão estudando uma época, pode-se abordar o ritmo característico daquele momento.

 

Estilos repletos de detalhes

Conheça as posições corporais e os movimentos de cada dança trabalhada

Confira aqui uma sequência didática com outras sugestões de Danielle. 


Ilustrações: Adriel Contieri