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Português como segunda língua

Falar o idioma local é um dos maiores desafios para quem busca uma vida melhor no Brasil

POR:
Bruna Escaleira, Patrick Cassimiro e Bruno Mazzoco

No início de 2015, a EM Iracema de Souza Mendonça, em Campo Grande, recebeu um pedido incomum da Secretaria Municipal de Educação: matricular 28 alunos imigrantes - a maioria haitianos - na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em busca de trabalho em terras sul-mato-grossenses, a principal necessidade da maioria deles era dominar o idioma do Brasil. Karla Torres, que havia sido voluntária na formação de professores no Haiti após o terremoto de 2010, foi convocada para assumir uma turma dos anos iniciais do Ensino Fundamental composta apenas de estudantes de fora do país. "Apesar de já ter estado no país deles, nunca havia trabalhado com ensino de Língua Portuguesa para estrangeiros nem com classes de EJA", conta a docente.

Nas primeiras aulas, Karla observou que o desconhecimento do idioma limitaria o desenvolvimento dos alunos nas demais disciplinas. Por isso, ele foi seu foco inicial no trabalho pedagógico. Com a ajuda de apostilas de português para estrangeiros, abordou primeiramente situações corriqueiras - como cumprimentos e apresentações pessoais - e os verbos mais usados. Para Sérgio Duarte, doutor em Português e Linguística pela Universidade de São Paulo (USP), o ensino para imigrantes deve priorizar os aspectos comunicativos da linguagem, que se alteram de acordo com a circunstância. "É preciso trabalhar a variedade linguística que mais se adequa ao contexto dos alunos. Em alguns casos, o uso normativo do idioma pode dificultar a comunicação."

Laura Nassar, coordenadora pedagógica do Colégio Oswald de Andrade, em São Paulo, sugere equilibrar o ensino da estrutura da língua com o de estratégias de comunicação reais. Como alguns estudantes trabalhavam na construção civil, Karla pediu que levantassem palavras relacionadas à área e listou no quadro. Depois, estimulou-os a ler em voz alta para praticar a escuta e a pronúncia, inspirada em aulas de francês que já havia tido. "Ensinar português como segunda língua não é tão distinto das outras. Claro que cada uma tem especificidades, mas a metodologia se aproxima", diz Lívia Mantovani, professora de inglês e português para estrangeiros na capital paulista.

Ao apresentar os tempos verbais, a docente sentiu uma dificuldade. "Nós ensinamos conjugação durante a leitura de textos, de forma reflexiva, mas muitos alunos estavam acostumados com o estilo mais tradicional, em que se pede para recitar a conjugação", conta. Para Giselda Pereira, coordenadora pedagógica do Instituto de Integração do Refugiado, em São Paulo, no início, não é necessário que conjuguem tudo. "Pode-se começar somente com as pessoas eu, você, nós e eles, e os tempos verbais passado, presente e futuro, que são os mais usados, pois eles têm urgência em se comunicar", sugere a especialista.

Ao listar palavras usadas com frequência, os alunos ampliaram o vocabulário. Foto: Erônemo Barros

De olho na realidade

No decorrer da sequência, Karla notou que, além do idioma, as diferenças culturais também eram um grande desafio para a turma. Um dia, um professor usou a expressão "a noite é uma criança", deixando a maioria dos alunos estrangeiros sem entender essa figura de linguagem. Isso mostrou a necessidade de promover o intercâmbio entre as culturas brasileira e haitiana.

O tráfico e o consumo de drogas foi a temática eleita para ser tratada, já que era algo muito presente no entorno da escola, contexto diferente do vivido pelos imigrantes em seu país natal. Para as atividades de leitura e de interpretação de texto, foram escolhidos materiais de diferentes gêneros, como relatos pessoais e notícias sobre o consumo de entorpecentes. Com o auxílio do dicionário, os estudantes tinham de identificar os verbos e destacar as palavras desconhecidas. Após a leitura, o conteúdo era discutido em grupo. Propostas de escrita foram feitas de modo coletivo, com a professora de escriba, e depois individual.

Para a atividade seguinte, Karla também se valeu do que observou em sala: os saberes de boa parte dos alunos sobre a cidade não ultrapassavam os limites do bairro onde moravam, o que dificultava o deslocamento. Então, decidiu abordar os aspectos históricos, culturais e geográficos da capital do Mato Grosso do Sul. Para isso, organizou uma excursão por pontos turísticos.

As aulas anteriores à saída foram dedicadas à leitura de textos e à apreciação de vídeos sobre os locais que seriam visitados. "Eu conversava sobre as características do que veríamos e construía com eles algumas frases, que anotava no quadro", diz a educadora. "É importante que o professor faça um levantamento do vocabulário que os alunos vão encontrar antes de ir a campo", afirma Sérgio.

EXCURSÃO 
Além de aprender o idioma, a turma conheceu melhor a cidade ao visitar museu sobre a história local. Foto: Arquivo pessoal/Karla Torres

A primeira parada foi o Museu José Antônio Pereira, onde todos se informaram sobre a criação de Campo Grande e seu fundador. O monjolo e outros utensílios vistos por eles remetem ao passado rural da região. "Quando falei sobre carro de boi em aula, muitos não entenderam. Esse aprendizado ganhou significado com a visita", conta Karla. Depois, foi a vez de ver a herança indígena ainda presente na cidade e apreciar a fauna e a flora locais no Memorial da Cultura Indígena, em Marçal de Souza, a primeira aldeia urbana do Brasil, e no Parque das Nações Indígenas.

Durante o trajeto entre uma atração e outra, os alunos conheceram pontos importantes do município, referências para deslocamentos. De volta à escola, Karla enfatizou a oralidade, estimulando que cada um contasse o que mais chamou a atenção nos lugares visitados. Após a roda de conversa, a educadora orientou a elaboração de textos, que, depois de comentados, foram reescritos (veja algumas das produções abaixo). "Com o passeio, os alunos são colocados em contato com o uso real da língua. Isso é bom para conhecerem as variações linguísticas", destaca Sérgio.

Ao final de um semestre, Karla já notava o progresso da turma tanto no domínio da linguagem oral quanto da escrita. Hoje, ela consegue dar aulas falando somente em português, e orgulha-se do empenho da turma: "Eles estão vindo para cá em busca de qualidade de vida e se apropriar do idioma é muito importante para isso".

EVOLUÇÃO
Em maio, o relato de um aluno ainda era um pouco confuso. Já o de outubro mostra mais clareza e coesão. Foto: Reprodução