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Reunir, organizar e interpretar dados

Se a garotada está cheia de perguntas, apresente a estatística para que eles mesmos encontrem respostas

POR:
Wellington Soares, Paula Peres e Carla de Franco

A estatística é o ramo da Matemática responsável por coletar, analisar, interpretar e apresentar dados. Alguns de seus usos mais famosos são as pesquisas de intenção de voto, o Censo Demográfico e os cálculos de probabilidade. Parece complexo, mas os mesmos conceitos utilizados para tentar prever quem será o próximo ou a próxima presidente nos ajudam a lidar com situações do cotidiano, como analisar algumas características de um grupo de pessoas.

Em classe, o trabalho pode se basear em uma questão que desperte a curiosidade da garotada. Na Escola Comunitária de Campinas, a 94 quilômetros de São Paulo, por exemplo, o 2º ano estava intrigado com o tema da amizade. Os alunos queriam entender por que acabavam procurando as mesmas pessoas para brincar e como faziam novos amigos. A professora Solange Aparecida Corrêa aproveitou as inquietações e propôs uma investigação para que a própria turma encontrasse as respostas. As crianças foram desafiadas e aprenderam a lidar com fenômenos aleatórios e variáveis mais complexas e não padronizadas.

"Definir um objeto de pesquisa, pensar na busca de dados e classificá-los é um processo mental importantíssimo", defende Roberta Schnorr Buehring, formadora de professores da Prefeitura Municipal de Florianópolis. A seguir, confira as etapas que precisam ser seguidas e veja como a classe de Solange lidou com elas.

 

1. Escolha do problema

É necessário eleger um assunto sobre o qual investigar: as preferências ou os medos da classe, as características da família dos alunos ou outras questões relacionadas ao cotidiano deles são boas pedidas. "Quando o tema faz parte do universo das crianças, os dados ganham sentido, elas se enxergam neles e têm uma postura ativa ao longo das atividades", defende Irene Cazorla, professora do Mestrado em Educação Matemática da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Vale refletir com a classe que esses fenômenos não são determinísticos, ou seja, são imprevisíveis e que a pesquisa é a melhor maneira de estudálos. Na escola campineira, a garotada, ao perceber a formação de panelinhas na sala, levantou a seguinte dúvida: "Por que nós gostamos mais de brincar com os nossos amigos?". Com base nela, investigaram como a própria turma lida com a amizade.

 

 

2. Planejamento

A coleta é uma das partes mais importantes da pesquisa, por isso deve ser pensada com cuidado. A estratégia mais comum é a montagem de questionários que serão aplicados ao grupo de pessoas que se quer estudar. Os alunos de Solange decidiram que eles mesmos seriam entrevistadores e resolveram fazer três perguntas: "A amizade é importante para você?" (que aceitava apenas as respostas sim ou não), "Quais atitudes você acha importante para ter um amigo?" (cuja resposta era livre) e "O que você tem feito para fazer novos amigos?" (que, além de fornecer alternativas, permitia que respondessem algo diferente). Durante a montagem do questionário, é importante tomar certas precauções, como garantir que os enunciados sejam claros e não sejam genéricos demais. Também vale misturar questões que oferecem opções, cujos resultados são mais fáceis de contar, e de respostas livres.

 

3. Levantamento de dados

Nesse momento, as informações que se quer encontrar são de fato buscadas. Isso pode ser feito por meio de entrevistas ou com a própria pessoa preenchendo o questionário elaborado anteriormente. Na Escola Comunitária de Campinas, os alunos seguiram a segunda opção. Após ter os formulários respondidos, a classe se dividiu em grupos para elaborar relatórios. Cada estudante compartilhou suas respostas com os demais e eles escreveram notas sobre o que foi coletado, como o total de entrevistados que escolheu cada alternativa. "Esse processo de recolhimento de dados é muito importante para o desenvolvimento do pensamento estatístico. É nele que se tenta pela primeira vez reconhecer um padrão dentro das informações reunidas", diz Irene.

 

 

4. Tratamento da informação

Depois de reunir as respostas, deve-se pensar como traduzi-las de maneira que a interpretação delas seja facilitada. "Os alunos precisam saber, por exemplo, que cada unidade em um gráfico representa a resposta de uma pessoa", esclarece Roberta. Na classe de Solange, os estudantes utilizaram quadradinhos e estrelas para representar cada respondente (veja mais no quadro no final da reportagem). Não houve consenso sobre o que fazer com as respostas dissertativas, mais difíceis de tratar. Então, a professora perguntou: "Como contemplar todas as respostas diferentes?". A turma sugeriu que elas fossem escritas em uma tabela. Solange, então, chamou a atenção para as que se repetiam ou eram muito parecidas e sugeriu agrupá-las. "Essa etapa é rica, mas complexa. O professor pode conversar com a sala sobre quais respostas se assemelham e deixar que as categorias emerjam do que os alunos dizem", explica Irene.

 

5. Análise e conclusão

Na última etapa, sintetiza-se tudo o que foi possível aprender durante o percurso investigativo. Entram em jogo habilidades de interpretação e de realização de inferências. A classe pode refletir sobre como as novas informações ajudam a responder a questão inicial. No 2º ano, em Campinas, todos receberam uma cópia dos gráficos montados pelos grupos e foram instruídos a escrever um pequeno texto para explicar as conclusões a que chegaram com base na análise dos materiais. Os grupos registraram frases como "Pensamos que ser educado e gentil é fundamental em uma amizade" e "Todos os alunos acham que a amizade é importante e que sempre será". Retomando as perguntas que haviam sido levantadas, eles chegaram à conclusão de que é por meio dos amigos que a criança já possui que ela conhece outros, como sintetiza o trecho feito por um dos grupos: "Gostamos de brincar com os amigos, porque quando você tem um amigo, você faz mais amigos. E isso é excelente".

 

 

Detalhes do maravilhoso mundo dos gráficos

Para produzir gráficos, a turma precisa se familiarizar com eles. "Ela deve ser apresentada a diferentes exemplos, pesquisar seu uso no cotidiano e debater sobre como funcionam", defende Roberta. Os alunos também podem criar maneiras próprias de representação, por exemplo, o uso de estrelas na imagem abaixo. Nas primeiras tarefas, eles podem ter dificuldades. "Em um dos grupos, percebi que a barra que indicava 24 respostas estava maior que a de 28, porque as estrelas estavam desproporcionais", lembra Solange. Quando isso acontece, os alunos precisam pensar em uma solução, como padronizar o tamanho das estrelas. "O uso de folhas quadriculadas, que já vêm padronizadas, ou papéis de mesmo tamanho são algumas estratégias que podem ajudá-los", sugere Irene.

 

Ilustrações: Bruno Algarve