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Essencial na escola, determinante na vida

Reflexões de Lino de Macedo

POR:
NOVA ESCOLA
LINO DE MACEDO,

LINO DE MACEDO,
Professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

O pensamento formal é o que possibilita aos alunos, a partir do 6º ano, compreender explicações e resolver problemas propostos nas muitas disciplinas que estudam. Ele também permite se relacionar consigo mesmo e com os outros, assumir uma identidade e conviver com diferenças, exprimindo o que Jean Piaget (1896-1980) chama de afetos integrativos. Também chamado de abstrato, esse modo de pensar tem uma longa e bonita história de construção. Ele começa como expressão sensorial e motora, nos primeiros dois anos de vida da criança. Nesse período, ela utiliza os cinco órgãos do sentido segundo duas perspectivas: o que pode fazer por si mesma e como reage aos adultos que cuidam dela, beneficiando-se da qualidade e quantidade desses contatos. Pode-se chamar a isso de um sexto sentido, tão fundamental quanto os outros, porque junto com eles possibilita a preparação para o estádio seguinte.

Para melhor compreender as coisas, a partir dos 2 anos entram em cena ferramentas que tornam possível a inteligência simbólica. São elas: aprender a falar, ou seja, representar objetos, ações e qualidades por nomes que correspondem a eles; traduzir em imagens mentais o que antes a criança só fazia com o corpo e suas ações; e aprender a fazer de conta, brincar com situações e exercitar a imaginação, a liberdade e o gosto. Assim, a partir dos 6 ou 7 anos, a criança será capaz de pensar com o mesmo poder operatório de suas ações corporais. Graças a ele, poderá aprender cálculos numéricos, dominar a leitura e a escrita, brincar com jogos de regras, tomar decisões e avaliar riscos. Mas, tudo isso, ainda que fantástico, só acontece no plano da experiência, por meio de evidências e exemplos concretos.

O próximo passo, o do pensamento formal, permite realizar, entender e sentir tudo isso no plano do possível, por ser concebível como simples conjectura. As principais ferramentas para essa forma superior de inteligência simbólica são a linguagem, os modelos e as fórmulas, o pensamento crítico, as teorias, os experimentos e os projetos, os princípios éticos e a visão de mundo.

A primeira característica do pensamento formal é situar o real (o que é) em um conjunto de transformações possíveis (o que pode ser), permitindo compreender o invisível ou intocável. Um exemplo: ao olhar a água, não vemos a fórmula HO, ainda que ela seja a síntese mais pura do líquido. Outras características que o envolvem são aprender a pensar por hipóteses, sem depender de fatos observados ou passados, e construir teorias, valores ou ideais para organizar formas de pensar e se comportar, o que, pouco a pouco, configura uma identidade.

Aí reside a maior consequência de chegar a esse estádio: o indivíduo consegue refletir sobre seu passado, compreendê-lo e reordená-lo para, com base nisso, reorientar seu futuro. Por isso, se o desenvolvimento cognitivo não alcança o pensamento formal na adolescência, o adulto tem qualidade de vida empobrecida e participação social aquém das expectativas. Depois de exercitar esse pensamento na escola, o jovem lança mão de lógica, raciocínio e organização para realizar seus projetos e resolver problemas. Na vida adulta, ele atuará como responsável por suas ações e como cidadão livre e criativo, sem se submeter apenas a sua cultura ou realidade, mas encontrando novas possibilidades de viver e de se expressar.


Foto: Ramón Vasconcelos