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A Pedagogia e a identidade da creche e da pré-escola

Regina Scarpa escreve sobre o desenvolvimento das crianças

POR:
NOVA ESCOLA
Regina Scarpa,

Regina Scarpa,
Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora pedagógica da Escola Vera Cruz, em São Paulo

Esta é minha última coluna em NOVA ESCOLA e a dedico a um tema que poderia colaborar para solucionar muitos desafios que abordamos durante este ano: a formação inicial de professores. Proponho, então, finalizar nossa conversa falando sobre o momento em que tudo começa.

O curso de Pedagogia, que forma os profissionais da Educação Infantil (bem como os que atuarão na gestão escolar, nos anos iniciais do Ensino Fundamental e na Educação de Jovens e Adultos), tem sido foco de debates profundos. Em julho, uma resolução do Conselho Nacional de Educação 

(CNE) determinou que ele passe a ter um mínimo de quatro anos. A duração mais curta, de três anos, era herança do Curso Normal Superior, que tinha um foco mais restrito.

Sim, nossos professores necessitam de mais tempo de formação. Mas, além de ampliar essa jornada, precisamos pensar sobre o que fazer com ela. Em uma pesquisa realizada em 2008 para a Fundação Victor Civita (FVC), a Fundação Carlos Chagas (FCC) concluiu que apenas 20,5% das aulas da Pedagogia abordam metodologias e práticas de ensino e uma média de apenas duas disciplinas são dedicadas à Educação Infantil. Essa etapa, vale registrar, chega a ser completamente ignorada por parte dos cursos.

A situação não mudou muito desde esse levantamento e a resolução de julho também determina a ampliação da carga horária dedicada à tematização de boas práticas e à imersão na sala de aula com o estágio. Temos, então, de aproveitar esse momento para rever os currículos de Pedagogia e contribuir para que gestores e professores que vão educar os pequenos até 5 anos possam construir um olhar diferenciado para a infância.

Ao longo de 2015, falamos aqui neste espaço sobre alguns aspectos que precisam ser considerados por quem atua nessa etapa da Educação Básica: as concepções das crianças sobre os números, a importância de não poupá-las de temas relevantes como a morte, a atenção ao acesso às culturas do escrito, o papel da literatura, o respeito aos registros de quem está aprendendo a escrever e a maneira como elas pensam e evoluem.

Além desses, há outros diversos assuntos e especificidades. No Instituto Superior de Educação Vera Cruz (ISE Vera Cruz), em São Paulo, onde trabalho, estamos refletindo sobre eles ao elaborar um novo currículo para o curso de Pedagogia. Pretendemos que ele inclua visões da Antropologia e da Psicologia sobre como a criança aprende e se desenvolve, e promova a reflexão sobre as diferentes infâncias existentes no Brasil (em zonas urbanas, rurais, ribeirinhas, indígenas etc.).

Sabemos que é necessário, ainda, contemplar questões contemporâneas, como as que envolvem o consumo, a medicalização e o mundo virtual. Os futuros professores precisam fazer uma imersão em tudo o que existe de conhecimentos teóricos e práticos sobre o universo da infância para que entendam, por exemplo, as particularidades das faixas etárias até 3 anos e de 4 e 5 anos.

Esse professor estará melhor preparado para garantir o espaço para o brincar tanto quanto promover a mediação com os elementos da cultura, o contato com a linguagem escrita e a interação entre pares. Ele passará a ver a criança como esse ser potente que ela já é, que aprende e pensa sobre o mundo e que necessita de bons interlocutores que enriqueçam suas experiências.

Quanta coisa, não é? Sim, temos muito a fazer e a saber, mas me despeço com a esperança de que, ao rever a formulação dos cursos de Pedagogia, o Brasil contribua para a formação de uma nova geração de professores da Educação Infantil, atenta a todos esses desafios e preparada para lidar com eles. Obrigada pela companhia em 2015!


Foto: Ramón Vasconcelos