Seções | Espaço de Convivência

Menos sermão e mais diálogo com os adolescentes

Telma Vinha comenta os desafios da Educação moral

POR:
NOVA ESCOLA
Telma Vinha,

Telma Vinha,
Professora de Psicologia Educacional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Para muitos educadores, a adolescência é sinônimo de preocupação. Paixões, rebeldia, crises existenciais e exageros associados a essa fase aumentam a vulnerabilidade desse grupo. Não é raro que os jovens se envolvam em situações que colocam a saúde ou mesmo a vida deles e de outras pessoas em risco. A fascinante descoberta sexual pode gerar uma gravidez não planejada ou uma doença sexualmente transmissível (DST), por exemplo. Em muitos casos, a curiosidade em experimentar sensações diferentes leva ao consumo desmedido de drogas ilícitas ou bebidas alcoólicas, resultando em sequelas graves e até na morte. Tais circunstâncias estão ligadas à impulsividade e à busca pelo prazer imediato.

Porém, nem só de perigos vivem os adolescentes. As mesmas características que levam a comportamentos arriscados podem gerar atitudes construtivas. Nesse sentido, a escola tem uma importante contribuição a fazer, pois pode ser um lugar em que eles obtêm informações desprovidas 

de julgamentos morais, convivem com pessoas que passam pelos mesmos dilemas e são expostos a formas variadas de se relacionar com o sexo, o álcool e as drogas, que às vezes são diferentes das aprendidas na família e na comunidade.

Um modo que vem se mostrando eficaz para trabalhar a questão é organizar grupos com estudantes e adultos da confiança deles, a quem respeitem  como professores, gestores e funcionários da escola , para realizar encontros regulares de troca de experiências, dúvidas e aprendizados sobre assuntos que envolvam essa etapa da vida, como mudanças no corpo, sexualidade, drogas, pornografia etc. Isso ajuda a identificar precocemente comportamentos de risco.

Para diagnosticar o uso excessivo de álcool, há um instrumento de aplicação simples: o Alcohol Use Disorders Identification TestTrata-se de um questionário com dez perguntas de autoaplicação que informa à pessoa se ela bebe moderadamente ou não.

Ao lidar com esses temas, a instituição de ensino não deve abordá-los de forma proibitiva. As conversas necessariamente passarão pela questão do prazer e é muito importante que não haja julgamentos para não afastar os adolescentes. Precisamos lembrar que eles ainda estão construindo e internalizando valores, que nem sempre são iguais aos dos adultos. Em vez de sermões dizendo o que é certo e errado, como agir e o que não pode ser feito, devemos argumentar e justificar nosso ponto de vista pessoal e estimulá-los a também argumentar respeitando as singularidades e a individualidade do outro. Esse diálogo deve ter como parâmetros valores morais que possibilitem uma convivência respeitosa.

Pais, professores e os adultos de referência para o adolescente contribuem para que ele tenha expectativas positivas de futuro, construa projetos de vida, desenvolva elevada autoestima, respeito próprio e autoconfiança. Além disso, os auxilia a incorporar valores morais à personalidade deles, principalmente dar importância à vida. Tais fatores ajudam a proteger os jovens e reduzem a vulnerabilidade deles em relação a situações de risco.

Alguém que desenvolve o respeito mútuo e a si mesmo dificilmente provocará danos a ele ou a outrem. Se o desenvolvimento da autonomia é fruto de relações democráticas e de cooperação, é na escola que boa parte dos relacionamentos interpessoais acontece. Afinal, a maioria das pessoas passa ao menos uma década de suas vidas em uma instituição dessas.

 

Em colaboração com LUCIANA APARECIDA NOGUEIRA DA CRUZ e RAUL ARAGÃO MARTINS, da Educação da Unesp de São José do Rio Preto.

Foto: Ramón Vasconcelos