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Alguns aspectos a considerar antes de reprovar um aluno

Felipe Bandoni fala sobre o dia a dia do professor

POR:
NOVA ESCOLA
Felipe Bandoni,

Felipe Bandoni,
Professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Há algum tempo, recebi uma notícia que me chocou. Uma aluna do Ensino Fundamental resolveu parar de estudar após uma reunião de conselho, da qual participei, ter decidido pela reprovação dela. Neste fim de ano, é provável que situações similares aconteçam com os que enfrentarão a repetência. E não são poucos. Se usarmos como referência dados de anos anteriores, 10% do total de estudantes brasileiros deve ser reprovado por motivos variados, como excesso de falta ou baixa dedicação às atividades.

Quando decidimos reter aquela aluna, tínhamos convicção de que essa era a melhor opção para a trajetória escolar dela. Discutimos por um bom tempo durante a reunião e construímos argumentos sólidos para justificar a medida. Também sabíamos desse possível desfecho, que acabou se concretizando. Ainda assim, fiquei chocado. Afinal, uma escolha da qual eu participei acabou excluindo aquela garota dos estudos.

Casos como esse reforçam a seriedade envolvida em reprovar um aluno. Não são raras as vezes em que permanecemos horas ponderando sobre os estudantes que mais nos preocupam. Pensando em contribuir com essa reflexão, elenco três pontos que podem ajudar a tomar essa difícil decisão ou ao menos colaborar para justificá-la.

Primeiro, é preciso avaliar as causas da possível reprovação. Se um aluno não aprendeu, algo deu errado. O que faltou para que esse estudante fosse aprovado? De que maneira a escola equipe gestora e docentes poderia ter agido para que a situação não chegasse a esse ponto? Não se trata de apontar dedos ou atribuir culpas, pois existem muitos fatores em jogo, inclusive externos ao ambiente escolar, mas de encontrar meios para compreender a questão a fundo.

Em segundo lugar, nas reuniões, devemos não só decidir sobre aprovações ou retenções mas também refletir sobre o que pode ser feito no futuro. O próximo ano não pode ser igual ao anterior. Afinal, se alguém participou de todas as atividades e ainda assim não aprendeu, precisamos promover mudanças que ampliem o seu aproveitamento. Cabe questionar: "O que cada professor, individualmente, propõe para o trabalho com esse aluno?", "Como o conjunto de planejamentos está articulado?", "Que posturas o aluno deve assumir para conquistar suas aprendizagens e como está sendo preparado para adotá-
-las?" e "Que outras iniciativas podem ser implantadas (apoio no contraturno, por exemplo)?"

Por fim, devemos pensar no estudante sobre o qual estamos discutindo e considerar o significado da reprovação para ele. Como nosso objetivo é fazer com que todos aprendam, temos de analisar as possíveis consequências de uma retenção. Ela pode resultar em desestímulo para os anos seguintes, frustrações com relação ao próprio potencial e, o pior de tudo, em evasão. Por isso, é importante conversar com cada um, para que ele compreenda os porquês de uma possível reprovação e se torne parceiro do professor em fazer que o ano seguinte seja diferente e melhor.

Na minha experiência, vi que refazer uma etapa pode significar, para certos alunos, a chance de ter mais tempo para aprender. Ingressar em um grupo novo e enfrentar situações diferentes pode de fato colaborar para a evolução desses estudantes. Nesses casos, a reprovação tem um significado pedagógico e se afasta daquela ideia ultrapassada, ainda muito presente no imaginário dos alunos, de que é fruto da vingança dos professores. Para que ela tenha consequências positivas, portanto, é preciso que a decisão seja coletiva e muito bem pensada, e que o estudante em questão seja acompanhado de perto durante todo o ano. O trabalho não termina na reunião do conselho.


Foto: Ramón Vasconcelos