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“As tecnologias nos obrigam a criar novas formas de avaliação”

A francesa fala sobre as transformações sofridas por aspectos marcantes do cotidiano educacional nos últimos anos

POR:
Ana Ligia Scachetti e Anna Rachel Ferreira
Anne-Marie Chartier,

Anne-Marie Chartier,
Integrante do Laboratório de Pesquisa Histórica Rhône-Alpes, da Escola Normal Superior de Lyon, na França

A francesa Anne-Marie Chartier continua analisando a evolução do ensino da leitura e da escrita e os materiais utilizados por professores e alunos (leia um artigo dela sobre esses temas aqui). Recentemente, participou de uma série de eventos no Brasil e comentou como os assuntos que motivam suas investigações no Laboratório de Pesquisa Histórica Rhône-Alpes, da Escola Normal Superior de Lyon, na França, têm sido impactados pela tecnologia. Na entrevista a seguir, ela fala sobre as transformações sofridas por aspectos marcantes do cotidiano educacional, como os registros no caderno, os conteúdos trabalhados, a avaliação e as atividades didáticas.

 

Como se deve analisar os registros feitos pelos estudantes no caderno?

ANNE-MARIE CHARTIER Os cadernos carregam a marca das atividades escritas dos alunos, mas não necessariamente do aprendizado deles. Ao ver uma anotação sobre flores, devemos saber se o estudante a copiou ou escreveu de memória, se ele mesmo compôs ou se é algo coletivo. Também não se vê ali a marca dos intercâmbios orais. As crianças podem se lembrar muito bem dos comentários feitos em sala sobre as flores observadas, ao passo que o caderno guarda apenas o vocabulário (caule, pétalas, estame) aprendido. A tecnologia afeta a avaliação? Sim. As novas tecnologias nos obrigam a inventar formas diferenciadas de realizar as avaliações. Por exemplo, não se analisa da mesma maneira a resolução de um problema quando o estudante calcula de cabeça e quando ele dispõe de uma calculadora. Questionários objetivos, que testam a memória, podem ser corrigidos por máquinas e, por esse motivo, são muito úteis para provas de massa como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Em outras situações, são usadas as formas de escrita mais tradicionais, redigidas com a ajuda da internet. Nesses casos, o que será avaliado não é a quantidade de informações, já que todos podem consultar as mesmas fontes, e sim a maneira de selecionar e hierarquizar o que foi encontrado. Assim, não adianta alguém apenas copiar e colar. Será preciso adaptar os critérios de julgamento, e os professores terão de aprender a usar programas que detectam as fontes (como aqueles que são utilizados por editores para detectar plágios). Com isso, os testes orais serão valorizados. Neles, o avaliador vê o que o aluno sabe e não sabe, como ele reage, como argumenta, coisa que algo
escrito não mostra tão bem.

 

Como agir com grupos sociais que ainda estão distantes dessas práticas?

Naturalmente, as ferramentas digitais estão hoje em dia muito mais presentes nas classes mais privilegiadas, mas o telefone celular penetrou as camadas populares. Por outro lado, a utilização desses recursos permanece bastante diferenciada. Enquanto os adolescentes tendem a usar as redes sociais para intercâmbios com os colegas, a escola deve guiar o manuseio das bases de dados para auxiliar a construção dos saberes. O Google Earth muda a aprendizagem de Geografia, por exemplo. Ferramentas como essa são conhecidas pelos pais com formação, mas não por famílias populares. Serão, portanto, os filhos que iniciarão os adultos, se a escola cumprir seu papel.

 

Há uma nova forma de ler fragmentos, a exemplo dos hipertextos difundidos na internet. Como a escola pode trabalhá-la?

A escola sempre foi uma grande especialista em fragmentos: desde a Idade Média, professores colocam seus alunos para trabalhar com excertos, resumos, pedaços escolhidos, pois o corpus de coisas a ler e conhecer é imenso e o tempo de estudos é curto. O livro didático é uma coleção de resumos acompanhados de links hipertextuais (notas de rodapé, bibliografia, ilustrações), como os livros de Literatura, espécies de pequenas enciclopédias com informações sobre grandes autores apresentadas em ordem cronológica e excertos das obras (poemas, diálogos teatrais, cenas de romances, ensaios críticos). A novidade não é, então, a leitura em fragmentos; é o desaparecimento do objeto físico , o livro, que reunia os fragmentos, dando-lhes uma coerência didática (seja de Literatura, de Inglês, de Ciências ou outro). Enquanto a escola seguir organizando seus ensinamentos em disciplinas, a consulta a trechos da Wikipédia ou outros sites continuará a ser determinada pelas classificações escolares. Mas o que acontece é que, nesses locais, as informações coexistem com dados externos às disciplinas (astrologia ao lado de astronomia, conselhos de bem-estar ao lado de medicina, a vida dos atores e a moda ao lado de biografias dos grandes autores do passado). O papel da escola na construção das classificações e na hierarquização das informações torna-se, portanto, ainda mais importante.

 

Os novos gêneros textuais, como posts para blogs e para o Twitter, devem ser considerados na alfabetização e depois dela?

Não considero os blogs e o Twitter como novos gêneros textuais, já que se inserem em categorias bastante tradicionais (a expressão de opinião), de modo mais ou menos longo no caso do blog e muito curto no caso do tweet. A diferença reside em sua difusão instantânea e para um público amplo. É isso que muda a relação com a escrita. O blog pode ser relido e corrigido por seu autor e pouco difere das crônicas dos jornalistas. Já o
tweet é muito mais reacional e, devido à sua brevidade, não se presta às nuances de pensamento. Ele serve para aprovar, desaprovar, aplaudir ou ironizar, não para argumentar... A assinatura do tweet importa tanto quanto seu conteúdo, pois é a notoriedade de quem posta que dá importância às palavras. É também isso que produz as emoções diante de reações rápidas ou desastradas de personalidades visadas (políticos, pessoas da mídia etc.). No mundo escolar, as comunicações entre as classes podem ser em muito facilitadas por esses meios. O blog permite divulgar textos produzidos coletivamente às outras turmas. A brevidade dos tweets os torna acessíveis a crianças em processo de alfabetização. E, durante essas experiências, o professor aborda as regras de prudência que impedirão os alunos de cair na armadilha dos envios espontâneos e mal interpretados.

 

As aulas de Língua Portuguesa precisam levar em conta a escrita típica das redes sociais e as mensagens de texto com abreviações?

A escola tem por missão transmitir as normas da escrita. Parece-me, portanto, que o professor deve dizer que as mensagens espontâneas com abreviações e escritas fonéticas pertencem ao espaço social, não ao escolar. As modalidades de expressão (regras de polidez, interdição a ofensas e comentários grosseiros ou racistas etc.) são ainda mais importantes que as regras de ortografia.

 

Como o professor pode atualizar os conhecimentos necessários ao trabalho em sala de aula e vencer a incerteza e a insegurança diante de tantas transformações?

As mudanças que estão ocorrendo são de ordem técnica, dizem respeito aos modos de transmissão, não aos conteúdos a ser trabalhados. Assim, os professores vão pouco a pouco transferir para a sala de aula suas próprias práticas domésticas, e podemos contar com os jovens para fazê-lo mais rapidamente. Os docentes aprenderão por meio de trocas com os colegas e pela observação das crianças, que lhes ensinarão muita coisa. As incertezas e a insegurança afetam mais os livros didáticos e os fornecedores de material pedagógico. Esses precisam rapidamente inventar novas ferramentas digitais práticas e de baixo custo, se desejarem sobreviver às mudanças em curso.


Foto: Kris Knack