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"A literatura aliviou as minhas aflições de docente"

Rodrigo Ciríaco é educador, escritor e mediador de leitura em escolas públicas da capital paulista

POR:
Wellington Soares e NOVA ESCOLA
A tatuagem no braço do autor e educador revela sua filosofia de vida: "O estudo é o escudo"

"Quando passei no vestibular da Universidade de São Paulo (USP) para o curso de História, eu já tinha como objetivo me tornar professor de escola pública. Trabalhar na periferia era uma questão política para mim, pois nasci e cresci na Zona Leste de São Paulo.

Assim que me formei, assumi aulas em uma escola da minha quebrada, a EE Jornalista Francisco Mesquita. Na mesma época, comecei a frequentar saraus realizados pela cidade. Docência e literatura passaram a estar conectadas. Durante o dia, eu lutava contra os diversos problemas do cotidiano em sala de aula: o analfabetismo funcional em séries avançadas, a evasão escolar, a violência sempre presente na minha vida e na dos estudantes. Muitos jovens iam para a escola sem se alimentar, algumas adolescentes sofriam abusos e assim por diante.

À noite, solitário e pensando sobre todos esses desafios, eu escrevia. Foi assim que compus meu primeiro poema, inspirado em um aluno que na época cursava a 5ª série (hoje 6º ano). Em busca de alívio, soltava tudo em uma espécie de diário, que se transformou em meu primeiro livro de contos, Te Pego Lá Fora (104 págs., Ed. DSOP, tel. 11/3177-7800, 19,90 reais).

Passei a integrar o movimento de literatura marginal, composto de autores como eu, Ferréz e Sérgio Vaz, que falam sobre o cotidiano das periferias do país. Levei a ideia para a escola em que eu trabalhava na Zona Leste e passei a realizar saraus e encontros entre alunos e escritores. Montei com estudantes o grupo Mesquiteiros para debater e fazer literatura. Com meu trabalho, queria mostrar que essa arte está presente no nosso dia a dia e que a molecada pode ser escritora.

Em 2015, deixei meu cargo de professor e passei a me dedicar apenas à promoção de atividades literárias. Desde maio, fiz mais de 70 eventos, entre saraus e palestras. Eu ainda amo a sala de aula, mas precisei escolher. Se permanecesse como docente em uma única instituição, talvez eu conseguisse promover uma reforma na maneira como a Educação é conduzida ali. Optei por outro caminho: me jogar na rede de ensino e, assim, buscar
uma revolução maior."


Foto: Mauricio Pisani