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A rede que inclui todos

Várias conexões são necessárias para que as crianças com deficiência tenham acesso ao ensino

POR:
Patrick Cassimiro, Ana Ligia Scachetti e Anna Rachel Ferreira

O acesso à escola não prevê exceções. Mas, quando se trata de alunos com deficiência, ainda há dúvidas sobre como garantir um ensino que considere suas especificidades. Muitos docentes se sentem pressionados, como se esse esforço ocorresse apenas dentro do espaço e do tempo da aula. Não é assim. O trabalho é coletivo e, para iniciá-lo, é necessário compreender a importância da inclusão. "Em várias escolas, quando alguém não corresponde ao comportamento disciplinar padrão esperado, é tachado como ameaça", diz Meire Cavalcante, mestre em Educação e Inclusão pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em vez de intimidar, isso deve ser visto como uma oportunidade de lidar com preconceitos e aprender com a diversidade.

A dificuldade em entender tais benefícios é justificada historicamente. Houve um tempo em que os considerados diferentes eram fadados a uma vida reclusa. Na metade do século 19, começaram a surgir instituições para atendimento especializado no Brasil, que colaboraram muito para que as pessoas com deficiência conquistassem espaço na sociedade. Mas, inicialmente, a convivência ficou reduzida a ambientes controlados. Com o passar dos anos, a legislação avançou e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1961 apontou que a Educação dos então chamados "excepcionais" ocorresse, se possível, em escolas regulares.

Novos passos foram dados com a Constituição de 1988, a Declaração de Salamanca, de 1994, e a LDB de 1996. Assim, chegamos ao Plano Nacional de Educação (PNE) que assegura um "sistema educacional inclusivo em todos os níveis, etapas e modalidades". Segundo o Ministério da Educação (MEC), as matrículas de estudantes com deficiência em escolas regulares saltaram de 145 mil em 2003 para 698 mil em 2014. As leis ajudaram, mas, na prática, o sucesso depende das pessoas que se articulam a favor de cada aluno. "Existe um ensino de qualidade quando as ações educativas se pautam na cooperação, na colaboração, no compartilhamento do processo educativo com todos os que estão direta ou indiretamente nele envolvidos", afirma a pesquisadora Maria Tereza Égler Mantoan no livro Inclusão Escolar: O Que é? Por Quê? Como Fazer? (96 págs., Summus Editorial, tel. 11/3872-3322, 35,40 reais).

As funções indicadas nas ilustrações destas páginas precisam ser exercidas em sua completude. Quando isso ocorre, a família apoia e acompanha a evolução do aluno. Médicos cuidam do estado clínico, universidades desenvolvem pesquisas e instituições especializadas identificam recursos que otimizem a acessibilidade. E todos trocam informações com os educadores. Nas escolas, o diretor faz o contato inicial com os responsáveis, promove reuniões entre eles e os docentes e garante a qualidade do ensino. A coordenação pedagógica acompanha as práticas didáticas. O responsável pelo atendimento educacional especializado (AEE) identifica barreiras físicas e comunicativas e propõe alternativas para superá-las. Quem auxilia na higiene, na alimentação e na locomoção é um cuidador. Todos os demais funcionários seguem orientações que propiciem um ambiente inclusivo. E as especificidades de comunicação contam, se necessário, com intérpretes.

O docente responsável pela sala tem de manter uma comunicação permanente com esses vários setores e desenvolver estratégias que permitam ao estudante evoluir. Os outros alunos da classe são os grandes parceiros do educador e da criança no dia a dia, precisam compreender e conviver com ela e sua diferença como fazem com qualquer outra. Afinal, somos todos diferentes. Nas páginas a seguir, conheça as redes que colaboram com três estudantes e lembre-se que elas não são estáticas. Novos desafios costumam surgir e, para superá-los, outros personagens podem ser necessários. Assim, a inclusão se faz com todos e para todos.


RAFAELLA VITÓRIA QUINAPP SILVEIRA

8 anos, aluna do 2º ano da EM Brigadeiro Eduardo Gomes, em Florianópolis
MAIKE MOSER, Professora

"Eu achava a língua brasileira de sinais (Libras) interessante e tinha curiosidade de aprender, mas nunca havia tomado a iniciativa nem visto necessidade para isso. Tudo mudou quando, no início deste ano, eu soube que daria aulas para o 2º ano, onde está a Rafaella, que é surda.

Eu a conhecia de vista porque, desde a Educação Infantil, ela já fazia atendimento especializado no contraturno na escola em que trabalho. Sempre achei interessante ver como a menina é integrada à turma. Hoje, os colegas dela permanecem sendo praticamente os mesmos e se comunicam sem grandes dificuldades, porque todos fazem aulas de Libras duas vezes por semana no horário regular das aulas.

Eu não poderia ser a única que não saberia me comunicar de maneira apropriada com a Rafa! Então, conversei com o professor Renato, também surdo, e me inscrevi no curso de Libras que ele oferece na escola no período da noite. Ainda sou um pouco insegura quanto ao idioma, mas já consigo me comunicar bem com a aluna. Dou orientações pontuais diretamente na língua dela, o que facilita muito a nossa relação. Ainda assim, a ajuda de Kátia, intérprete de Libras, é essencial, principalmente quando estou fazendo explanações à classe toda. Por causa disso, ela se senta ao lado da Rafa.

Também converso com a Cristina, mãe dela, pela agenda. Trocamos informações que nos fazem compreender como ajudá-la melhor. O professor Renato tem ajudado a mim e à turma na fluência no idioma. Ele leciona as aulas de Libras junto com a Kátia. Os alunos adoram. Cada um tem o seu sinal, criado com base em alguma característica física que se sobressai. O meu é a letra M deslizando pela lateral do meu rosto e, quando chega na altura do queixo, vai para a frente e para trás para marcar o meu cabelo liso com o corte Chanel."

 

RENATO NILSON DAS CHAGAS, Professor de Libras

"Sou surdo de nascença. Estudei em escolas especiais e regulares e sou pós-graduado em Libras. Atuo como professor da Prefeitura Municipal de Florianópolis há dez anos, dou aulas dessa língua e faço atendimento especializado. Todos os docentes e alunos deveriam aprender Libras. Os colegas e a professora da Rafaella estudam comigo. É muito legal essa oportunidade que ela tem de conviver em um ambiente que deseja incluí-la. Se mais pessoas aprendessem, a inclusão seria ainda maior. Por isso, decidi oferecer um curso para toda a comunidade escolar."

 

COLEGAS DE CLASSE, turma do 2º ano

"A Rafa é a minha primeira amiga surda. Comecei a estudar com ela neste ano. Acho diferente e bem legal. Eu já tinha ouvido falar sobre Libras, mas nunca tinha visto. Agora sei fazer vários sinais e consigo conversar bastante com ela. Para brincar de pega-pega, a gente faz os sinais dos números."

REBECA DE ALENCAR FERREIRA, 8 anos (ao centro da foto, de óculos coloridos)

 


GUILHERME MARTINS QUINTANA

8 anos, aluno do 2º ano do CEU Lajeado, em São Paulo
MARIA ANGELA DA COSTA, Professora

"Eu trabalho no CEU Lajeado há três anos. Nossa escola recebe muitos alunos com deficiência. Até o ano passado, eu ainda não tinha lecionado para um deles, porém acompanhava o desenvolvimento pelos comentários dos outros docentes e observando nos corredores. Lembro que o Guilherme, a quem dou aulas hoje em dia, não conseguia caminhar e tinha muita dificuldade de se engajar nas atividades
de sala, por conta das limitações motoras decorrentes do AVC.

Quando o recebi em minha turma, a professora Gisele Gomes da Silva, do 1º ano, me entregou um relatório que já mostrava a evolução dele. Em 2015, ele seguiu progredindo. Por exemplo, o que antes era um impulso e sair da cadeira de rodas se transformou em caminhadas supervisionadas, graças à comunicação da auxiliar de vida escolar com a avó dele e a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente).

No início, ele tinha dificuldade de socializar com a classe. Tive várias conversas com os outros alunos até que eles compreendessem que o Guilherme é igual, mesmo sendo diferente, como todos nós. Hoje, ele faz atividades em dupla e em grupo tranquilamente.

Para dar aulas ao Guilherme, eu conto com a ajuda da Shirley, auxiliar, e da Cláudia, que me explica as estratégias adotadas no AEE e para quem eu passo as minhas dificuldades. Elas são essenciais para eu não ficar estagnada no trabalho. Hoje, ele consegue firmar um lápis e produz desenhos com plena noção de uso do espaço no suporte que ofereço. Antes, só rasgava o papel.

Também tenho a ajuda da Flávia, coordenadora pedagógica, das auxiliares de vida escolar, que são chamadas para acompanhá-lo ao banheiro ou ajudá-lo na alimentação, e da Andreza, que faz o atendimento no contraturno. Os demais funcionários estão cientes das necessidades e são parceiros na inclusão do Guilherme. Isso tem feito toda a diferença no dia a dia dele."

 

FLÁVIA MACHADO DE ASSIS MARTINS, Coordenadora pedagógica

"É preciso um movimento grande para garantir que a inclusão aconteça. Logo que soubemos que o Guilherme estaria conosco, fizemos uma reunião com a família. Em seguida, promovemos algumas conversas entre a avó dele e as professoras que o atenderiam. Depois, falei com os funcionários do corredor, as auxiliares de vida escolar e todos que estariam diretamente ligados à rotina dele. Ao mesmo tempo, fiz vários encontros com as docentes para o planejamento de estratégias didáticas, as quais continuo acompanhando. Esse trabalho em parceria tem sido recompensado ao ver a grande evolução que Guilherme tem tido, sempre se superando."

 

ANDREZA DA SILVA COMERGE, Profissional da AEE

"O Guilherme chegou à escola para o 1º ano. Ele teve um acidente vascular cerebral (AVC) quando tinha 1 ano e 11 meses, que o deixou com uma série de dificuldades sensório-motoras. Quando começou a frequentar as aulas, ele não respondia aos estímulos, não prestava atenção às instruções e mal conseguia firmar a cabeça. Hoje, a avó dele, Maria Aparecida, conta que quando alguém diz que é hora de ir à escola, ele logo se levanta e começa a se arrumar. Essa atitude tem tudo a ver com o que vejo em sala e também com o que as professoras Cláudia e Maria Angela me relatam sobre o desenvolvimento dele."

 


EDUARDA MARCONDES SILVA

11 anos, aluna do 6º ano da EMEF São Marcos, em Gravataí, a 30 quilômetros de Porto Alegre
ANDERSON D'ONOFRIO FRANÇA, Professor de História

"Em uma das turmas do 6º ano da EMEF São Marcos está a Eduarda, que estuda na nossa escola desde o 1º ano. Ela não enxerga do olho esquerdo e tem baixa visão no direito. Notei que essa limitação a deixa bastante insegura e identifiquei a necessidade de compreender o histórico da aluna a fim de ajudá-la a desenvolver suas capacidades da melhor maneira possível.

Com isso em mente, conversei com os pais, Glenio e Marisa, que são superpresentes, sempre perguntando sobre a filha e dispostos a ajudar. Eles me explicaram as limitações clínicas da estudante e como tem sido a vida escolar dela. Também falei com outros docentes e com a professora de AEE, Laise, que já tinham dado aulas para ela. Eles me deram ideias do que eu poderia fazer para que a Eduarda tivesse as mesmas condições de estudo que os demais. Essas conversas colaboraram para que o meu trabalho com ela fosse mais proveitoso.

A escola já disponibiliza um livro didático com letras aumentadas para facilitar a leitura da Eduarda, que também utiliza óculos e lupa, com o auxílio de um suporte. Passei a confeccionar material, como provas e atividades, com cerca de 80% de aumento de uma letra em Arial 12, por exemplo. Durante o acompanhamento na sala de recursos, foi escolhido um caderno com espaçamento maior entre as linhas para que ela possa escrever com facilidade, também utilizado em aula. Nas provas, eu costumo dar textos menores, pois ela demora mais na leitura. Quando escrevo algo no quadro, eu trago impresso ou faço um ditado (às vezes com a ajuda dos outros alunos). Percebo que ela tem estado mais confiante e ciente de suas potencialidades, que são muitas, como as de todas as crianças."

 

GLENIO FERREIRA E MARISA MARCONDES DA SILVA, pais

"Desde novinha, a Eduarda levava as coisas que dávamos nas mãos dela para perto de um dos olhos. Como eu uso óculos, fui investigar, mas os médicos diziam que não era nada. Até que, com 7 anos, ela passou a ter dores na região e a levei a um hospital, onde descobriram um tumor que já havia comprometido todo o olho esquerdo e parte do direito.

Minha filha operou, mas ficou com a cegueira parcial como sequela. Desde então, eu e minha esposa temos de conversar na escola sobre a nova situação. Quando há troca de professores, procuramos explicar. A maioria entende e eu percebo que eles fazem toda a diferença."

 

EDUARDA MARCONDES SILVA, 11 anos

"Na escola, todo mundo é atencioso comigo. Eles deixam as letras grandes para eu conseguir ler. Às vezes, eu também preciso que me ajudem a interpretar porque acabo lendo devagar. Na lupa, eu vejo palavra por palavra. Então, fica mais difícil de entender o texto todo. E, quando o professor escreve no quadro, ele ou algum colega dita para mim."

 


Fotos: Daniel Conzi, Mariana Pekin, Marcelo Curia. Ilustrações: Léo Natsume