Tecnologia sozinha não aprimora o aprendizado

Garantir equipamentos ainda é uma meta importante, mas o investimento só vale a pena se melhorar a qualidade da Educação

POR:
Ana Ligia Scachetti
 Tecnologia sozinha não aprimora o aprendizado. Ilustração: Jean Galvão

Imagine duas cenas. Na primeira, a sala de aula possui um quadro-negro, o professor usa o giz e senta em uma mesa em frente às crianças, posicionadas nas carteiras enfileiradas. Na segunda cena, o docente utiliza uma lousa digital e os alunos estão atrás de mesas brancas com computadores. O que muda se compararmos esses dois cenários?

Se você disse que "na segunda cena o aprendizado é melhor", cuidado. A euforia geral com a tecnologia leva a pensar que o investimento em equipamentos garante a melhoria do ensino e da aprendizagem, mas a realidade mostra que em muitas salas de aula que se enquadram na segunda descrição a diferença está apenas nas ferramentas empregadas no trabalho. A resposta para a pergunta do primeiro parágrafo é, portanto, "depende". Depende de como a interação entre professores, alunos e conteúdos se dá após a inclusão dos novos recursos.

No entanto, as políticas públicas dessa área ainda estão mais voltadas para equipar as escolas. O Ministério da Educação (MEC) e os governos estaduais e municipais têm alardeado a distribuição de maquinário. Por exemplo, cerca de 150 milhões de reais estão sendo destinados à compra de 600 mil tablets para os docentes do Ensino Médio. E o programa Um Computador por Aluno (UCA) está distribuindo 500 mil laptops educacionais desde o ano passado.

O Censo Escolar de 2010 mostrou que 39,37% das escolas brasileiras já possuíam laboratório de informática, 60,45% tinham computador, e 45%, acesso à internet. Mas a presença das máquinas não é igualitária no Brasil. As regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste estão com a maioria das unidades preparadas. No Norte e no Nordeste, menos da metade das instituições conseguiu se adequar a essas necessidades.

Portanto, o país ainda precisa de ações bem direcionadas para continuar a equipar as instituições de ensino. Afinal, garantir bons computadores e internet na escola é um ganho, sim. A sociedade está inserida digitalmente, então o aluno quer encontrar em suas aulas a mesma modernidade que vê fora delas. As escolas podem (e devem) combater a exclusão digital e preparar os estudantes para esse universo. Mas esse é um benefício muito primário.

45% das escolas brasileiras têm acesso à internet.

Fonte Censo escolar 2010

Formação dos professores ainda é o grande desafio para avançar

Quando as escolas já estiverem equipadas, o que precisa acontecer para a qualidade da Educação ser impactada positivamente? A tecnologia precisa ser incorporada ao projeto político-pedagógico (PPP) e integrada aos conteúdos curriculares. Não dá para ir ao laboratório e permitir que os estudantes fiquem navegando sem um objetivo de aprendizado. Isso, aliás, só acrescenta mais dificuldade ao trabalho do docente, já que o controle da aula fica mais complicado quando a turma tem acesso à internet. O computador na sala ou no laboratório deve ter um uso dirigido.

Em busca de indicadores para definir uma boa experiência nessa área, pesquisadores do Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação (Lantec), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), propõem a Pedagogia Comunicacional Interativa (PCI). O conceito indica a combinação de objetivos educacionais com as ferramentas de comunicação e da web, como compartilhamento de conhecimentos.

Para que os objetivos de ensino sejam alcançados, é primordial que os professores estejam preparados para tirar o melhor proveito das chamadas tecnologias de informação e comunicação (TIC). E o docente precisa fugir do mito de que os alunos, nativos digitais, sabem mais que ele, nascido antes dessa era. Os estudantes podem até ter mais familiaridade com as novidades, mas não sabem colocá-las a favor de sua aprendizagem.

A área do MEC responsável por suprir as demandas de formação é o Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo), criado em 1997. Desde 2008, foram investidos cerca de 15 milhões de reais apenas nos cursos preparatórios. Mas os resultados ainda são pequenos se comparados com os mais de 2 milhões de professores que atuam na Educação Básica no país (veja a evolução de matrículas no gráfico).

Na pesquisa TIC Educação 2010 - que incluiu 497 escolas urbanas -, os professores indicaram que o apoio que recebem para o uso das tecnologias é principalmente de colegas e gestores. Apenas 35% dizem ter participado de uma formação oferecida por Secretarias de Educação. O estudo O Uso dos Computadores e da Internet nas Escolas Públicas de Capitais Brasileiras, realizado pela Fundação Victor Civita (FVC) em 2009, também chegou a uma conclusão semelhante: as opções de formação existentes não são consideradas suficientes pelos educadores. No geral, os cursos são instrumentais demais.

Como resultado, a tecnologia por si só não muda as práticas existentes. Além disso, muitas aulas se restringem a recursos básicos, como buscas na internet e editores de texto. A máquina substitui o caderno e os livros, mas não altera o contexto pedagógico. Portanto, as grandes inovações no processo educativo ainda estão por vir. Para que todo o potencial tenha chance de se desenvolver, é necessário preparar os professores para que possam ousar mais, sem perder o rumo dos objetivos educacionais, rever os conteúdos curriculares e inserir o uso das TIC nos projetos das escolas.

O alcance do ProInfo
Matrículas de professores nos cursos

O alcance do ProInfo: matrículas de professores nos cursos
Fonte MEC

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias

Tags

Guias