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Uma ideia na cabeça e um celular na mão

Explorar técnicas da fotografa e do cinema alterou a visão de mundo da garotada

POR:
Jacqueline Hamine e Elaine Iorio

"Produzir imagem é muito mais do que apertar o disparador de uma câmera. É poder recriar o mundo externo com sensibilidade, criatividade e apresentar pontos de vista singulares que revelem o que toca o coração." A declaração do professor Fernando Rufino resume com poesia o projeto de produção de foto e vídeo que ele realizou durante dois meses com as turmas do 7º ano e também da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da EM da Topolândia, em São Sebastião, a 204 quilômetros de São Paulo. E o processo contou com um diferencial: smartphones no lugar das câmeras! Apesar da proibição do uso do celular na escola em que atua - assim como na maioria das instituições de ensino -, o docente decidiu apostar na apropriação desse recurso tão presente na vida dos jovens. Dessa maneira, resolveu também a falta de equipamentos específicos.

FERNANDO

Licenciado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

  "Durante a graduação, tive muito contato com produções para a tevê e o cinema, já que a cidade é constantemente usada como cenário de gravações. "

Para Marisa Szpigel, coordenadora de Arte da Escola da Vila, na capital paulista, "propor a utilização do smartphone como ferramenta nas aulas significa subverter uma regra a fim de favorecer a reflexão crítica sobre as possibilidades dele no mundo contemporâneo". Assim, em vez de lançar mão de atitudes punitivas, Fernando aproveitou o interesse dos alunos pelo celular para conquistar o engajamento deles na proposta. 

O primeiro passo foi realizar debates para levantar a bagagem da turma sobre fotografia e cinema e as experiências dela com a câmera do telefone para, então, apresentar novas perspectivas. Com base em pesquisas e em seu repertório pessoal, o professor elaborou aulas teóricas e atividades práticas sobre as técnicas de cada linguagem. Vera Lucato, Educadora Nota 10 em 2012 com um projeto de fotografia, destaca que "o tratamento didático no 7º ano e na EJA deve considerar o universo e o modo como cada grupo interage com o celular, a fim de orientar o planejamento". Fernando atentou-se para isso e ajustou os temas às especificidades de cada classe.

 

Além dos selfies 

Para introduzir a garotada no mundo das imagens, Fernando apresentou fotos famosas, como as de Sebastião Salgado, um dos principais ícones nacionais da área, e exibiu o documentário Lixo Extraordinário (Lucy Walker, 99 min, Downtown Filmes, 21/3613-2600, 20 reais), sobre o artista plástico brasileiro Vik Muniz. 

A estratégia de realizar uma análise sobre o assunto a ser desenvolvido, segundo Marisa, é um dos meios para ampliar o conhecimento prévio dos estudantes, ajudando-os a dar significado ao caminho que será percorrido até o produto final. "Em Arte, apreciar e contextualizar outros processos criativos amplia o olhar do educando, fazendo-o crítico da produção pessoal." 

As etapas seguintes foram dedicadas ao estudo, em sala, e à prática, nos diversos ambientes da escola, em que os alunos utilizaram os próprios celulares com o propósito de extrair do equipamento o máximo de possibilidade artística. Eles foram desafiados a experimentar diferentes ângulos, por exemplo, para clicar um mesmo objeto. Esquemas no quadro e exercícios explicitaram os três tipos básicos de iluminação: luz dura (incidência direta), difusa (refletida) e contraluz (que incide por trás). Já para desenvolver uma visão criativa, os jovens buscaram novos significados para elementos comuns, como o formato de rostos humanos e de animais em árvores. Também aprenderam a prestar atenção ao entorno, para que o foco no elemento não seja desviado. Por fim, divertiram-se ao trabalhar com ilusão de ótica, explorando diferentes planos e proporções de pessoas e objetos para criar cenas inusitadas. 

CONHECIMENTOS APROFUNDADOS Em sala, os alunos discutiram a importância dos quesitos técnicos para a criação de uma boa foto

Em todas as atividades, meninos e meninas atuavam ora como fotógrafos, ora como modelos, buscando maneiras próprias de compor os retratos se distanciando do convencional. 

Monique Deheinzelin, doutora em Psicologia e Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e selecionadora de Arte do Prêmio Educador Nota 10, destaca que em nenhum momento o projeto se debruçou sobre temáticas ideológicas, como problemas sociais ou o meio ambiente, o que poderia conduzir os alunos a um uso instrumental da linguagem artística. "Se a Arte é engajada, ela o será como resultado, não como intenção", explica.

ILUSÃO DE ÓTICA Além de ser muito divertido, trabalhar com a perspectiva ajudou a liberar a criatividade. SET DE FILMAGEM Assim como no cinema, cada integrante executou uma função na produção dos vídeos

Luz, celular, ação! 

Já familiarizados com aspectos como iluminação e enquadramento, os alunos puderam partir para o estudo das técnicas de vídeo. Eles assistiram  A Invenção de Hugo Cabret (Martin Scorsese, 126 min, Paramount Pictures, 20 reais), que relembra a história da sétima arte, com foco nos trabalhos dos cineastas George Méliès (1861-1938) e dos irmãos Lumière, Auguste (1862-19540) e Louis Jean (1864-1948). Também se aprofundaram nos conteúdos específicos dessa linguagem, por meio de aulas teóricas, experimentações individuais e atividades em grupo, sempre com o celular. 

A meta era produzir um curta-metragem de ficção de aproximadamente dois minutos. Então, cada grupo se debruçou sobre o planejamento de seu filme - assim como os profissionais do cinema  fazem - tendo como referência exemplos reais trazidos pelo docente. Para compor título e sinopse, Fernando propôs atividades de escrita em que os estudantes trabalharam o poder de síntese. 

No roteiro, registraram detalhes de angulação da câmera, posicionamento da luz, efeitos sonoros, falas e ações dos atores. Ele foi seguido pela criação do storyboard. Nesse momento, técnicas de desenho e de produção de quadrinhos - abordadas pelo professor em projetos anteriores - foram fundamentais para descrever a sequência das cenas e as características dos personagens. 

Última etapa antes de iniciar as gravações, a criação da ficha técnica esclareceu o papel de todos os alunos: cinegrafista, contrarregra, sonoplasta, produtor, ator, entre outros. Então, sob a direção de Fernando, eles transformaram as áreas internas e externas da escola em verdadeiros sets de filmagem. Carteiras e cadeiras serviram de tripé, cartolinas fizeram a vez de rebatedores e interpretações improvisadas deram vida ao roteiro. Como só dispunham do horário de aula, produzir o curta foi um grande desafio, alcançado naquele bimestre apenas pela EJA, com o contagiante suspense chamado Presságio. A escola não possuía os softwares necessários, então a edição foi finalizada em casa pelo professor.

 

Expectativas alcançadas 

Fernando vê o projeto como uma tentativa de realizar o postulado do Cinema Novo: "Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão". Ou seja, trabalhar com o mínimo de recursos técnicos e a grande intenção de possibilitar que os alunos exercitem a sétima arte com o equipamento disponível. 

Para Monique, é evidente o legado deixado para os estudantes, já que eles aprenderam a realizar fotos e vídeos, nas diferentes funções que as linguagens exigem, a argumentar de acordo com julgamento crítico baseado na observação de sua evolução de aprendizagem e na do outro. William Moreno Souza, 13 anos, confirma: "Eu costumava fazer apenas fotos frontais, agora me preocupo com contraluz, procuro ângulos diferentes e até faço montagens em vídeo". Jacson de Sousa Martins, 14 anos, vai além na reflexão. "O vídeo nos dá a possibilidade de refletir sobre o resultado e refazer. É como errar na vida, avaliar os problemas e poder consertar", filosofa.  


Fotos: Kiko Cardial. Ilustrações: Fernanda Salla.