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Soltaram um pum na classe. Quem foi?

Para sanar a curiosidade, a turma investigou a fundo o processo de formação dos gases

POR:
Wellington Soares e Patrick Cassimiro

"Foi quem está com a mão amarela!", sugere um aluno. "Vamos fazer 'mamãe mandou eu escolher' para descobrir", propõe outro. Até que alguém arremata: "Já sei! Quem for primeiro ao banheiro é quem peidou". Situações como essa não são raras. A professora Vânia Emília Dourado lidava com elas todos os anos. A ideia para acabar com as brincadeiras, que causavam vergonha e atrapalhavam as aulas, veio do livro Até as Princesas Soltam Pum (Ilan Brenman, 28 págs., Ed. Brinque-Book, tel. 11/3032-6436, 36,30 reais). "Vi uma palestra com o autor e pensei: preciso elaborar um trabalho sobre o tema", lembra. 

VÂNIA

Fez magistério e, depois, Pedagogia pela Uneb. Cursou pós-graduação em Psicopedagogia e em Alfabetização.

 "O estudo na universidade me ajudou a conhecer a fundo a teoria. Já a formação na própria escola me ensinou a ser autônoma, concebendo projetos de minha autoria."

O plano foi colocado em prática no começo dde 2015, quando os problemas começaram a se repetir com a turma de 1º ano do CIEI Leolino José Fernandes, em Iraquara, a 469 quilômetros de Salvador. "Muitas crianças ficavam com vergonha até de pedir para ir ao banheiro por causa das piadas", recorda Vânia. A professora levou a obra de Brenman à sala. Depois de ler as primeiras páginas, questionou: "Quem aqui solta pum?". 

A pergunta surpreendeu os meninos e as meninas. Apenas Murilo Silva Santos, 7 anos, confessou: "Eu solto todo dia. E meu avô disse que meu pum é o mais fedido que existe!". Ao final da leitura, a educadora propôs que estudassem o assunto nas aulas de Ciências. A empolgação deles foi o sinal verde para seguir adiante a ideia. 

Como ponto de partida, Vânia solicitou que elaborassem um cartaz com uma tabela: em uma coluna, listaram dúvidas e na outra registrariam o que aprendessem ao longo do tempo. Utilizar a curiosidade dos estudantes pode ser proveitoso, mas o trabalho não deve se restringir a responder às questões deles. "O professor precisa ir mais fundo e dar a oportunidade para que as crianças descubram coisas que elas nem sequer desconfiem existir", ressalta Luciana Hubner, consultora pedagógica de NOVA ESCOLA e selecionadora de Ciências do Prêmio Educador Nota 10. Entre as dúvidas elencadas pela meninada estavam: "Como se forma o pum?", "Por que as pessoas soltam gases?", "Por que o pum fede?", entre outras. 

Testando a saída de ar na bexiga, a garotada entendeu porque os puns fazem barulho
As comidas estragadas servem como modelo para entender a origem do fedor dos gases

Para discutir a origem das flatulências, Vânia recorreu a textos do site da revista MUNDO ESTRANHO e do site G1. Outras fontes também podem ser utilizadas. "Produções mais complexas, como artigos científicos ou verbetes de enciclopédia, requerem outros tipos de intervenção do professor. Por isso, é importante ter cuidado para selecionar os materiais mais adequados à proposta e à turma com que se está trabalhando", explica Luciana. A garotada também já deve conhecer algumas das estratégias utilizadas na leitura de textos informativos. 

Na primeira atividade, a classe descobriu que os gases são formados durante a digestão. "Isso ocorre com a fermentação dos alimentos, principalmente nos intestinos. Depois, eles são expelidos pelo ânus", explica Paula Gonçalves Macedo, professora de Nutrição da Faculdade Santa Marcelina (Fasm), na capital paulista. Para demonstrar como ocorre essa eliminação, Vânia utilizou uma bexiga que, ao ser esvaziada, simulava a saída dos gases pelo orifício anal. "Os músculos dessa região controlam o escape do ar, assim como fazemos no balão", explicou. As crianças também notaram a relação entre a velocidade com que o ar saía e o som feito por ele. "Quando soltamos o pum mais rápido, ele faz mais barulho do que quando soltamos devagar", conta a estudante Alice Souza Neves, 7 anos.

 

Parceria com um especialista 

Mesmo com muita pesquisa, Vânia não conseguia achar respostas para algumas questões levantadas durante o projeto. Ela decidiu, então, recorrer a Josevaldo Alves, professor de Ciências em uma escola dos anos finais do Ensino Fundamental. "Ele me indicou alguns materiais de estudo e me ajudou na seleção dos textos usados", conta. 

 

Josevaldo também foi à escola explicar os motivos do mau cheiro dos puns. Em sala, ele esclareceu que os gases produzidos pela ação de bactérias durante a digestão são responsáveis pelo fedor e que o odor depende da dieta de cada um (veja no quadro como as comidas influenciam os puns). "Como amostra, levei alguns alimentos em decomposição", explica o especialista. A garotada cheirou cada uma das comidas levadas por Josevaldo para identificar os piores odores. "O feijão foi o campeão", lembra Alice. 

Outro aspecto enfatizado foi a relação entre os puns e o bem-estar físico. "Segurar os flatos pode ter consequências graves, como fortes dores no abdômen e até no peito", esclarece a nutricionista Paula. A professora apresentou um vídeo com o relato de um sobrinho seu que teve esses sintomas. As crianças também observaram e discutiram sobre uma radiografia do abdômen do jovem, em que era possível ver os gases. No depoimento, ele conta que os médicos o orientaram a praticar exercícios físicos para liberá-los. 

Durante todo o trabalho, a turma anotou as aprendizagens no cartaz feito no início das atividades e nos cadernos. Para Celi Chaves Domingues, docente da licenciatura em Ciências da Natureza na Universidade de São Paulo (USP), a atividade de registro é uma das mais importantes. "Nela, o aluno pode reestruturar o pensamento e revisitar as informações que acessou", defende. O projeto foi finalizado com a montagem de uma exposição na escola, para compartilhar com todos os colegas as informações descobertas. 


Fotos: Sthel Braga. Ilustrações: Estúdio Rufus