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Professor de dia, gestor à noite

Atuação nas duas áreas colabora para que uma prática alimente a outra

POR:
Sophia Winkel, Patrick Cassimiro e Ana Ligia Scachetti

Docência e gestão andam lado a lado no ambiente escolar. Quem trabalha nessas funções precisa atuar em parceria, trocar conhecimentos com frequência e traçar caminhos para que ambas atinjam o melhor resultado. Mas será que é possível um único profissional conciliar esses dois lados da moeda? Os relatos a seguir mostram que sim, e ainda dá para se beneficiar  bastante da dupla experiência.

Daniely Gomes de Souza Mazzo é coordenadora pedagógica na EM Professor Vicente Bastos, em São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo, e também é professora em docência compartilhada, apoiando os regentes de Língua Portuguesa e Matemática, no 6 º ano da EMEF Professor Henrique Melega, na capital paulista. 

Atuar em cargos tão diferentes não a incomoda, pelo contrário. "Eu vou para a sala de aula com visão de coordenadora e participo da gestão com os olhos de professora. É mais fácil para entender o que funciona e o que não dá certo e sinto que consigo contribuir nas duas instituições", comenta. "Aprendi a observar indicadores nas turmas em que leciono para poder contribuir na formação da minha equipe." Quando está em classe, Daniely presta atenção em aspectos como o planejamento da rotina, a comunicação com os alunos e a avaliação formativa. Nas horas de trabalho pedagógico-coletivo (HTPC) que coordena, problematiza suas reflexões com os outros docentes. 
Desde que diversificou as atividades, ela considera que o maior ganho para sua atuação foi o de aprender a escutar. "Para essas duas profissões, o diálogo é essencial. Se professores e coordenadores falarem em línguas diferentes, não há como trabalhar", pondera  educadora.

Como resultado, Daniely acaba sendo referência entre os colegas da EMEF. Perguntam a ela sobre dúvidas em relação a avaliações externas, problemas com indisciplina e planejamento, pois sabem do outro emprego que ela possui. Essa é uma realidade bastante positiva na opinião de Gilda Lück, professora de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). "Muitas vezes, as pessoas no ambiente de trabalho podem achar que um professor que possui essas duas funções tem mais subsídios para tomar algumas decisões do que elas. Com base nisso, dois processos podem se iniciar. Um deles é o que aconteceu com Daniely, os demais docentes pedem opiniões pra ela e trocam experiências, algo muito saudável e que culmina em uma ajuda mútua. No entanto, o que também pode ocorrer é que, perante essa sensação de insegurança, o grupo passe a marginalizar essa pessoa, de forma a afastá-la da integração social", explica. Para a especialista, ainda que esse seja um problema que venha a ser enfrentado, um bom domínio pessoal, um pouco de diplomacia e muita conversa podem resolver a situação.

Todo professor também é gestor

Carlos Roberto Jamil Cury, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), lembra que não só docência e gestão estão ligadas mas também a primeira precede a outra. É o que afirma o primeiro parágrafo do artigo 67 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB): "A experiência docente é pré-requisito para o exercício profissional de quaisquer outras funções de magistério, nos termos das normas de cada sistema de ensino". "Isso quer dizer que, antes de qualquer licenciatura ou concurso, é a atuação em sala de aula que capacita e permite que um profissional ocupe um cargo de gestão", completa o especialista. Quando a prática em classe é mantida após assumir uma posição gerencial, a formação pode continuar acontecendo no dia a dia e contribui para o aprimoramento do profissional. Gilda acrescenta que o professor é um gestor nato e está sempre planejando atividades, elaborando provas, procurando oferecer mais do que o currículo exige e descobrindo talentos entre os estudantes. Portanto, é normal que ele se dê bem atuando na função.

A educadora Aline Rocha Menezes seguiu o mesmo caminho que Daniely e coloca em prática o que aprendeu nos dois cargos em que trabalha. No Colégio Conexão, em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, ela dá aulas de Matemática para os anos finais do Ensino Fundamental. À noite, é coordenadora de turno no Colégio Estadual Santa Bárbara, que atende adolescentes e adultos em Padre Bernardo, a 246 quilômetros de Goiânia. "Atuar nas duas posições colabora bastante com minha atuação pois, em sala, você passa a entender melhor as cobranças que sofre para o bom funcionamento da equipe e, como gestora, consegue cobrar os professores de uma maneira diferente. Acaba vendo os dois lados em qualquer uma das funções e pensa: se eu fosse professor aqui, eu faria isso? Como coordenadora nessa circunstância, eu agiria dessa maneira? É bacana, pois você consegue se colocar naquela situação e refletir", exemplifica Aline.

Para ela, a prática na gestão colabora para que se sinta mais solicitada a se engajar e cumprir metas estabelecidas para a sala de aula, pois só assim ela fica confortável em pedir o mesmo à equipe de professores no Colégio Estadual Santa Bárbara. Nas reuniões pedagógicas, Aline procura levar a realidade da classe para os colegas gestores que estão mais distantes dela. Assim, os dois cargos se complementam a favor da prática.


Ilustrações Melissa Lagôa

Fotos Arquivo pessoal/ Daniely Mazzo e Aline Menezes