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Quem tem mapa vai a Roma!

Combine arqueologia e tecnologia para apresentar o passado do maior império que o mundo já viu

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Bruna Escaleira, Patrick Cassimiro e leonardo de sá

Gladiadores enfrentando leões, soldados com armaduras, donzelas com vestidos brancos e bigas,  aquelas carruagens típicas, correndo sobre o chão de terra batida. Muitos filmes, seriados de TV, livros e obras de arte trazem retratos emblemáticos do Império Romano. Mas será que era assim que vivia um cidadão de lá?

O programa Roma 360 mostra a cidade em 3D com destaque para edifícios como o Coliseu | Reprodução

O que complica o tema é seu distanciamento da realidade atual. Relacionar e comparar aspectos da Roma antiga ao contexto das cidades modernas é uma saída. "Dá para discutir o tipo de saneamento básico da época e o de hoje, e qual era a ideia de uma cidade planejada para aquela civilização e para nós", sugere Lucas Monteiro, professor de História da Escola Santi e do Instituto Acaia, em São Paulo. Para dar conta dessas relações, pode-se usar os saberes da arqueologia, ciência que costuma ficar restrita aos museus históricos e etnográficos. "Trabalhar com os indícios arqueológicos dessas instituições é um desafio. Por seu caráter fragmentado, muitas vezes eles não despertam o interesse do grande público", comenta Carla Ribeiro, museóloga da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Valorizar os vestígios ajuda a compreender características sociais, culturais e psicológicas de um povo.

Arqueologia atualizada

Uma novidade que pode ser a chave para desbravar os saberes museológicos e torná-los mais acessíveis é a ciberarqueologia. Por meio dela, modelos em 3D permitem a interação do público com sítios e objetos arqueológicos. O conceito surgiu nos anos 2000 com o professor Maurizio Forte, da Duke University, nos Estados Unidos. No Brasil, o campo é novo, mas já explorado pelo Laboratório de Arqueologia Romana Provincial (Larp) do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), que estuda  sociedade, religião, paisagem, arquitetura e urbanismo da Roma antiga e suas províncias. 

Para levar o conhecimento estudado na universidade para as práticas pedagógicas, Alex Martire, doutorando do Larp, criou o aplicativo Roma 360. O programa reproduz a cidade em um modelo 3D que permite ao usuário passear por suas estruturas e conferir detalhes das obras mais importantes da antiguidade, como o Coliseu, o Circo Máximo e o Fórum. "Quem navega percebe como as construções eram desorganizadas e amontoadas, o que se assemelha a São Paulo", comenta o pesquisador. O aplicativo também oferece textos explicativos sobre alguns dos edifícios, que aparecem quando se passa o mouse sobre eles. 

Domus, que significa casa em latim, é outro programa criado pelo Larp. Ele revela a vida privada dos habitantes da Metrópole ao reconstruir o tipo de moradia das classes mais abastadas: amplas e com espaços para funções definidas, como o balneum, espécie de sala de banho, e a tablina, escritório onde o dominus, o senhor da casa, recebia clientes e amigos. Ao visitar cada ambiente, o usuário visualiza textos sobre sua utilização e pode manipular objetos como jarros e lamparinas.

A câmera do smartphone revela os detalhes do ambiente da planta impressa | Reprodução

A reconstrução de espaços e utensílios corresponde com precisão às referências estudadas pelo Larp. Entre elas, estão as das províncias romanas de Pompeia e Herculano, que permaneceram intactas após serem cobertas por cinzas do vulcão Vesúvio no ano de 79 d. C. e foram escavadas no século 18. "Elas se tornaram grandes referências. Vestígios de cerâmicas, mobília e metais compõem o que se chama 'de cultura material' e são ícones da pesquisa arqueológica", diz Tatiana Bina, pesquisadora do laboratório. A observação das peças aponta para usos e costumes de uma civilização. "Quando os alunos descobriram que em algumas casas romanas a latrina era do lado da cozinha, ficaram espantados", comenta Alex a respeito da primeira vez em que a equipe do Larp levou o Domus a uma sala do 6º ano do Liceu Jardim, em Santo André, região metropolitana de São Paulo. 

O site do Larp disponibiliza aplicativos e textos para planejar o uso em sala de aula. Uma das inovações que vem por aí é a planta baixa da casa romana impressa com códigos QR. Ao apontar a câmera de um smartphone ou tablet para o código de um ambiente, o usuário verá sua versão tridimensional. Carla acredita que a tecnologia serve de chamariz para essa geração de alunos. "Da mesma maneira que se deve atualizar a didática escolar, permitindo o uso de celulares, também é preciso expandir os horizontes dos museus, e bons programas podem cumprir essa função", pontua a museóloga.

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Foto principal Getty Images