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Jornalismo

Do lado de fora da sala, um belo pé de flamboyant, árvore de copa ampla, exibe toda sua grandiosidade. Na frente dela, o professor Alberto Rodrigues dos Santos põe-se a contar, animadamente, a história de um mito africano para as crianças da pré-escola da EMEI Moacir Faria, em Piraju, a 336 quilômetros da capital paulista. Todas escutam atentas, sentadas em esteiras de palha sobre o chão de terra. Em seguida, os pequenos, de 5 anos, materializam com pinturas, construções ou encenações o conto ouvido. Esse processo se repetiu por quatro meses, em que foram trabalhados elementos da história e da cultura de países da África (veja algumas dessas propostas na galeria de fotos, ao final da reportagem).

Desde 2003, a Lei nº 10.639 prevê o estudo dessa temática no Ensino Fundamental e no Médio, e é importante que ele esteja presente também na Educação Infantil. Porém, poucos educadores a colocam em prática e uma quantidade ainda menor consegue explorá-la sem ficar reduzido a uma visão estereotipada e homogeneizada - ou seja, ignorando a diversidade daquele continente (saiba mais aqui).

O foco das atividades desenvolvidas a partir daí foi a contação de histórias e os jogos de faz de conta, essenciais nessa fase da infância. "As fantasias ou os mitos permitem à criança compreender, ao seu modo, os temas neles presentes", diz Lino de Macedo, professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e colunista de NOVA ESCOLA.

Com isso, além de apresentar aos pequenos personagens e enredos de diversos locais da África - e também da tradição afro-brasileira -, usou um recurso bastante comum por lá. Ele reproduziu um ambiente com a figura do griô, o contador de histórias - e que também canta - típico do Mali. Trata-se de uma personalidade real da sociedade africana que ensina sobre seu povo enquanto transmite oralmente fatos, saberes sobre a ciência e tradições por meio de relatos fantásticos. "Essa imersão permite que a turma se aproxime de outras culturas por uma via que não é a do folclore, como costuma acontecer, mas de conhecer a riqueza de possibilidades de ser e de viver", diz Maria Virgínia Gastaldi, formadora do Instituto Avisa Lá, em São Paulo.

Embaixo da árvore, cada mito era contado pelo docente, sem o uso de imagens. Ele utilizava apenas elementos naturais e a imaginação dos pequenos para criar as representações das narrativas. "Muitas comunidades africanas acreditavam que a divindade estava em uma árvore considerada sagrada", explica Renato Araújo, pesquisador do Museu AfroBrasil, em São Paulo. Assim, foi proporcionada à turma a criação de um campo de construção de significados.

"Toque-toque", diziam as crianças ao se aproximar do flamboyant para que lhes fosse permitido ouvir as histórias do griô. Essa espécie de palavra mágica, criada pela meninada, era um ritual que dava início à contação, introduzindo o grupo ao momento de escuta atenta. Diferentemente da tradição de Mali, os mitos contados pelo professor foram narrados, não cantados. Depois, com materiais naturais variados apresentados pelo docente, a turma partia para o faz de conta. "A proposta apresentou aos pequenos novas formas de aprender e de expressão plástica, corporal e oral", afirma Virgínia.

Em sua maioria, as histórias ouvidas pela turma tinham origem na Nigéria e em Angola, com mudanças sofridas no Brasil por causa da mistura de culturas ocorridas aqui. "Cada povo africano tinha um deus. Mas, como vieram pessoas de todas as regiões ao Brasil, criou-se um panteão contemplando todas as divindades", explica Renato.

Uma das primeiras narrativas foi a da boneca abayomi (palavra iorubá, idioma falado em alguns locais da África, como a Nigéria). Conta-se que uma mãe viajava em um navio negreiro com a filha para o Brasil. A menina sentia fome e tédio. Para distraí-la, a mãe rasgou pedaços da saia e deu nós, formando uma boneca de pano. Com sobras de tecido, a turma confeccionou suas próprias abayomis, como cada um a imaginava.

Outro mito relatado foi o da criação do Universo, presente em alguns povos. O mundo teria sido feito com uma cabaça cortada ao meio, e uma galinha-d'angola espalhou um pó preto por ela, formando os continentes. Cada elemento natural foi dominado por uma divindade vinda à Terra, a exemplo de Iemanjá, rainha do mar.

Ao criar uma realidade paralela, que amplia os locais de aprendizado para além da classe, Alberto propiciou às crianças mergulhar num mundo de magia e, ao mesmo tempo, de vivências culturais. A árvore da escola ganhou significado, assim como tradições afro-brasileiras e africanas.


Algumas daS propostas realizadas no projeto

Olorum

  • MITO Um avestruz recebeu do deus Olorum a tarefa de guardar o fogo do conhecimento. Ele o cobriu com as asas e, por isso, não voava mais. Porém, um humano conseguiu roubar um pouco do fogo e, desde então, a ave foge quando alguém se aproxima.
  • ATIVIDADE As crianças criaram esculturas com ovos do pássaro. Com plumas, brincaram de pega-pega. Um grupo simulava guardar o fogo enquanto outro tentava roubá-lo.

Xangô

  • MITO Recém-chegado a um povoado, Xangô, o guerreiro justo, tocava tambor nas noites. Os habitantes ficaram inebriados com os batuques, pois nunca tinham ouvido música. Até o rei foi escutá-lo e deixou a coroa cair na cabeça de Xangô, que se tornou rei.
  • ATIVIDADE Com gravetos, os pequenos desenharam o mito como o entenderam. Também tocaram instrumentos de percussão de origem africana levados pelo docente.

Oxumaré

  • MITO A beleza de Oxumarê era admirada por todos, que invejavam suas roupas coloridas. Certo dia, a chuva castigava a Terra. Para pará-la, Oxumarê cortou o céu com seu punhal de prata. Desde então, após o aguaceiro, o céu é enfeitado por um arco-íris.
  • ATIVIDADE As crianças criaram brincadeiras com uma escultura feita por elas para representar Oxumaré. Para isso, usaram mangueiras, cascas de árvores e palhas.

Consultoria Marly Barbosa, educadora da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

Fotos Arquivo pessoal/Alberto Rodrigues dos Santos

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