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HPV tratado sem tabus e com todos

Meninas e meninos que entendem as formas de contágio e prevenção ampliam seus saberes sobre o corpo

POR:
Jacqueline Hamine, leonardo de sá e Fernanda Salla

Quantos alunos em sua turma se vacinaram contra o HPV (papilomavírus humano)? Esse é o nome de um grupo de mais de cem tipos de partículas proteicas cuja ação no corpo está ligada ao surgimento de doenças neoplásicas, isto é, que promovem o crescimento desordenado de células nem sempre bem-vindas. Quando elas afetam o funcionamento de um órgão vital, são consideradas malignas. É o caso do câncer de colo de útero, que mata 230 mil mulheres por ano no mundo, segundo o Ministério da Saúde. O assunto dominou os noticiários e as rodas de conversa dos jovens em todo o país há cerca de um ano, quando começou uma campanha nacional para imunizar gratuitamente garotas de 11 a 13 anos. 

O público foi ampliado em 2015 e meninas a partir dos 9 anos já podem ser vacinadas contra todos os subtipos do vírus, com 98% de eficácia. Mesmo assim, a procura pela primeira dose (de três necessárias) caiu pela metade (veja gráfico no final da página). Preconceito e falta de informação estão entre os motivos para essa queda. 
Apesar da importância do tema, ele ainda se mostra ausente das aulas de Ciências. Quando é tratado, isso ocorre em situações episódicas, ficando restrito a dados estanques e pontuais, ou pior, é voltado apenas para a ala feminina da classe. Prevenção de doença é uma questão de saúde pública e cuidar do próprio corpo se aprende na instituição de ensino. "Minha mãe me levou ao posto de saúde, mas na escola o HPV nem sequer foi discutido", diz Yasmin Fernandes, 11 anos. "Falava sobre isso com as amigas e a família, mas não sei como se dá o contágio", completa a irmã Melissa Fernandes, da mesma idade.

A informação é a principal forma de prevenção, pois além de dar subsídios para que meninas e meninos se conscientizem sobre como e para que devem se cuidar, também ajuda a acabar com ideias equivocadas. "Muitas pessoas acreditam que abordar o assunto significa incentivar os alunos a transar. Mas a vida sexual dos jovens existirá ou não independentemente disso. Como a escola é o lugar onde eles passam boa parte do dia, é um dos locais mais adequados para que reflitam sobre as práticas que surgem em suas vidas", diz Maria Helena Vilela, sexóloga e diretora do Instituto Kaplan, em São Paulo. Leia a seguir as respostas para as principais dúvidas sobre o HPV.

1. Apenas as meninas devem aprender sobre HPV?
Não. Já que era impossível atingir toda a população, as mulheres foram priorizadas na campanha do Ministério da Saúde por ser as vítimas do câncer de colo de útero, que é a segunda categoria da doença com maior incidência no país. "A relação do HPV com esse tipo de câncer é a mesma que a do fumo com o de pulmão", diz Rosana Ritchmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo. Porém, homens também podem desenvolver doenças decorrentes do contato com o papilomavírus humano, como verrugas genitais e câncer de pênis. Sendo assim, todos devem aprender sobre o assunto e tomar a vacina. "O interessante é que as conversas sobre o HPV aconteçam dentro da sala de aula e com ambos os sexos. Afinal, ninguém pega sozinho", afirma Maria Helena Vilela. A sexóloga também lembra que há transmissão em relações tanto hétero quanto homossexuais, o que implica não só na necessidade de um debate franco sobre as formas de contágio como também a respeito da sexualidade de um modo geral, sem deixar que os tabus impeçam uma discussão madura com a turma.

 

2. O assunto só pode ser abordado em aulas de Educação sexual?
Não. Estudar o sistema imunológico, bem como a origem e o funcionamento das vacinas, é essencial para cumprir uma das missões da área de Ciências, que é promover o autoconhecimento para o cuidado com si mesmo e com a vida de todos. O objetivo consta dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), que também preveem a discussão sobre as funções reprodutoras e sexuais nos trabalhos de Corpo Humano e Saúde. Esse estudo deve ser perpassado pelas doenças sexualmente transmissíveis e as formas de prevenção, o que contempla o HPV.
No Colégio Bandeirantes, em São Paulo, o professor Waldir Hernandes trabalha o tema com a turma do 8º ano nas aulas de Ciências. "Os alunos apresentam seminários em sala sobre o funcionamento do vírus, o sistema de contágio e as maneiras que o organismo lida com ele - seja eliminando-o ou estimulando o desenvolvimento de doenças. Eles também frequentam o laboratório para visualizá-lo", conta. Páginas confiáveis da internet, como a do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional de Câncer, podem ser fontes sobre o assunto. Falar sobre o HPV na escola, porém, não é só cumprir uma pontualidade prevista pelo currículo. Isso também garante aos alunos o acesso a informações para que eles possam vivenciar sua sexualidade de maneira consciente e saudável. "Ao tratar sobre o tema é preciso estar preparado para lidar com essas questões de uma forma tranquila. A discussão fica melhor quando o educador tem clareza para mediar o debate", pontua Waldir.

 

3. A vacinação é para quem quer fazer sexo? 
Não necessariamente, já que a relação sexual não é a única forma de contágio. Uma pequena exposição ao HPV é suficiente para promover a contaminação, pois ele sobrevive muito tempo fora do corpo humano. "O contato de pele e mucosa, como ocorre em um beijo na boca, por exemplo, também pode transmitir o vírus", explica Rosana. Além disso, é possível contrair ao compartilhar toalhas e roupas íntimas e ao usar banheiros públicos. 
Muitos pais ainda têm desconfiança em relação à vacinação por acreditarem que, ao autorizarem, estarão incentivando as filhas a fazer sexo. "O alto índice de ausência de meninas na segunda campanha nas escolas também se deve a uma falta de preparo da família", diz Maria Helena. Não é à toa: os adolescentes não falarão do assunto com os pais sem que estejam informados. E os adultos, por sua vez, não vão querer que os filhos recebam uma medicação profilática associada a um vírus transmitido sobretudo sexualmente sem entender como ela funciona de fato. Só o conhecimento habilita as pessoas a decidir como se cuidar.

 

4. Por que temos de nos preocupar se o HPV pode não causar nada? 
Em muitos casos, o corpo elimina o vírus antes que ele faça algum mal. Porém, isso tem a ver com a atividade e a estrutura do sistema imunológico, que muda de pessoa para pessoa. Se para alguns ele é combatido sem nenhuma medida profilática, para outros o organismo pode ser um ambiente favorável para desenvolvê-lo, estimulando uma produção celular inadequada que gera feridas internas ou pequenos tumores - as conhecidas verrugas decorrentes do HPV. "Quando elas aparecem, são retiradas com cirurgia, pois é nelas que se concentra o vírus", explica Laura Sichero, pesquisadora do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp).

 

5. Adultos precisam se imunizar?
Sim. Mesmo havendo um tratamento capaz de combater as manifestações patológicas do HPV, a vacinação ainda é recomendada para todos, incluindo aqueles que, por ventura, já tiveram contato com o vírus, como qualquer pessoa sexualmente ativa. No caso das mulheres, a realização periódica do exame do papanicolau colabora para detectar feridas na região intrauterina, que, justamente por não se encontrarem expostas, são as mais perigosas. Vale ressaltar que o uso de preservativo oferece uma chance de proteção em 70% dos casos, mas não extingue a possibilidade de infecção, pois o contato da pele e das mucosas durante o sexo pode continuar existindo. 

 

6. A vacina infecta quem a toma? 
Não. "A imunização ainda é o melhor remédio", afirma Laura. A pesquisadora explica que ela é feita, dentro dos laboratórios, de partículas semelhantes a um vírus, porém vazias. Ou seja, elas possuem a capa do papilomavírus humano, mas não o seu núcleo. "Quando o corpo recebe essa partícula na forma de vacina, ele monta uma resposta imune a ela, produzindo anticorpos em altíssima quantidade", conta. Desse modo, caso uma pessoa seja eventualmente infectada pelo HPV, os anticorpos já existentes serão capazes de combater o vírus antes que ele possa reagir no organismo. Cem países já utilizam a vacina no mundo. São mais de 200 milhões de doses sem registro de ocorrências do tipo, segundo o Ministério da Saúde.


Ilustrações: Priwi