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Receita para uma boa aula de espanhol

Ao conhecer pratos típicos, os alunos pensaram sobre o uso do imperativo na cultura hispânica

POR:
Bruna Escaleira, Jacqueline Hamine e leonardo de sá
Alunos comendo guacamole em aula de espanhol

Aprender uma nova língua sem ter em vista como ela é usada em uma situação real de comunicação é contraproducente e contribui para o desinteresse dos alunos. A professora Glady Couñago se deparou com isso nas aulas de espanhol da EBM Professor Donato Alípio de Campos, em Biguaçu, região metropolitana de Florianópolis. "Sempre procuro a melhor maneira de trabalhar o idioma para que eles o compreendam como a expressão cultural de um povo, e não apenas um monte de palavras desconhecidas", diz.

No final do primeiro semestre, Glady começou a abordar com o 7º ano um conteúdo muito usado na língua espanhola, o imperativo. "A gastronomia é bem rica na cultura hispânica e esse modo verbal indica uma ordem, um pedido ou uma instrução. Então, resolvi explicá-lo por meio de receitas típicas", conta.

Ela perguntou para a classe quem conhecia pratos de países hispânicos e a maioria nunca havia tido contato direto com as delícias desses locais. Então, a educadora selecionou e imprimiu receitas de paella, da Espanha, dos panchos, da Argentina e do Uruguai, e de nachos e guacamole, do México. Certificou-se de que o vocabulário era compreensível para os jovens e dividiu a turma em grupos de cinco pessoas.

Cada um ficou responsável por ler e avaliar uma comida. Depois, a professora pediu que os alunos comentassem o que era comum nas descrições dos pratos. Nem todos souberam responder, mas boa parte identificou as instruções. "As informações sobre como cortar a cebola ou amassar o abacate são os verbos no modo imperativo", explicou. Sandra Durazzo, diretora da Target Idiomas, em São Paulo, lembra que os alunos sabem o que é uma receita, mas não estão acostumados com a versão dela em espanhol. "Então, usaram as ferramentas que já possuíam para desvendar o que ainda não conheciam", destaca.

Glady deu continuidado à sequência didática com uma aula expositiva, apontando as características de cada texto e relacionando-os aos países de origem. Depois, utilizou o roteiro proposto no livro Cercanía (Ludmilla Coimbra, 183 págs., Ed. SM, tel. 08007254876, 101,85 reais). "A conjugação desse modo segue a mesma lógica do português: é um verbo emitido por um sujeito com o intuito de orientar o receptor. O que tem de diferente é a colocação dos pronomes ou como acrescentamos os objetos diretos ou indiretos na frase", explica Sandra. Por exemplo, enquanto dizemos "sirva-o" em português, em espanhol, a formação correta é "sírvelo". Há, ainda, uma distinção cultural. "Nós, brasileiros, evitamos o imperativo e acrescentamos algum advérbio para amenizá-lo. Muitas vezes um simples 'abra a porta' torna-se um 'você poderia, por favor, abrir a porta?'. A instrução sai do imperativo e alcança o futuro do pretérito", comenta Maria Clara Cohen, especialista no ensino de espanhol.

A professora avaliou que os adolescentes continuavam com dificuldade de conjugar os verbos e decidiu, então, executar um dos pratos na escola. Para isso, contou com o apoio da supervisora e da diretora. "Escolhi fazer com eles o guacamole por ser simples e bem diferente das comidas do Brasil", explica. No dia combinado, a turma foi para a cozinha da instituição e a docente distribuiu os ingredientes. Em seguida, orientou em espanhol como proceder. "Outra possibilidade seria distribuir as receitas e orientar que uns dessem as instruções aos outros", sugere Sandra.

Além de se deliciar, a turma conheceu mais sobre o México. O guacamole é um prato típico de lá, porque seu principal ingrediente encontra as condições adequadas para se desenvolver. "A palavra guacamole, que vem do idioma indígena náhuatl, significa molho de abacate. Segundo a mitologia, o deus tolteca Quetzalcoatl foi o responsável por oferecer a receita para o seu povo", explica o mexicano Jésus Gonzáles, especialista no ensino de espanhol para estrangeiros pela Universidade Autônoma de Morelos, naquele país.

Taller gastronómico

A professora Adélia Evangelista de Souza, do Colégio Stocco, em Santo André, região metropolitana e São Paulo, também ensinou o modo imperativo por meio do gênero receita. Para introduzir
o conteúdo para o 7º ano, ela exibiu um vídeo em que o guacamole era preparado. Em seguida, destacou a conjugação de cada verbo, mostrando a receita por escrito. Ao final da atividade, constatou que ainda havia certa insegurança. Por isso, preparou um taller gastronómico, um curso prático, onde todos põem a mão na massa.

Na semana seguinte, a turma se reuniu na copa do colégio para fazer o guacamole (confira a receita abaixo, com os verbos no imperativo destacados). Adélia distribuiu os textos, organizou os alunos em grupos e entregou uma parte dos ingredientes para cada um. "Eu até poderia realizar a atividade sozinha, apenas mostrando para eles como se faz, mas isso descaracteriza o taller", explica. Em espanhol,
a docente foi dando as instruções para a classe, que ouvia os verbos e executava as tarefas.

O que chama a atenção nos dois casos é a ideia de propor uma vivência para deslocar os estudantes de sua posição habitual, tornando-os protagonistas do aprendizado e estimulando-os a usar os conhecimentos do idioma, noções sobre gêneros textuais e funções gramaticais para desvendar um novo conteúdo. "A gente deve primeiro colocar o aluno para sentir a necessidade daquele aspecto da língua e ativar tudo que ele sabe para resolver o problema cognitivo, e só então instrumentalizá-lo", afirma Sandra. E se, depois disso, o resultado incluir um prato de guacamole, o aprendizado será ainda mais saboroso.

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Fotos: Edu Lyra