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Mil e uma ideias sobre os números

Regina Scarpa escreve sobre o desenvolvimento das crianças

POR:
NOVA ESCOLA
Regina Scarpa,

Regina Scarpa,
Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora pedagógica da Escola Vera Cruz, em São Paulo

Na edição anterior, escrevi sobre a relação que as crianças estabelecem com as letras no processo de aquisição da escrita alfabética. Falei sobre a importância de elas serem abordadas na complexidade do sistema e não isoladamente e mostrei que o trabalho contextualizado favorece a evolução dos alunos. Agora, quero discutir que isso também vale para o sistema de numeração. 

Há alguns anos, a equipe da escola de Educação Infantil que eu coordenava organizou uma atividade em que as crianças recebiam cédulas de dinheiro de brinquedo para comprar e vender sacos de bala. Vimos Caio, 5 anos, olhar para o número 10, que indicava o preço de um produto, contar as notas de 1 que tinha nas mãos (que não chegavam a 10), pensar e resolver dar apenas uma. Perguntamos por que ele tinha tomado essa decisão. Está escrito que o preço é 10, mas o zero não vale nada, então dei o 1, mesmo, ele disse.

Motivada por momentos como esse, fiz uma pesquisa e entrevistei cerca de 60 crianças sobre o que pensavam sobre o zero. Fiquei encantada com as respostas. Elas incluíam percepções semelhantes à do garotinho e outras como é uma bolinha redondinha, parecida com a letra O, é o primeiro número, é um número que não vale nada, é uma coisa que não existe, é uma quantidade que não tem nada e é tudo de negativo, que nem no caso de estudar e tirar zero. 

A noção de que o zero não vale nada tem a ver com olhar para os números como se eles fossem apenas indicativos de uma quantidade. O conceito de que um algarismo representa uma ideia, inicialmente, não faz sentido para as crianças. Quando elas começam a contar, e veem que há três lápis, tendem a representar essa noção de diversas maneiras, com três tracinhos ou três bolinhas, por exemplo, e não com um único símbolo. Precisamos compreender esse processo.

Afinal, o 3 nem sempre simboliza três coisas. Ele pode representar uma relação de ordem, se for o terceiro elemento de uma série. Às vezes, é apenas um código, como quando é parte de um número de telefone ou do RG de uma pessoa. Em  outras oportunidades vale menos de 1, como em 0,30 e 1/3 ou muito mais coisas, como em 3.000. A ideia de número é universal. Três pãezinhos são três pãezinhos em qualquer lugar, independentemente da forma como a pessoa escreve isso. Mas cada sistema utilizado para fazer essa representação como o romano, o egípcio e o arábico possui normas próprias.

Trabalhar com a quantidade não é um pré-requisito para entender os números. Ao tentar simplificar esse conhecimento, acabamos adiando o contato das crianças com o nosso sistema de numeração. Devemos, portanto, mostrar toda a organização que ele possui, favorecendo a reflexão em situações de uso social. 

Nesse sentido, é interessante que a lista de números também seja compreendida dentro de um contexto. Se for um álbum de figurinhas, o zero de que estávamos falando não aparece no início, só junto do 10. Mas, se consultarmos uma régua, ele está lá, logo no começo. Com suportes como esses, o estudante vai entendendo que, dependendo de onde está o zero, a magnitude dele muda. 

A criança aprende na complexidade. Não adianta tentar adiar o contato dela com elementos que estão presentes em todos os momentos da nossa vida e sobre os quais ela já possui inúmeras concepções. O melhor é aproveitar essas 1.001 possibilidades que ela nos apresenta por meio de suas ideias, como nos ensinou Caio.


Em colaboração com Priscila Monteiro, coordenadora de Matemática do programa Nossa Rede do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa.

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